Periferias, racismo e fake news: como a comunicação deve abordar diferentes causas no combate à Covid-19

A chegada do novo coronavírus ao país, que já soma mais de 90 mil óbitos, mobilizou setores direta e indiretamente relacionados à saúde, uma vez que toda a sociedade está suscetível à nova doença.  

A comunicação foi um dos campos fortemente atingidos pela crise, tendo que repensar planejamentos e redirecionar pautas e produções para apoiar a disseminação de informações corretas sobre o vírus. A isso soma-se ainda a importância de pautar as inúmeras violações de direitos potencializadas pelo atual contexto. Afinal, como impor o isolamento social às pessoas em situação de rua? Como se explica que negros tenham mais chances de morrer em decorrência da Covid-19 do que pessoas brancas? Ou como determinar o uso de máscaras considerando diferentes culturas e realidades, como a dos yanomami, na Amazônia, por exemplo? 

Para Roberta Tasselli, gestora da área de comunicação para o desenvolvimento da Cidade Escola Aprendiz, a comunicação é uma ferramenta muito potente para dar luz às desigualdades e violações de direitos e pode servir como instrumento de pressão da sociedade civil sobre os tomadores de decisão para a efetivação de medidas de equidade e proteção.

Se as organizações da sociedade civil podem ter um papel importante no combate às desigualdades ao endereçar matérias em tramitação no Congresso, como a Reforma Tributária e a Renda Básica Permanente, por exemplo, Roberta reforça que também é importante uma atuação condizente com as necessidades colocadas pelo momento. Ou seja, um movimento de sensibilização em torno de fenômenos sociais que, para a gestora, serão agravados com a pandemia, como o aumento do trabalho infantil doméstico. 

“É importante que a sociedade civil organizada se posicione em relação a esses temas e pressione a classe política para que essas decisões visem à redução de desigualdades em vez de ampliá-las”, defende. 

É necessário manter ou ampliar investimentos em comunicação

Gyssele Mendes, coordenadora executiva do Intervozes, explica que a pandemia não apenas aumentou o ritmo e o volume de trabalho, mas impôs que pessoas em sistema de home office precisem balancear seus trabalhos formais, domésticos e a militância, além de lidar com os impactos na saúde física e mental durante o isolamento. Para ela, é importante replanejar a comunicação e redirecionar esforços. Entretanto, esse movimento fica dificultado, sobretudo para organizações que atuam respondendo à conjuntura – como é o caso do Intervozes -, uma vez que a realidade muda diariamente. 

Nesse sentido, a coordenadora afirma que é fundamental manter ou ainda ampliar os investimentos na área, que, no caso de inúmeras organizações, sofre com a escassez de pessoal e de recursos para um trabalho mais estratégico. 

“Pela minha experiência, a comunicação é uma das primeiras áreas a ter recursos cortados quando há uma crise, quando deveria ser o contrário. Na pandemia não é diferente. Por meio da comunicação, nós concretizamos nossas organizações no mundo, damos corpo e voz às suas causas. Além disso, a comunicação é uma ótima ferramenta para a captação de recursos. Portanto, são áreas que deveriam trabalhar juntas sempre”, reforça Gyssele. 

A especialista pontua ainda que, atualmente, não é possível pensar o mundo sem a internet e todas as transformações decorrentes dela. A garantia de acesso à web e, consequentemente, a um leque infinito de informação é fundamental. “Na pandemia, estamos vendo a ampliação das desigualdades sociais, que passa também pelas desigualdades de acesso à internet, pelas desigualdades no acesso à informação confiável, que são direitos fundamentais. O direito à comunicação é tanto um direito em si, quanto um meio de acesso a outros direitos. Na falta de internet, são afetados outros direitos, como educação, saúde, etc.” 

