Motivação para trabalhar com base em evidências e entender a importância da avaliação são passos fundamentais para uma cultura avaliativa

Cerca de 80% dos 133 respondentes do Censo GIFE 2018 afirmam avaliar seus projetos e programas. Os dados reforçam que, cada vez mais, os investidores sociais não só reconhecem a importância, mas colocam a avaliação em prática. Mas como dar um passo além, para ampliar avaliações pontuais e estabelecer uma cultura avaliativa dentro de uma organização? Como é possível engajar lideranças e equipe nesse processo? 

Com o objetivo de responder essas questões e estimular o debate de conceitos, assim como oferecer orientações técnicas e detalhamento sobre modos de fazer, o GIFE acaba de lançar a nota técnica Como Criar uma Cultura Avaliativa nas Organizações. O documento apresenta conceitos relacionados à cultura avaliativa, quais são os objetivos prioritários daqueles que já investem em avaliação, o que é necessário em termos de recursos, como engajar a liderança e a importância de diversificar a avaliação. 

A iniciativa faz parte da Agenda de Avaliação do GIFE, que conta com o apoio da Fundação Roberto Marinho, Itaú Social, Laudes Foundation e Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV). 

Segundo Eduardo Marino, diretor de conhecimento aplicado da FMCSV, a Fundação deu início a um processo de implementação da cultura avaliativa por volta de 2005, quando a instituição mudou o seu  foco de atuação, deixando de ser um laboratório que desenvolvia pesquisas acadêmicas sobre leucemia, para investir na primeira infância. 

“Acredito que o trabalho baseado em evidências faz parte do DNA da Fundação Maria Cecilia. A cultura avaliativa surge de um desejo da terceira geração da família e foi sendo incorporada ao grupo profissional que assumiu a fundação nessa etapa do trabalho voltado para a primeira infância, sempre com esforço de aprender com os processos e de gerar conhecimento relevante, tanto internamente para accountability, como para a sociedade”, afirma Eduardo. 

De fato, o Censo GIFE aponta que 80% dos respondentes afirmam que aprender sobre o programa, orientar a tomada de decisão sobre sua gestão, identificar claramente as contribuições e gerar aprendizagem para a organização como um todo são objetivos muito importantes relacionados ao fazer da avaliação. Essa percepção é reafirmada pela nota técnica ao destacar que uma cultura avaliativa ajuda a tomada de decisões, a capacidade da organização de se adaptar a situações dinâmicas e complexas e, ao mesmo tempo, as aproxima de seus objetivos de transformação social por aprimorar seus processos. 

Cultura avaliativa como processo 

A nota técnica, porém, reforça o fato de que a construção de uma cultura avaliativa não acontece da noite para o dia, mas envolve processos e momentos de sensibilização da equipe da organização para a importância de reflexões e aprendizagens contínuas de projetos e programas e dos modos de fazer da instituição. Segundo o documento, uma organização que conta com uma cultura avaliativa é aquela que valoriza práticas de reflexão e aprendizagem, que permeiam suas normas, processos, comportamentos, suposições mentais e ações.

É por esse e outros motivos que não há uma lista de pontos a ser seguida na hora de estabelecer uma cultura avaliativa, uma vez que cada organização precisa olhar para seus processos e a forma de adaptá-los ou, em alguns casos, até mudá-los completamente em favor da realização da avaliação. 

Na FMCSV, por exemplo, ficou estabelecido que, com a mudança de foco de atuação, havia uma demanda clara para que programas e processos internos da organização passassem por avaliações periódicas. Para o primeiro programa realizado após a mudança, uma consultoria apoiou a construção do desenho da avaliação antes mesmo das ações serem iniciadas. 

“Constituímos um plano robusto de avaliação para ser implementado junto com as intervenções nos municípios no interior do estado de São Paulo. Um ano depois, a Fundação decidiu criar uma área dedicada, para que os novos programas que surgissem também contassem com essa avaliação”, conta Eduardo. 

Tomada de decisão: como envolver equipe e lideranças 

Considerando que estabelecer um processo avaliativo foi uma motivação da família que deu origem à FMCSV, sensibilizar a liderança para a importância de estabelecer processos avaliativos não foi um desafio. Para Eduardo, a crença nos benefícios da avaliação também estava presente entre a equipe contratada, o que fez com que o processo seguisse com mais fluidez. 

“Esses componentes corroboraram e caminharam juntos: foi um desejo do nosso conselho diretor para que tivéssemos bons processos avaliativos internos e dos programas, juntamente a uma equipe também bastante orientada para, de fato, a avaliação fazer parte da nossa cultura.”

