Membros da Rede LEQT se reúnem para debater estratégias de atuação no próximo período

Um ano de sistematização, reflexão e preparação de estratégias para o próximo período. Assim, Neide de Almeida, secretária executiva da Rede Temática (RT) de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos (LEQT), sintetizou a atuação do grupo em 2019.

A observação foi feita durante a última reunião do ano, realizada no dia 27 de novembro. Entre as ações, a secretária destacou o lançamento dos Indicadores LEQT – Qualidade em Projetos de Leitura, a definição das diretrizes de governança da Rede, a participação do grupo na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), além do apoio à eleição do Conselho Municipal do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) – que elegeu dois membros da Rede, integrantes da Rede LiteraSampa: Julia Alves dos Santos e João Luiz Marques.

O encontro se propôs a debater as políticas públicas de leitura e os potenciais e perspectivas de atuação da LEQT frente ao atual contexto pensando em três dimensões: qualidade, visibilidade e territórios.

“Pensar estratégias é olhar para o cenário macro. Hoje, privilegia-se o agronegócio e a exportação de commodities. Qual mão de obra é necessária para o agronegócio? Ela precisa ter letramento? Precisamos de pesquisa? O atual desmonte das políticas sociais tem tudo a ver com o desenho de uma nova ordem mundial: quem exporta tecnologia e quem exporta agronegócio?”, refletiu Zoara Failla, coordenadora da área de projetos do Instituto Pró-livro e da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

Para a especialista, as organizações da sociedade civil são parte da proposição de estratégias para enfrentar os desafios. “Nas últimas semanas, o PNLL correu sérios riscos. Temos uma PEC [Proposta de Emenda Constitucional] que fala em pacto federativo, mas com que recurso? Como fica a arrecadação dos estados mais pobres com o teto de gastos para educação e saúde? Nunca foi tão importante unir forças”, ressaltou.

Políticas públicas de leitura

José Castilho, ex-secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e consultor do Centro Regional para o Livro na América Latina e Caribe (Cerlalc) para políticas públicas de leitura, afirmou que algumas coisas foram fundamentais para a conquista da política em 2006.

“Ouvir as boas e más experiências daqueles que vieram antes de nós e tentar incorporá-las e respeitar todos os elos dessa grande cadeia: editor, autor, livraria, etc. De 2008 a 2010, o orçamento da cultura para o setor passou de seis para cem milhões”, lembrou o consultor.

O especialista salientou o legado de luta do campo. “Nada foi fácil na história da formação de leitores no Brasil, entrecortada pela escravidão e exclusão, onde a ‘casa grande’ sempre predominou sobre a senzala, muitas vezes, de maneira selvagem, no sentido da brutalidade da sobrevivência.”

E enfatizou a importância da lei. “É uma luta de gerações. O Plano é a primeira lei em 500 anos que coloca a leitura como central. Lembrar disso é fundamental para que não desanimemos. Nesse contexto, o potencial da LEQT para uma ação ampla e coordenada é grande”, defendeu.

Advocacy nas esferas locais

O ex-secretário-executivo do PNLL acredita que qualquer esforço deve ser centrado nos municípios.

Com o que Renata Costa, fundadora do projeto Palavralida e atual secretária-executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), concorda.

“Precisamos formar uma grande rede nos estados e municípios junto às políticas locais. Só assim vamos sobreviver a esses tempos. Como sociedade civil, nós conseguimos pressionar o poder público e essa é uma função nossa”, observou.

A secretária compartilhou com o grupo os resultados preliminares de um mapeamento realizado junto aos municípios do Brasil. Até o momento, 563 municípios responderam à pesquisa. Destes, apenas 26 possuem planos municipais concluídos, sendo 19 com leis sancionadas e 13 com orçamento aprovado. 56 municípios possuem planos municipais em construção.

“Vejo muita descontinuidade. Vivemos de gestão em gestão e a coisa não anda. Por isso a sociedade civil é tão importante nessa briga. A atuação da LEQT em Nova Iguaçu é um exemplo que precisamos replicar em outros lugares”, defendeu.

“Precisamos deixar de ser reativos para sermos proativos. A LEQT reúne as principais organizações do terceiro setor que atuam no tema da leitura e escrita e, por isso, tem um enorme potencial para gerar um movimento. Não dá mais para ficar só observando esses números. É importante mapear, mas será que a gente poderia fazer alguma coisa para ajudar na construção e ampliação desses planos?”, questionou Zoara.

Mapeamento da LEQT

Após a mesa de debate, Ana Lima, da Conhecimento Social, compartilhou com o grupo um primeiro exercício de mapeamento da LEQT a partir das respostas dos membros da coordenação e do conselho consultivo da Rede. O trabalho foi realizado por Rogério Costa, professor do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a convite do grupo a partir de métricas de relacionamento entre os membros da Rede.

A partir desse primeiro exercício, a ideia é que o grupo aprimore esses indicadores e amplie a amostra no próximo ano.

GTs: retrospectiva e provocações

Pensando em fortalecer e potencializar as ações da LEQT, o período da tarde foi dedicado às apresentações dos Grupos de Trabalho (GTs), que fizeram uma retrospectiva de 2019 e apresentaram desafios e questões que estão colocadas para 2020, além de reflexões que devem ser levadas à reunião de planejamento da atuação da Rede no próximo ano.

GT Territórios

O GT trouxe um balanço da atuação no município de Nova Iguaçu, território do Rio de Janeiro escolhido pela Rede para atuar localmente em parceria com a prefeitura e organizações locais, visando fortalecer as ações do PMLLLB. O Grupo compartilhou uma provocação no sentido da oportunidade de expandir essa atuação para outros territórios.

GT Indicadores

O Grupo apresentou o percurso de 2019, que envolveu o lançamento dos Indicadores LEQT e sua aplicação por algumas organizações membros. A partir do relato dos resultados dessa primeira amostra, o GT pontuou o potencial da ferramenta para o conjunto da Rede e também para outras organizações que atuam no tema.

GT Comunicação

O GT apresentou ações realizadas em 2019, como a contratação de um assessor de comunicação, bem como ações pensadas para o próximo ano, tal como a elaboração de um plano de comunicação para a Rede e o desenvolvimento de uma newsletter. Entre os desafios do próximo período também se inclui identificar como a Rede pode atuar no campo do advocacy.

Perspectivas para 2020

Para Neide, o encontro deixou evidente o potencial da LEQT. “Todos percebem a Rede como um espaço fundamental de diálogo, escuta e articulação para enfrentarmos esse momento e nos fortalecer tanto na atuação de cada organização como das pessoas que estão comprometidas com o campo da leitura e escrita.”

O próximo encontro da LEQT acontecerá entre fevereiro e março de 2020.

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