Pesquisas reforçam importância da educação no enfrentamento de desafios das juventudes brasileiras

Um estudo da União Internacional das Telecomunicações (UIT) aponta que, entre 104 países, mais de 80% da população jovem está conectada. Na escala global, 70% da juventude está na internet.

Reconhecendo que as mídias sociais são fundamentais para o ativismo jovem e considerando o papel dessa faixa etária na construção de um mundo mais justo, sustentável e igualitário para todos os gêneros e raças, este ano, o tema escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o Dia Internacional da Juventude é “Engajamento Jovem para Ação Global”.

Para Mariana Resegue, secretária-executiva do Em Movimento, organização que integra a Rede Temática de Juventudes, do GIFE, é importante aproveitar a data para reconhecer as potencialidades, mas também ouvir e apontar as dificuldades enfrentadas por essa parcela da população. “Juventudes é uma agenda muito importante mundialmente, pois vários países estão vivendo um boom demográfico. Hoje em dia, temos 50 milhões de jovens no Brasil. Como já estamos no decréscimo do pico, temos uma oportunidade única de impulsionar esse público.” 

Para a secretária-executiva, com educação, investimentos e políticas públicas certeiras, direcionadas e no tempo certo, é possível que essa faixa etária proporcione grandes avanços à sociedade brasileira, contribuindo, inclusive, para a superação de crises. “Podemos transformar a sociedade  investindo  nas juventudes. Precisamos olhar para esse público de forma organizada e com certa urgência.” 

Celebrado em 12 de agosto, o Dia Internacional da Juventude teve uma participação brasileira histórica este ano: mais de 500 atividades foram realizadas para marcar a data. 

O que mostram as pesquisas 

A importância dos investimentos no desenvolvimento de adolescentes e jovens é tema de inúmeras pesquisas, que reforçam, principalmente, o acesso à educação de qualidade como meio para promover um futuro de possibilidades. Confira algumas delas a seguir.

Censo GIFE 2018

Entre as organizações que afirmam atuar de acordo com a faixa etária do público beneficiário, 47% desenvolvem ou apoiam projetos e programas destinados a pessoas entre 18 e 29 anos. 

Prevenção da violência juvenil no Brasil: uma análise do que funciona

Segundo o estudo, realizado pelo Instituto Igarapé com apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), as taxas de violência e mortes violentas no Brasil – muito acima do restante do mundo -, acometem mais jovens negros: eles são 2,5 vezes mais propensos a serem vítimas de um assassinato do que jovens brancos. Entre 2006 e 2016, houve um aumento de 23,1% na taxa de homicídios entre os negros, enquanto entre os não-negros houve queda de 6,8%. De acordo com o levantamento, a falta de acesso à educação e de oportunidades educacionais está relacionada à insegurança, uma vez que distorção idade-série e abandono escolar fazem com que jovens fiquem mais vulneráveis e suscetíveis à violência (leia mais). 

Tendências globais de Emprego Juvenil 2020: Tecnologia e futuro dos empregos

Além de possibilitar o desenvolvimento de habilidades para a vida e o trabalho e evitar que os jovens tornem-se estatística da violência, a educação deve fazer sentido e conversar com as aspirações da juventude, para que ela sinta-se realizada e encontre seu espaço no mercado de trabalho. Entretanto, segundo o relatório, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 31% dos respondentes afirma que as habilidades que aprendem atualmente não correspondem ao que esperam e desejam em termos de carreira. 

Juventudes e a Pandemia do Coronavírus 

Promovida pelo Conselho Nacional de Juventude e correalizada por um conjunto de organizações, entre elas, Fundação Roberto Marinho, Porvir, Rede Conhecimento Social e Em Movimento, a pesquisa mostrou que, além do medo de perder familiares (75%), houve piora nas atividades de lazer e cultura (73%), estado emocional (70%) e condicionamento físico (65%), além de a pandemia também fazer com que jovens repensem a educação em suas vidas. Para 49%, o lado emocional tem atrapalhado os estudos em casa, que representam um desafio de organização para 48%. O desengajamento e risco de evasão preocupa: três a cada dez já pensaram em não voltar para a escola na retomada das aulas presenciais e 52% não pretendem fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). 

