Sob influência da pandemia, número de brasileiros ativos no voluntariado chega a 57 milhões

“Você já fez ou faz trabalho voluntário?”. De acordo com a pesquisa ‘Voluntariado no Brasil 2021’, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e Datafolha, o aumento do número de brasileiros que responderam ‘sim’ para essa pergunta, é o principal destaque dos dados levantados. Foram 57 milhões de voluntários ativos no país em 2021, o que equivale a 56% dos brasileiros com mais de 16 anos. 

Em sua terceira edição, o levantamento, que é realizado a cada década, traz um retrato do tema, indica tendências e analisa as mudanças periódicas. Em 2001, o número de voluntários era de apenas 18%, passando para 25% em 2011, e agora ganha um novo salto.

 A influência da pandemia nos números 

Um dos fatores que explica o crescimento da busca pelas atividades filantrópicas na população, é a pandemia de Covid-19. O que se reflete no próprio público das ações voluntárias, que em 2021 se voltou para famílias, comunidades, e pessoas em situação de rua. Tendo esse último grupo, saltado de 5% para 25% como público dessas práticas. 

“O impacto da pandemia aparece no aumento do número de voluntários e na escolha da maior motivação: 74% das pessoas vieram para o voluntariado motivados pelo desejo de ser solidário”, afirma Silvia Naccache, coordenadora da pesquisa. “Eu acho que nós nunca vivemos um momento em que se escancara tanto aos olhos a desigualdade, a pobreza e a fome.”

Antes do vírus, como aponta a pesquisa “Brasil Giving Report 2021”, realizada pela Charities Aid Foundation (CAF) e pelo IDIS, as atividades de doação e voluntariado chegaram a cair. Foram de 78% em 2019, para 72% em 2020. A partir daí, o quadro começou a mudar.

Voluntariado empresarial se destaca

O aumento do número de voluntários, e a busca por ações solidárias no período pandêmico, não são os únicos números que chamam atenção nos resultados da pesquisa dessa década. Mas, também a forma como essas pessoas chegaram ao voluntariado. Neste cenário, ganha destaque o voluntariado corporativo e empresarial, responsável por engajar 15% desses voluntários, que dedicam uma média de 21 horas mensais, através de programas empresariais. 

“Os últimos 10 anos foram marcados por uma velocidade sem igual no nosso modo de agir, pensar, sentir, consumir e se movimentar por este planeta”, comenta Carolina Müller, gestora da secretaria executiva do Conselho Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE). “E desde 2015, por meio do seu Censo, o CBVE vem evidenciando um crescimento sustentado e qualificado do voluntariado corporativo empresarial enquanto ferramenta estratégica de desenvolvimento de pessoas, comunidades e instituições”, complementa.

Desde 2018, afirma Carolina, o alinhamento dos Programas de Voluntariado e suas ações ao plano estratégico das empresas se fortaleceu, consolidando esta ferramenta como forma de exercer o Investimento Social Privado (ISP).

Para Naccache, as estratégias aplicadas no ISP dialogam, e muito, com a prática do voluntariado. “É fundamental uma estratégia que busque resultados que gerem transformação. No desenvolvimento das ações, é essencial aquele que pratica o voluntariado, mas também aquele que promove, estimula e facilita a ação.”

A Fundação Telefônica Vivo, uma das apoiadoras da pesquisa, atua há 23 anos no Brasil, trabalhando com a digitalização como um importante facilitador para uma sociedade mais justa, humana e inclusiva. Com atuação no voluntariado corporativo desde 2005, a instituição tem como objetivo incentivar os colaboradores a se envolverem, cada vez mais, em ações que propaguem valores como: solidariedade e empatia em prol de um mundo mais justo e igualitário.

“Oferecemos aos colaboradores, por meio do Programa de Voluntariado, a possibilidade de participar de ações voluntárias, presenciais ou virtuais, e a distância, durante todo ano, em diferentes causas e áreas”, explica a gerente de voluntariado da Fundação, Alessandra Mondenini. 

Hoje, quase 95% das associadas ao CBVE, por exemplo, declararam realizar este alinhamento. Passando a ser fundamental que os programas de voluntariado empresarial estejam conectados aos objetivos e planos estratégicos , como forma de fortalecimento e longevidade das ações.

O número evidencia a preocupação cada vez maior das empresas em compreender e se enquadrar às premissas do ESG, sigla em inglês para environmental, social and governance (ambiental, social e governança).

Geralmente usada para medir as práticas ambientais, sociais e de governança de uma empresa, o ESG é uma ferramenta que pode ser utilizada para investimentos com critérios de sustentabilidade, pensando além dos índices financeiros. O voluntariado, opina Mondenini, é uma prática cada vez mais valorizada pelas empresas e colaboradores, por se tratar de uma oportunidade bastante prática de ampliar a visão de responsabilidade social.

“Fazer o bem faz bem”, acrescenta Silva Naccache. “Isso fica chancelado na pesquisa quando a gente pergunta o grau de satisfação dos voluntários pelas atividades realizadas. De 0 a 10, a nota recebida foi 9,1. Quando as empresas, nos programas de voluntariado empresarial, somam a doação do tempo dos seus colaboradores e parceirizam as suas práticas de ISP, isso tudo amplifica e reverbera os resultados alcançados”, finaliza.

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