O impacto da Covid-19 em territórios periféricos

Inúmeros estudos têm sido produzidos com base na evolução dos casos em periferias e locais muito populosos que, em função de questões como falta de condições para manter o distanciamento social, por exemplo, têm sido mais acometidos pela doença. Segundo um levantamento feito pelo UOL com dados da prefeitura do Rio de Janeiro, em um mês, o número de óbitos causados pelo novo coronavírus em favelas e comunidades aumentou dez vezes. Levantamentos das unidades de saúde locais da Rocinha e do Complexo da Maré indicam que os números reais superam os oficiais. 

A prefeitura do Rio foi responsável também por outra pesquisa que, em parceria com o Ibope, mostrou que 17% dos moradores de seis áreas populosas e em situação de vulnerabilidade da cidade haviam contraído a doença. Já o estudo Epicovid-19 indicava que, até 7 de junho, enquanto 2,8% da população de 120 cidades brasileiras já haviam tido contato com o vírus, no Rio de Janeiro, o índice era de 7,5%. 

Na capital paulista, o cenário se repete: segundo pesquisa realizada em abril, apesar de o Morumbi, na zona sul de São Paulo, ser o bairro com maior número de infectados pela doença, o número de mortes era maior na Brasilândia, na zona norte, que, no início de maio, contava com 103 óbitos

Comunicação compartilhada 

Na live O papel da comunicação no combate à Covid-19, promovida pela Fundação Tide Setubal, Aline Rodrigues, jornalista e cofundadora da produtora independente de jornalismo Periferia em Movimento, e Wellington Frazão, jornalista, técnico de comunicação em rádio e TV e coordenador do coletivo de comunicação popular Periferia em Foco, de Belém (PA), reforçaram a importância de comunicar a doença sem alarmismo, além de debater os desafios que têm marcado o dia a dia de organizações que atuam com comunicação. 

Entre eles estão a dificuldade de articulação imposta pelo distanciamento social, com equipes fisicamente separadas; a intensificação da produção, envolvendo, inclusive, pessoas que não estavam nessa frente; a dificuldade de entender qual é a pauta da vez, frente a um cenário de novidades diárias; e a importância de “trazer um olhar da quebrada”, como afirmou Aline, ou seja, abordar como a pandemia acomete territórios socialmente vulneráveis nas cidades brasileiras a partir de produções dos próprios moradores e profissionais de comunicação periféricos. 

Roberta Tasseli explica que a comunicação pode destacar demandas específicas de cada região, mobilizando a própria comunidade para supri-las. “Pensando no contexto de uma comunidade em que nem todos os moradores tenham acesso à água, por exemplo, uma campanha pode alertar sobre como os moradores que têm acesso podem apoiar aqueles que não têm. Da mesma forma, disseminar informações sobre distribuição de alimentos e kits de higiene, além de informar formas corretas de prevenção, como o uso de máscaras e o isolamento social”, exemplifica. 

Em um esforço de reunir campanhas, especiais, manifestos, textos e as mais diversas ações de comunicação, a Cidade Escola Aprendiz e a C4D (Comunicação para o Desenvolvimento), lançaram o site Comunicação contra o Corona. Roberta explica que um grupo de comunicadores de diferentes regiões do Brasil que integravam um grupo de WhatsApp começou a perceber que havia demandas por materiais informativos semelhantes em diversos lugares. Ao mesmo tempo, uma série de organizações já estavam organizando e publicando essas produções. “Decidimos reunir as produções em um site para facilitar o encontro dessas informações por quem esteja buscando”, afirma. 

Segundo a gestora, grande parte do conteúdo publicado na plataforma foi produzido por pessoas de organizações que atuam nas periferias e pelos próprios moradores desses locais. As produções podem servir de instrumento para outras instituições que não têm recursos ou força de trabalho para produzir materiais de comunicação. 

Protagonismo da quebrada 

Gyssele reforça a importância do acesso a informações confiáveis e a necessidade destas conversarem com a realidade de diferentes locais. Além disso, o distanciamento social, uma das principais medidas para frear a disseminação do vírus, não é uma opção para diversas famílias brasileiras, seja porque as pessoas não têm o direito à moradia digna respeitado – e, dessa forma, não têm espaço suficiente em casa para fazer a quarentena em segurança -, seja porque parar de trabalhar significaria perder o sustento de toda a família. “Nesse sentido, as informações produzidas por líderes e articulações comunitárias cumprem um papel fundamental, adequando as informações disponíveis à realidade dos seus espaços”, explica.  