Juventudes, Educação e Projeto de Vida

Com o objetivo de entender seus sonhos e projetos de vida e o que pensam sobre a educação, a pesquisa, realizada por Fundação Roberto Marinho e Plano CDE, ouviu jovens da classe C, D, E, que representam 80% dos alunos das escolas públicas no Brasil. Terminar os estudos é o principal sonho de 59,5% dos respondentes. 

O desinteresse pela escola e problemas pessoais e de saúde foram alguns dos motivos citados para considerarem abandonar a escola. 45,6% dos que já interromperam os estudos afirmaram não obter apoio da escola no enfrentamento de desafios na vida pessoal. A pesquisa debate a importância das redes de apoio e de espaços de escuta e acolhimento. Confira aqui o vídeo de lançamento.

A relação do jovem brasileiro com a educação 

Mariana explica que a decisão de parar de ir à escola, geralmente, não é racional. Para ela, é necessário olhar diversos outros indícios, como violência, falta de recursos financeiros e gravidez na adolescência.   

“O jovem começa a sofrer uma série de dificuldades, sejam elas psicológicas, financeiras, de logística, e começa a não conseguir acompanhar até que, eventualmente, para de frequentar”, observa Mariana.

Segundo a secretária, o Brasil enfrenta dificuldades para garantir que todos os jovens tenham acesso aos direitos presentes no Estatuto da Juventude que, no início de agosto, completou sete anos.

“Nacionalizar direitos para todo e qualquer jovem, independente do seu contexto, raça e renda, para que ele seja capaz de seguir o caminho que pensou para si mesmo, é o que precisamos fazer enquanto sociedade. Além disso, muitas vezes, os jovens não têm noção do que é um projeto de vida. Eles precisam de referências e temos que abrir os horizontes para que tenham essa possibilidade de construir uma narrativa própria e não algo imposto”, afirma. 

A importância da escuta, protagonismo e participação 

Muitas das pesquisas citadas acima envolvem os maiores interessados, os próprios jovens, em todos os processos do levantamento: desde a concepção do estudo, na elaboração das perguntas dos questionários, participação em grupos focais e até mesmo na divulgação dos resultados. Para Mariana, isso é resultado de um processo de reflexão sobre a inviabilidade de discutir e falar sobre determinado público sem a presença e participação do mesmo. 

“No caso dessas pesquisas, é de grande importância envolver os jovens para entender qual linguagem o estudo deve falar para atingir um grande número de respondentes, além de abarcar as diferentes juventudes existentes no país.”

Além disso, a secretária também pontua que a produção de conteúdo e coleta de dados e informações não pode acontecer de forma isolada. É necessário que os jovens se apoderem e absorvam os materiais. 

“Processos que os incluem ajudam que eles mesmos utilizem os dados e argumentos em seu dia a dia e a entenderem a importância de participar e se engajar”, completa. 

Como o investimento social privado aborda o tema 

Lançada no dia 13 de março deste ano, a Rede Temática de Juventudes do GIFE vem atuando mesmo frente à impossibilidade de encontros presenciais. Coordenado pelo Em Movimento/Instituto Arapyaú e pela Fundação Roberto Marinho, o grupo discute dados e evidências produzidas pelas diferentes pesquisas com um olhar acadêmico e também em conjunto com jovens. “Precisamos olhar os dados mas, ao mesmo tempo, entender como o jovem vê esse contexto e como tudo isso se traduz na vida real, para que possamos pensar em projetos e políticas mais assertivas.” 

Para Mariana, unir organizações com diferentes atuações é uma forma de disseminar discussões pertinentes por todo o Brasil para que as organizações possam incorporar achados e debates da RT em seus projetos, programas e atuações diárias. 

“A RT tem o potencial de nacionalizar a discussão sobre quais são os valores importantes para os jovens, o que precisamos pensar quando falamos de juventudes, uniformizar o debate entre as organizações que compõem o GIFE, além de possibilitar organizações pensando em conjunto para causar mudanças sistêmicas e engajar diferentes atores na transformação das principais questões relacionadas às juventudes”, explica. 

Assista ao segundo e terceiro encontros gerais da RT de Juventudes no canal do GIFE no YouTube.

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