Indicadores qualificam atuação do investimento social privado

Diversos indicadores e parâmetros hoje disponíveis, tanto criados especificamente para o campo social, quanto ressignificados de outras áreas, têm trazido para os institutos, fundações e empresas boas indicações para qualificar, cada vez mais, o seu investimento social privado.

Esse é o caso do Índice de Progresso Social (IPS), criado pelo Social Progress Imperative com apoio de acadêmicos nas universidades de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Inicialmente proposto para a escala global, o IPS tem sido aplicado para diferentes realidades, pois possibilita medir o progresso social diretamente, independente do desenvolvimento econômico. Ele é baseado em um modelo holístico e rigoroso com indicadores sociais e ambientais em 12 componentes e três dimensões. O IPS visa medir os resultados que são importantes para a vida das pessoas, e não o custo ou os esforços para alcançá-los.

No Brasil, ele tem sido utilizado uma ferramenta para orientar processos e tomadas de decisão, seja por parte dos governos, empresas ou sociedade civil organizada. A Coca-Cola e a Natura, por exemplo, desenvolveram e estão aplicando o IPS Comunidades para identificar prioridades em territórios onde desenvolvem negócios e também monitorar o impacto de seus investimentos. Há também o IPS Rio, sendo a cidade do Rio de Janeiro a primeira no país a contar com o IPS por região administrativa (RA) e o IPS Amazônia, que analisou os 9 Estados e 772 municípios da região.

Já em Goiana, em Pernambuco, o Grupo FIAT Chrysler Automobiles e a Klabin estabeleceram uma parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e outras faculdades locais para que os alunos possam ir a campo, fazer a pesquisa e construírem os indicadores do IPS Comunidades.

Diversas destas iniciativas vão ser compartilhadas, inclusive, no Seminário da Rede de Progresso Social, que será realizado no dia 1º de setembro, em São Paulo (veja ao final da matéria como participar). No encontro, além da apresentação de diversas experiências de aplicação do IPS no Brasil, será realizada uma roda de conversa sobre o uso estratégico do IPS para a transformação da qualidade de vida com sustentabilidade no país. Entre os convidados, estão Erika Sanchez Saez, gerente de Fomento e Inovação do GIFE, Glaucia Barros, diretora da Fundación Avina no Brasil, Maitê Gauto, membro da Estratégia Brasil ODS, Olaia Ohanashiro, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre outros convidados.

Durante o seminário, serão apresentados também os resultados do Brasil no Reporte 2017 do IPS. Neste último reporte, o Brasil ocupa a 43ª posição do Índice de Progresso Social, com 73,97 pontos. O país surge na lista atrás de seus vizinhos no grupo de países considerados no ranking, como o Chile, que está na 25ª posição, com 82,54 pontos, e lidera entre os países da América do Sul. A seguir, vêm o Uruguai (31º; 80,09) e a Argentina (38°; 75,90). Ainda à frente dos brasileiros estão, pela América Central, a Costa Rica (28º; 81,03) e o Panamá (40º).

Já em relação aos Brics (grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o País surge à frente de seus parceiros. A África do Sul aparece no 66° lugar, com 67,25 pontos, seguida por Rússia (67°; 67,17), China (83º; 63,72) e Índia (93; 58,39).

O estudo mostra que o Brasil registrou sua melhor performance no item Tolerância e Inclusão do IPS, figurando na 22ª posição do ranking global, mesmo tendo obtido apenas 68,34 pontos no quesito. Isso indica que a grande maioria dos países demonstra possuir uma cultura e práticas pouco adequadas nessa área, de acordo com os parâmetros da pesquisa. Por outro lado, o País figura na 121ª colocação da lista em relação à Segurança Pessoal, com apenas 48,38 pontos, o que, como infelizmente é notório, reflete nossos problemas de segurança. Já a melhor nota conquistada pelos brasileiros refere-se ao item Nutrição e Cuidados Médicos Básicos, com 97,07 pontos, mas que reflete somente o 59º lugar na relação.

Glaucia Barros, diretora da Fundación Avina no Brasil, destaca que o seminário, assim como outras iniciativas desenvolvidas pela Rede Brasil de Progresso Social, tem como propósito mostrar para investidores sociais, governos, organizações da sociedade civil o quanto o IPS pode ser utilizado para direcionar suas ações. Segundo Glaucia, o IPS ajuda tanto a diagnosticar as necessidades dos territórios, quanto a avaliar o impacto consolidado das suas ações nas localidades.

