“Precisamos de políticas públicas que garantam que as pessoas tenham dignidade”, defende Anielle Franco

De acordo com dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, uma iniciativa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), no final de 2020, cerca de 116 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 19,1 milhões – 9% da população – estavam passando fome. 

Apesar de ter havido recuo no número de desempregados no último trimestre de 2021, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de pessoas na fila por um emprego ainda está na casa dos 12,4 milhões e a renda do trabalho dos brasileiros chegou ao menor nível desde o início da série histórica: R$ 2.444.  

Para repercutir esses dados, analisar a conjuntura brasileira, e apontar as oportunidades e desafios para atuação do investimento social e das organizações da sociedade civil, o redeGIFE conversou com Anielle Franco, diretora executiva do Instituto Marielle Franco. Confira a seguir. 

Anielle Franco – Crédito Mídia Ninja

redeGIFE: Quais agendas ganharam força em 2021 e devem orientar a atuação dos diversos setores dedicados a combater as desigualdades em 2022?

Anielle Franco: A pandemia escancarou inúmeras desigualdades no Brasil. Muitos setores se dedicaram a combatê-las, mas acho que a fome e a falta de material de higiene, algo tão necessário para pessoas que estavam desesperadas e vivenciando na pele as desigualdades e consequências da Covid-19, tiveram mais atenção. Quando principalmente nós da sociedade civil começamos a ver a situação de fome em que as pessoas mais vulneráveis se encontravam, foi uma causa que todo mundo agarrou de primeira. E acredito que não poderemos soltar [esse tema] durante alguns anos. Espero que a gente consiga ter um respiro a partir de 2023 em relação à fome e ao desemprego no país. 

 

redeGIFE: Como você analisa a atuação dos setores da sociedade civil organizada nas respostas a esses desafios?

Anielle: Eu acredito que nós fomos essenciais. Foi uma atuação magnífica porque,  infelizmente, estamos vivendo um período no qual o governo fala ‘isso é mentira, não está acontecendo’, governando apenas para os mais ricos e simplesmente ignorando aqueles que mais necessitam de sua ajuda. É verdade que tivemos os auxílios emergenciais, mas sabemos que, na realidade do Brasil em 2021, era um auxílio que mal garantia um arroz e feijão para essas pessoas. Então, a atuação desses movimentos foi essencial e foi, sim, uma resposta imediata para os desafios que enfrentamos.

 

redeGIFE: E o que mais podem ou devem fazer esses setores para responder à complexidade do contexto atual? Quais são os caminhos possíveis para o enfrentamento às desigualdades sociais e econômicas que estruturam a sociedade brasileira?

Anielle: Sabemos que as políticas públicas são necessárias neste país. Um problema que temos enfrentado nos últimos três anos – iniciando agora o quarto ano – é que pautas como as nossas não são importantes. Toda vez que chegam [nossas pautas] vetam ou chamam de ‘mi-mi-mi’. Temos que continuar pressionando e nos fortalecendo, e digo isso coletivamente, como forma de encontrar um caminho possível para esse enfrentamento. Não podemos parar. Quanto mais vemos os nossos sendo atingidos, sofrendo, passando fome, desempregados, mais queremos fazer alguma coisa. Então, acredito que os enfrentamentos são necessários. Precisamos continuar e não podemos parar. Na verdade, eu diria que não temos outra escolha.

 

redeGIFE: Para especialistas, a transformação da sociedade passa, necessariamente, pela criação e implementação de políticas públicas. Na sua avaliação, quais são as políticas necessárias e urgentes a serem retomadas, fortalecidas ou criadas para o combate efetivo das desigualdades?

Anielle: Temos tantas políticas públicas que precisamos criar, avaliar, retomar e fortalecer. O básico já está escrito e é lei, mas não vemos essas atuações sendo de fato cumpridas, como a garantia do acesso à educação e à comida, por exemplo. É inadmissível ver tanta gente desempregada e passando fome. Precisamos de políticas públicas que garantam que as pessoas tenham dignidade para viver, o que não temos visto, com exceção de pessoas de redes próximas que ajudam.  

 

redeGIFE: Qual é o papel do setor privado e das organizações e movimentos sociais nesse processo?

Anielle: Acolher, ajudar e auxiliar. Infelizmente, não vamos conseguir mudar o mundo, mas podemos conseguir mudar um pedaço dele. Para isso, precisamos nos fortalecer, cobrando as pessoas que precisam criar leis, além de garantir que elas sejam executadas. Mas também precisamos estar à frente nesse campo de batalha para auxiliar os nossos, que têm sido os mais vulneráveis. É de partir o coração ver o número de pessoas negras desempregadas e passando fome, sem o mínimo digno à vida.

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