Assim como a coordenadora, lideranças, estudiosos e atores periféricos reforçam a necessidade de mudar a ótica sob a qual as periferias brasileiras são vistas: é preciso enxergá-las a partir das potência e não das ausências. Pensando nisso, algumas iniciativas têm dado visibilidade às produções de comunicação de e para a periferia. É o caso do Coronavírus nas Favelas, uma página em formato wiki criada pela equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco com o objetivo de reunir pesquisas, reportagens, fotos, vídeos, comentários, artigos, ensaios e reflexões acadêmicas sobre os impactos do coronavírus na vida das favelas. 

Em materiais e audiovisuais, por exemplo, uma das categorias que integram o compilado de iniciativas, é possível encontrar campanhas, jornais locais, músicas, cartilhas, vídeos, relatos e depoimentos, muitos produzidos pelos próprios moradores das comunidades.

Outra ação que dá visibilidade ao combate à disseminação do vírus nas favelas e periferias é o mapa #CoronaNasPeriferias. Elaborado pelo Instituto Marielle Franco em parceria com o Favela em Pauta e apoio do Twitter, o site reúne ações, onde acontecem e o que está sendo feito, além de links e telefone para contato. As iniciativas não mapeadas podem ser enviadas via formulário. “As informações produzidas por líderes e articulações comunitárias são importantíssimas para o monitoramento de casos porque sabemos que o Estado não vem garantindo o direito à saúde nas favelas e periferias, pelo contrário, quando o Estado chega nesses lugares é por meio do seu braço armado e da violência estatal. O #CoronaNasPeriferias é um exemplo de articulação que produz informações confiáveis a partir do olhar das periferias do Brasil”, reforça Gyssele. 

Racismo estrutural: a população negra como mais atingida pelo novo vírus 

Assim como reforçou a transmissão do Todos pela Educação, diversas informações e dados têm mostrado que os mais atingidos pela pandemia são pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade. Em função do racismo que estrutura a sociedade brasileira, em muitos casos as vítimas são pessoas negras. 

Por isso, também faz-se relevante pautar o racismo na comunicação relacionada à Covid-19. A rede Narrativas promoveu, recentemente, o webinar O Papel da Comunicação na Luta Antirracista, com participação de Cristina Fernandes, do podcast Ideias Negras e Instituto Vladimir Herzog; Fernanda Nobre, da Fundação Tide Setubal; Mohara Valle, do Instituto Ibirapitanga; e Selma Moreira, do Fundo Baobá para Equidade Racial. 

Selma destacou que comunicação é algo tão importante para o Fundo Baobá que, juntamente com memória, constitui um dos quatro eixos prioritários de investimento da organização. Pensar a comunicação como necessidade estratégica de investimento é uma forma de repensar o posicionamento da população negra na sociedade brasileira, assim como o papel das organizações que conversam com esse público.

“Em algumas pesquisas realizadas pelo Baobá em 2018 e 2019, percebemos que as organizações do movimento negro, sejam coletivos ou em outros arranjos, não têm orçamento para desenvolver sua atividade finalística, ou seja, qualquer investimento recebido é direcionado a isso. Então, uma discussão importante com o mundo da filantropia, fundos e investidores é a importância de fortalecer essas organizações porque instituições fortes têm a capacidade de gerir, propor, promover e, inclusive, socorrer. Nesses tempos de Covid-19, estamos vendo que são elas que estão chegando na ponta, que têm condições de traduzir as informações para as linguagens de diversas localidades.” 

Cristina Fernandes, por sua vez, dividiu algumas experiências pessoais que a levaram a criar o podcast que, depois de quatro anos de existência, já ouviu mais de 50 homens e mulheres negros contando suas histórias, desafios e trajetórias. “Passei a estudar mais sobre o tema, a ler autores e intelectuais negros e a seguir influenciadores. Isso foi alimentando minha vontade de ouvir essas pessoas e entender, por exemplo, o que é o racismo estrutural que muitos falam. Tive a ideia de fazer um programa de entrevistas porque sou muito perguntadeira e pensei que se eu tinha essa necessidade de ouvir e entender mais, outras pessoas poderiam ter também.” 