“Eu considero o mais importante o apoio ao planejamento. É muito valioso fazer com que os stakeholders do território se apropriarem do que são indicadores de qualidade de vida relevantes localmente. Isso ajuda a contextualizar e, com certeza, vai ser mais assertivo em sua intervenção, pois partiu da escuta e da necessidade das pessoas”, comenta Glaucia.

Segundo a diretora da Fundación Avina, em locais como Cajamar e Caruari, primeiras localidades nas quais o IPS foi aplicado, lideranças locais já utilizam estes indicadores para articular e exigir do poder público local, por exemplo, as melhorais necessárias e buscar as soluções para o território. “O índice virou uma linguagem comum para muitos locais e isso facilita demais, pois poupasse recurso e energia e faz a vida melhorar”, completa. Em Caruari, por exemplo, o IPS foi utilizado para embasar um processo de negociação da comunidade com o Ministério Social, beneficiando diretamente 30 famílias com saneamento e impactando milhares de outras em decorrência da não contaminação do rio local.

“Vemos neste caso o poder multiplicador. Ou seja, a partir de um investimento inicial em pesquisa, na construção do IPS local, se alavancou outros investimentos para o território. O IPS traz esse norte sobre o que é prioritário, o que é urgente, e estabelece um processo colaborativo, por meio da criação do Fórum de Desenvolvimento Local, reunindo os vários capitais sociais, a fim de resolverem juntos as questões locais”, comenta Marcelo Mosaner, gerente programático da Fundación Avina e coordenador de metodologia para o IPS na América do Sul.

Alinhamento ao negócio

Usar os indicadores para se estabelecer uma linguagem comum e aproximar as partes para a realização de ações conjuntas, gerando valor compartilhado, também foi uma das motivações para o Instituto Estre e a sua mantenedora – a empresa Estre – a investirem no desenvolvimento de indicadores financeiros de retorno sobre o ISP.

“Além do benefício para a sociedade e do fim público do ISP, sabíamos que a atuação do Instituto também gerava valor para o negócio. Os indicadores foi o caminho para tangibilizar isto. O benefício e contribuição da atuação do Instituto e dos projetos sociais para a sociedade era muito mais compreendida e percebida. Havia uma necessidade de mostrarmos para diferentes áreas da empresa que este benefício é compartilhado entre sociedade e negócio. Também acreditávamos que este processo auxiliaria a tomada de decisão da estratégia do investimento social, podendo ser mais certeira quando se olhava para licença social, entre outros temas mais próximos ao negócio. E foi isso o que aconteceu”, conta Mariana Rico, gerente Institucional do Instituto Estre.

A localidade escolhida para a realização do projeto piloto foi o município de Rosário do Catete (SE), na qual a Estre tem, desde 2012, operações do Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR). Mariana ressalta que a construção dos indicadores foi resultado de um processo longo, iniciado a partir de muitas conversas com outros institutos empresarias que estavam investigando este tema. “Percebemos que indicadores financeiros de retorno do ISP para o negócio era um tema ainda pouco explorado e cheio de dúvidas e questionamentos. Assim, na sequência, contratamos uma consultoria externa especializada em indicadores para ISP. E, por fim, articulamos o trabalho com diversas áreas da empresa”, ressalta.

O estudo utilizou uma metodologia do IFC – International Finance Corporation (Banco Mundial), que estima os custos evitados da operação e o valor adicionado que ocorrem a partir da atuação do investimento social. Para o cálculo de cada um dos indicadores houve envolvimento de uma série de áreas e atores da empresa, como: diretoria de aterros, gestor do CGR, áreas de comunicação, jurídico, relações institucionais, sustentabilidade e Instituto Estre.

Para o desenvolvimento do fluxo de caixa deste estudo, foram estipulados oito indicadores, divididos entre custos evitados e valor agregado. Os indicadores de “custos evitados” representam 31.9% do resultado do SROI e foram calculados com base em quatro aspectos: paralizações evitadas da operação por atrito com a comunidade, despesas jurídicas, redução por demandas de patrocínios e condicionantes sociais cumpridas pelo Instituto Estre.