O diretor afirma, entretanto, que a aposta na avaliação não é algo intuitivo que acompanha todos os profissionais e, por isso, é preciso realizar processos de sensibilização em casos de mudanças na equipe, com explicações sobre a importância do trabalho baseado em evidências. “Esse é um desafio cotidiano, que exige, muitas vezes, uma mudança de mindset para quem entra na organização, caso não esteja habituado a busca de resultados e a como vamos aprender com eles.”  

Avaliação e o campo da primeira infância 

Um dos grandes desafios enfrentados na construção de uma cultura de avaliação pela FMCSV foi, naquele momento, a falta de políticas nacionais de avaliação para o campo da primeira infância. Para isso, um dos primeiros passos foi identificar instrumentos capazes e apropriados para mensurar o desenvolvimento infantil e a qualidade da educação infantil. 

“Tivemos parcerias e iniciativas focadas em validar o uso desses instrumentos. Então, tivemos que, de fato, apoiar o desenvolvimento do campo da avaliação das temáticas relativas ao desenvolvimento das crianças de zero a seis anos, seja no ambiente da educação infantil, seja dentro de casa ou em uma relação mais próxima com o setor da saúde e, mais recentemente, da assistência”, explica o diretor. 

Segundo o especialista, esse processo de construção conjunta levou a Fundação a considerar um desafio mais amplo, que são avaliações de políticas públicas em nível municipal, estadual e federal. “Hoje esse é um campo bastante presente na nossa agenda. Estamos apoiando grandes estudos avaliativos no Brasil.” 

Fatores fundamentais para uma cultura avaliativa 

A nota técnica consultou especialistas em avaliação no âmbito das organizações do investimento social privado brasileiro e chegou a fatores que devem ser considerados no processo de implementação de uma cultura avaliativa. 

Refletir sobre os recursos que serão demandados é um passo importante, e isso envolve decisões sobre recursos humanos – ter ou não uma equipe ou pessoa dedicada à avaliação-; recursos financeiros – especialistas apontam que organizações com culturas avaliativas estabelecidas entendem o processo como um investimento, e não um custo -; e o recurso do tempo, tanto para que as mudanças comecem a acontecer, como a disponibilidade das equipes para dedicar à avaliação. 

Envolver a liderança e fazer com que altos cargos considerem a importância de ter uma cultura avaliativa é outro fator que merece destaque. Segundo a nota técnica, a sensibilização não precisa começar por pessoas em cargos de direção, mas são elas que definirão se há espaço e tempo para investir em avaliação e que tipo de cultura será criada. 

Entender a utilidade e usabilidade da busca por evidências, terceiro fator apontado, pode ajudar no processo. “Quando as avaliações entregam às pessoas as informações de que elas precisam para desenvolver o seu trabalho, as resistências diminuem e é possível avançar institucionalmente na valorização da avaliação”, aponta o documento. Apostar em formas diversificadas de avaliar e usar os dados coletados por monitoramentos é outro fator a ser considerado. 

Os aprendizados da cultura avaliativa 

O percurso avaliativo da Fundação divide-se em duas frentes: de um lado, são realizados processos periódicos de avaliação do conselho, ‘avaliação 360º’ da equipe e análise de processos e sistemas implementados na gestão. “Temos essa curva interna de sempre coletar informações, discuti-las e tomar decisões para aprimoramento”, comenta o diretor. A isso, soma-se a avaliação de projetos e programas desenvolvidos pela Fundação. 

“Essa cultura nos levou a desenvolver um pensamento crítico importante sobre o nosso trabalho e esse desejo de ter clareza a respeito do que alcançamos, onde acertamos ou erramos e qual é o melhor caminho e estratégia a seguir com base nos aprendizados. Temos um processo bastante estruturado que nos ajuda a estar sempre com esse olhar crítico sobre o trabalho, o contexto e a nossa estratégia”, reforça Eduardo. 

Para o diretor, o desejo genuíno de lideranças em diferentes níveis da organização de trabalhar com base em evidências e dados pode ser considerado um ponto de partida e um exemplo para o restante da equipe, de forma a sensibilizar todos sobre a relevância de estabelecer uma cultura avaliativa. Uma das primeiras políticas avaliativas da FMCSV foi criar um processo sistemático de avaliação externa de seu conselho de curadores que, por sua vez, demanda uma política de avaliação de pessoas e de estruturação de metas individuais e coletivas. 

Além disso, Eduardo reforça a importância de ter uma visão mais ampla, inserindo a Fundação no contexto do país. “É muito importante que governos também tomem decisões com base em evidências. Esse tem sido um dos nossos trabalhos, já que uma das estratégias é avaliação da qualidade da educação infantil e de programas e políticas de parentalidade no país. Temos colocado muito esforço nisso, ou seja, extrapolar essa ideia de uma cultura de avaliação da organização para uma cultura de avaliação e de aprendizado para o país no campo da primeira infância.”  

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