Além de dar visibilidade a pessoas que não são retratadas na mídia tradicional, Cristina explica que o podcast também nasceu para que ela, enquanto mulher negra, passasse a ocupar um espaço de narrativa e produção de mídias. “Devemos ampliar o conhecimento sobre as questões que estruturam o racismo na sociedade brasileira. Não é pelo fato de eu ter nascido negra que tenho todo o repertório a esse respeito. É um campo que precisamos ter interesse e estar abertos a aprender. Muitas pessoas brancas falam que esse não é seu lugar de fala. Mas, enquanto pessoa branca, você pode e deve ter interesse de buscar conhecimento para se sentir confortável nesse debate, além de conhecer melhor as narrativas e os desafios”, afirmou. 

Força-tarefa no combate às fake news 

Tema de piadas nas redes sociais, correntes e informações falsas disseminadas em grupos no WhatsApp, as chamadas fake news, são outra preocupação por espalhar inverdades, confundindo a população sobre as ações que de fato ajudam a conter a disseminação do vírus. 

O Instagram, rede social de compartilhamento de fotos e vídeos, lançou uma nova funcionalidade recentemente: avisos sobre publicações falsas e um processo de checagem de fatos. As imagens que forem consideradas parcial ou completamente falsas podem ter sua distribuição diminuída dentro da rede social ou até mesmo serem deletadas, além de ser fornecido links para os usuários buscarem informações comprovadas. 

Também pensando em ajudar usuários a comprovar a veracidade de informações recebidas pelo aplicativo de mensagem WhatsApp, no Twitter e também no Messenger, o Aos Fatos lançou a robô Fátima, que auxilia na busca por informações verificadas sobre a Covid-19. Além de enviar notícias que já passaram pelo filtro da equipe, a funcionalidade conversa com os usuários, recebe sugestões de checagem e separa notícias de opinião. O próprio nome da robô fornece pistas de sua funcionalidade: Fátima é derivado de FactMa, uma abreviação de Fact Machine, máquina de fatos, em tradução livre do inglês. 

O combate à desinformação também conta com o esforço da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que produziu um pacote de mensagens de áudio disponíveis em diversos idiomas, incluindo português, com o objetivo de fornecer informações úteis sobre medidas preventivas, esclarecer mitos sobre o vírus e destacar a importância da não discriminação e da solidariedade. 

As mensagens, todas com menos de um minuto, chamam a atenção dos ouvintes para buscar fontes confiáveis e oficiais de informação, incentiva famílias a desenvolverem exercícios de compreensão sobre fake news com seus filhos, alerta para a necessidade de checar quem é o especialista que está fornecendo as informações, entre outros pontos. 

Um dos áudios afirma que, atualmente, o jornalismo de qualidade é mais essencial do que nunca, uma vez que a obtenção de informações de saúde confiáveis sobre o surto de Covid-19 pode salvar vidas. “Rumores e informações falsas podem ajudar a espalhar ainda mais o vírus. Para combater essa epidemia, é importante se basear em informações provenientes de jornais, redes de TV, emissoras de rádio e sites de notícias que sejam profissionais e éticos”, completa a mensagem. 

A Organização das Nações Unidas (ONU) também lançou outra iniciativa de comunicação que incentiva a disseminação de informações corretas. O Verificado consiste na produção de conteúdo por comunicadores, criativos e pesquisadores a partir das mais recentes diretrizes e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da ONU. Ao afirmar que fake news, boatos e informações incorretas se espalham mais rápido que o vírus, o site faz um chamamento para que mais pessoas somem esforços na disseminação de conteúdos verificados, que podem ajudar no combate à pandemia. É possível receber atualizações via WhatsApp, Telegram ou newsletter. 

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