Outro mundo é possível, mas demanda união em pautas transformadoras, diz integrante do Fórum Social Mundial

Em outubro, os brasileiros irão às urnas para escolher os novos representantes do executivo e legislativo. Nesse contexto, diversas pautas têm sido debatidas como fundamentais e indispensáveis para os planos de governos dos candidatos e candidatas, como a atenção às mudanças climáticas, o enfrentamento ao racismo e a busca por equidade racial, o respeito e garantia dos direitos das mulheres. 

Todo esse processo, entretanto, só é possível a partir do momento em que a democracia está assegurada e a população pode exercer seus direitos enquanto cidadãos. Por isso, em ano eleitoral, uma mobilização que ganha importância redobrada é o Fórum Social Mundial (FSM) e seus eventos temáticos: o Fórum Social das Resistências (FSR) e o Fórum Social Mundial: Justiça e Democracia (FSMJD), ambos a serem realizados entre 26 e 30 de abril. 

Enquanto o primeiro traz como lema ‘Outro mundo é possível’ e visa debater democracia, direitos dos povos e do planeta, o segundo reforça a importância da sociedade não só observar mas também exercer valores como dignidade e justiça social. 

O redeGIFE conversou com Mauri Cruz, representante da Abong (Organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns) no Conselho Internacional do Fórum Social Mundial para compreender quais oportunidades de debate e desenvolvimento coletivo esses eventos oferecem aos brasileiros. Confira a seguir. 

redeGIFE: Que importância ganham os debates sobre justiça, democracia, direitos dos povos e do planeta – temas dos dois Fóruns que acontecerão em Porto Alegre – em um ano eleitoral como 2022? 

Mauri Cruz: O Brasil é um dos países mais desiguais. Menos de 3% [da população] possui 50% de toda riqueza e 23% estão no limite da linha da pobreza. O combate às estruturas que mantêm essa desigualdade tem transformado o país num palco de disputas entre quem quer mudar este quadro e aqueles que querem manter os seus privilégios. Por isso é tão importante afirmar os direitos dos povos e da natureza, garantir a democracia como elemento essencial e repensar o sistema de justiça, que tem sido um dos instrumentos de contenção e controle das lutas populares contra as elites brancas.

 

Mauri Cruz, representante da Abong. Créditos: Twitter Pessoal

redeGIFE: As pautas discutidas no Fórum podem ajudar os eleitores a analisar as propostas de seus candidatos para o processo eleitoral em outubro? 

Mauri: A realização do Fórum Social das Resistências 2022 e do FSM Justiça e Democracia em um ano em que o povo brasileiro irá decidir seu futuro é fundamental. Primeiro, para articular e fortalecer a mobilização sobre as pautas econômicas, sociais e ambientais que representam os interesses e os direitos da maioria da população. Segundo, para apresentar uma espécie de “carta dos brasileiros e brasileiras” aos partidos, indicando os direitos que precisam ser defendidos, garantidos e respeitados. 

 

redeGIFE: O Fórum Social Mundial conta com eventos temáticos. Esse ano, um deles terá como tema justiça e democracia, e será composto por cinco eixos: capitalismo e desigualdades, democracias e as forças sociais, direitos de grupos vulnerabilizados, comunicação e tecnologias, e cultura. Quais oportunidades de debate um evento como esse proporciona a seus participantes e à sociedade brasileira como um todo? 

Mauri: Em uma sociedade capitalista, o sistema de justiça sempre cumpriu um papel de controle da luta popular e de manutenção dos privilégios das elites. Apesar disso, também foi um ambiente de disputa pela defesa e garantia de direitos. No entanto, a partir de 2014, foi instrumentalizado por um bloco político de extrema direita, que visava incidir no processo eleitoral de 2018. Entender como isso foi possível e, principalmente, criar mecanismos institucionais para combater esse tipo de aparelhamento é fundamental. É a primeira vez que o Fórum Social Mundial dedica um evento temático a essas questões. A expectativa é que possamos aprofundar o debate sobre o papel do sistema de justiça e pensarmos formas de como transformá-lo para ser um instrumento que combata as desigualdades e se fortaleça em uma sociedade democrática.

 

redeGIFE: Qual é a importância dessa participação cidadã e protagonismo dos jovens? 

Mauri: O FSM nasceu como um espaço privilegiado de participação da juventude internacional, em especial no Acampamento Intercontinental da Juventude [espaço que conta com diferentes atividades para promover integração de jovens de diferentes países participantes do Fórum], porque esse engajamento é fundamental. No entanto, jovens não gostam de participar de espaços onde são tratados como observadores. A questão chave é que as gerações adultas precisam abrir espaços reais de participação e não apresentarem atividades, temas e propostas prontas. Acredito que os jovens estão ávidos por espaços para se expressarem, mas nossas metodologias precisam estar preparadas para essa participação. Há, inclusive, uma questão de linguagem que limita muito a possibilidade de inclusão dos olhares das juventudes neste processo. A Marcha de Abertura realizada no dia 26 de abril, programada  para às 17h, será o momento mais importante de expressão, denúncias e de visibilidade das pautas das juventudes.

 

redeGIFE: Participar dessas mobilizações contribui para a formação cidadã das próximas gerações? Se sim, de que forma?

Mauri: A educação política ganha profundidade e se torna um valor permanente quando as pessoas se expõem, tomam partido e defendem suas ideias. O FSM tem sido um espaço fundamental para isso. Em todas as edições realizadas no Brasil ou em outros países, o evento sempre contou com um importante contingente de pessoas exercendo sua cidadania. Mesmo quem não participa diretamente, vê no protagonismo da cidadania internacional a expressão de um sujeito político que representa aquelas pautas fundamentais para todos, como a defesa da vida, da paz, da soberania e autodeterminação dos povos, do direito a uma sociedade inclusiva e do respeito à diversidade. Neste sentido, pode-se afirmar que os Fóruns Sociais são uma verdadeira escola de cidadania internacional.

 

redeGIFE: Como discussões sobre justiça e democracia, e principalmente resistências com o Fórum Social das Resistências, podem auxiliar os participantes a unir forças para construir um futuro melhor?

Mauri: Esse tem sido o maior desafio. Tanto no Brasil como em outras partes do mundo, construímos movimentos sociais e ambientais potentes, com capacidade de resistência contra os ataques do sistema capitalista. A dificuldade é articular esses movimentos e essas pautas entre si de forma a conseguir alterar a correlação de forças global. Um outro mundo é possível, mas somente terá uma chance de existir se houver uma grande unidade de interesses entorno das pautas capazes de promover essas transformações estruturais. A metodologia das assembleias de convergências tem sido uma importante ferramenta, mas ainda estamos distantes de uma união de pautas globais como as agendas ambiental e antirracista, por exemplo.

 

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