Incentivo a doação e ações colaborativas são estratégias para endereçar impactos da pandemia

 

*Essa reportagem integra a série “Conhecimento Emergência”, uma sequência de textos destinados a cada um dos artigos e estudos produzidos no âmbito do eixo 5 – “Apoio ao acompanhamento e análise do conjunto das ações mobilizadas” – do projeto Emergência Covid-19, uma iniciativa do GIFE. 

 

O debate sobre como o doar que aconteceu durante a emergência, inclusive por pessoas até então não doadoras, tem o potencial de trazer mudanças significativas nos próximos anos. É o que acredita Ana Biglione, fundadora e sócia da Noetá, e Joana Mortari, uma das idealizadoras do Movimento por uma Cultura de Doação e diretora da Associação Acorde, autoras do artigo O que a Pandemia nos Contou sobre Doar, que integra a série Estudos Emergência Covid-19.

Com o objetivo de trazer uma visão concreta das transformações ocorridas durante o primeiro ano da pandemia no Brasil, as autoras promoveram a escuta de dois grupos focais: um com doadores e organizações de fomento ao campo e, outro, com organizações que receberam e distribuíram bens e recursos.

Experimentando o doar 

Apesar de grande parte dos mais de R$ 7 bilhões mapeados pelo Monitor das Doações terem sido doados por empresas, os aportes individuais também estão contabilizados nesse montante e marcam presença em iniciativas como campanhas de financiamento coletivo. Joana defende que a doação-resposta do ano de 2020 não é um impulso humano de tomada de consciência que provoca uma mudança sistêmica, mas sim uma resposta empática e responsável à calamidade mundial. 

Entretanto, mesmo que esse impulso de doações que nasce a partir da natureza emergencial da pandemia não acarrete, necessariamente, o desenvolvimento do hábito de doar, é importante considerar que, muitas pessoas até então não doadoras o fizeram pela primeira vez, e essa experimentação pode ser a semente de uma possível alteração nos comportamentos. “Quanto mais a importância da doação é discutida e valorizada na mídia e mais pessoas têm acesso a uma conversa de qualidade, já que nem todas geram reflexão e algumas reforçam estereótipos, maior o potencial de mudança”, explica Joana. 

Se a partir de julho do ano passado o Monitor registrou estagnação nos números de doação, em 2021 as contribuições voltaram a subir. Essa retomada mostra que a experimentação em 2020 está rendendo frutos. De acordo com Joana, “as doações que chegaram em março de 2021, no pior momento da pandemia, são significativas não tanto em volume se comparadas com o ano anterior, mas em decisões que não mais são resposta a um susto, mas um engajamento consciente a uma necessidade humana. É nessa busca interna por sentido e conexão com o mundo, com os desafios socioambientais do nosso país, que uma cultura doadora se expande.”

Doação e cidadania 

A criação de mais iniciativas colaborativas de doação, inclusive no meio corporativo, e a elaboração de campanhas de financiamento coletivo foram analisadas pelo artigo como uma forma de incentivar uma reflexão no papel de cada um na sociedade, deslocando os indivíduos do ‘fazer para si’ ou ‘para o outro’ para ‘fazer com o outro’. 

Segundo Joana, as iniciativas colaborativas, que podem ser classificadas como um destaque de 2021, também foram debatidas no grupo focal com doadores e organizações que trabalham para fomento do mercado filantrópico, que defendem a importância de mapear o que já está sendo feito em uma causa ou região para depois traçar estratégias de atuação conjuntas. 

“O processo de fazer colaborativo pode ser visto como uma forma de estar e atuar no mundo, sendo uma causa em si. O movimento de colaboração pode ser classificado como uma formação cidadã, uma semente na mudança do paradigma dos papéis exercidos pelo Estado e pela sociedade civil, entre indivíduos (e seus desejos e opiniões próprias) e grupos, um passo evolutivo da democracia brasileira”, afirma Joana. 