Já os indicadores de “valor adicionado” representam 68.1% do SROI, sendo que somente o aspecto “manutenção da licença social para operar” representou 31.3% do estudo. Os outros três aspectos calculados foram: mídia espontânea, receitas de novos contratos e redução do prazo médio de recebimento – como aspecto futuro a ser considerado.

Desta forma, o método permitiu aferir que R$ 3,16 para cada R$ 1 investido é o retorno das ações de investimento social em Rosário do Catete (CE) num período de cinco anos.

Segundo Marina, o processo do desenvolvimento dos indicadores aproximou a atuação do Instituto e dos projetos sociais não só da diretoria, como da área operacional. “Esse movimento gerou muita curiosidade e diálogo interno. Apesar de ter sido somente um projeto piloto, o desenvolvimento de indicadores financeiros de retorno do investimento social foi fundamental para começarmos a conversar com a empresa num nível mais estratégico”.

A gerente destaca que, ainda que os dados não possam ser replicados de forma automática em outras realidades, o Instituto está construindo agora um sistema de indicadores que inclua não só o retorno para o negócio, mas também para a sociedade. “A intenção é ter um sistema eficaz, mas que seja simples de ser mensurado e dialogue com a sociedade e o negócio”, pondera.

Indicadores na Rede GIFE

No campo do ISP, outras iniciativas têm se destacado, como a criação dos Indicadores GIFE de Governança, por exemplo, que é um instrumento de autoavaliação online (clique aqui para preencher) sobre o estado da arte da governança nas instituições, que tem como objetivo criar as bases para um futuro mecanismo de autorregulação do setor.

Não se trata, porém, de um processo de certificação ou selo de qualidade de organizações da sociedade civil e nem tem como proposta estabelecer um ranking, mesmo porque os respondentes não são identificados.

Os indicadores foram construídos tendo como base uma ampla pesquisa bibliográfica e referências de outras experiências de indicadores no mundo, e foram debatidos junto a especialistas da área. Eles contemplam 10 princípios que devem guiar o trabalho de reflexão sobre governança nas organizações: autorregulação; sentido público da ação; coerência de valor; legitimidade; transparência e abertura; equidade e diversidade; accountability; dinamismo e desburocratização; horizontalidade; e governança como sistema.

O segundo informe dos Indicadores, lançado no início do mês, apontou, por exemplo, que quando o assunto é governança, estabelecer ações estruturadas para o controle e supervisão financeiro e econômico continua recebendo a maior atenção por parte das organizações da sociedade civil (clique aqui para acessar).

Outra iniciativa que tem sido fomentada dentro da rede de investidores sociais e liderada pela na Rede Temática Leitura e Escrita de Qualidade para Todos (LEQT) do GIFE é a criação de indicadores de qualidade de projetos de promoção da leitura, uma área na qual diversos associados do GIFE já desenvolvem iniciativas.

Numa primeira etapa, foi realizada um mapeamento do que já existe neste campo junto à diversas instituições participantes da rede e, agora, será criado um primeiro quadro de indicadores. Eles serão aplicados no projeto piloto de intervenção no território que também será desenvolvido pelos membros da rede (clique aqui para ler a matéria a respeito). A proposta é que, depois de validados, estes indicadores sejam disponibilizados para qualquer organização interessada neste campo.

Roberto Catelli Jr., especialista da área que está à frente deste processo, destaca o benefício da iniciativa, tendo em vista que não há literatura ou pesquisas que consolidam indicadores de leitura de projetos de instituições. Hoje, muito do que se sabe diz respeito a iniciativas especialmente de políticas públicas.

Na avaliação de Roberto, a criação destes indicadores irá colaborar para que o trabalho dos investidores sociais neste campo seja cada vez melhor. “É uma oportunidade para que possam avaliar o trabalho que estão desenvolvendo e possam verificar o que, de fato, estão agregando de valor positivo. É uma estratégia para melhorar o que já estão fazendo, além de tomar decisões”.

Como participar do Seminário da Rede de Progresso Social

O encontro será no dia 01 de setembro, na Av. Dr.Chucri Zaidan, 1240, das 10h às 18. Os interessados em participar devem enviar um e-mail para: [email protected], informando nome completo e RG. As vagas são limitadas.

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