Para Luiza Serpa, co-fundadora e diretora executiva do Instituto Phi, o movimento de pesquisar o que está sendo produzido no campo com o objetivo de evitar ações semelhantes e somar esforços em atuações conjuntas é o melhor caminho para enfrentar desafios complexos e promover mudanças sistêmicas, estruturantes e transformadoras em maior escala. 

“Sempre digo que não é preciso reinventar a roda para começar um programa de responsabilidade social. Não é necessário criar grandes estruturas ou institutos, pois já existem excelentes projetos em andamento, com metodologias comprovadas. Tem muita gente qualificada que encontrou formas de solucionar um determinado desafio em pequenas escalas e que só precisa de investimento para ampliar o impacto social.”

Papel das OSCs 

Uma das passagens do artigo posiciona as organizações da sociedade civil (OSCs) no debate sobre relações de poder entre quem doa e quem recebe recursos e bens. Muitos doadores optaram por “entregar bens materiais (cestas-básicas) ao invés de repassar recursos financeiros diretamente ou em forma, por exemplo, de cestas-digitais, que transfere ao beneficiário o poder de escolha sobre o que comprar”, como aponta trecho do artigo. 

Apesar disso, alguns integrantes dos grupos focais defenderam que começaram a perceber que empresas e doadores passaram a dar voz a lideranças comunitárias e do terceiro setor. 

Além dessa definição do uso do recurso pelos doadores, são as OSCs que assumem os riscos de contágio e os desafios de fazer com que as doações cheguem aos beneficiários finais. Segundo Joana, os grupos focais confirmaram algumas tendências já observadas por pesquisas e agentes do setor filantrópico, como a mudança radical de fluxo: se antes as organizações buscavam doações, com a pandemia passaram a receber ofertas. 

Entretanto, ao mesmo tempo, a diretora pontua a existência do comportamento do doador de querer que sua doação seja inteiramente destinada ao beneficiário final, sem remuneração à organização social pelo trabalho ou custo logístico. “Nos saltou aos olhos a posição em que cada um se vê nesta relação: a organização não questiona esta dinâmica de financiamento e se entrega, de corpo e alma, à entrega de cestas-básicas. O doador, em geral, mostra não ter consciência sobre esta assunção de que as organizações têm que trabalhar de graça.” 

O artigo pontua que esse desafio de obter recursos para financiar sua infraestrutura e salários administrativos, por exemplo, não é novidade para as OSCs. Mas mesmo que os recursos arrecadados não tenham sido direcionados para esse fim, uma parcela da população passou a perceber a importância do papel das organizações da sociedade civil.

“Quanto mais o cidadão brasileiro refletir sobre o papel da sociedade civil organizada e for capaz de endereçar seus próprios preconceitos sobre doar, sobre seu papel em relação ao do estado, sobre como formarmos uma sociedade justa, mais fácil será ele perceber que, não importa se têm 20 reais ou 200 mil, cada real é igualmente importante para termos o Brasil que queremos e merecemos”, destaca Joana.

Para Luiza, a pandemia evidenciou a importância do chamado investimento flexível, que pode ser usado na pauta que for mais necessária e/ou urgente, independentemente do contrato inicial. 

“Esse tipo de recurso amplia as possibilidades da organização inovar e se fortalecer institucionalmente e atender a emergências e imprevistos que podem ocorrer na rotina de seus projetos. Para isso, é preciso confiança do investidor, que se dá em relações de mais longo prazo, com monitoramento baseado na proximidade. Por isso, estimulamos que a doação seja feita de forma recorrente e comprometida com uma determinada causa social.” 

Saiba mais 

Um dos eixos do projeto Emergência Covid-19 versa sobre o apoio ao acompanhamento e análise do conteúdo das ações de enfrentamento à pandemia. Nesse contexto, o GIFE lançou a série Estudos Emergência Covid, que publica reflexões e análises de pesquisadores brasileiros de diferentes áreas do saber com o objetivo de estimular, ampliar e disseminar a produção de conhecimento qualificado sobre os impactos da pandemia no campo da filantropia, do investimento social privado e das organizações da sociedade civil no Brasil. 

O artigo O que a Pandemia nos Contou sobre Doar pode ser acessado na íntegra nesse link.

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