Por que periferias e favelas estão sofrendo mais com o coronavírus?

Ficar em casa, lavar as mãos constantemente com água e sabão e higienizar objetos com álcool 70% é praticamente unanimidade entre infectologistas, médicos e especialistas da área da saúde do mundo inteiro como ações efetivas no combate ao novo coronavírus. Como fazer isolamento social, entretanto, quando a renda familiar depende de trabalhos que não podem ser feitos em casa? Ou, como lavar as mãos sem água e sabão? Essa é a realidade de muitas pessoas que moram em comunidades e periferias das cidades brasileiras. 

A maior vulnerabilidade nessas regiões se apresenta a partir da violação de direitos básicos da população, como acesso a água, encanamento e moradia digna. A pesquisa Viver em São Paulo – Especial Pandemia, realizada com o objetivo de entender o que pensam os internautas paulistanos sobre os impactos da pandemia de Covid-19 e as medidas governamentais para combater a disseminação da doença, mostra que 81% dos respondentes acredita que os moradores das periferias de São Paulo vão sofrer mais do que os moradores de outras regiões. 

Já um levantamento feito pelo UOL com dados da prefeitura do Rio de Janeiro mostra que, em um mês, o número de óbitos causados pela doença em favelas e comunidades aumentou dez vezes e que, segundo levantamentos das unidades de saúde locais da Rocinha e do Complexo da Maré – conjunto de 16 favelas -, os números reais superam, e muito, os oficiais. 

Trabalhando diretamente em ações diversas na Maré, Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré, afirma que, a cada dia, a nova doença se torna realidade para mais pessoas na região. Além da falta de condições de favelas e comunidades seguirem protocolos que evitam a contaminação, Eliana reforça o papel de elementos culturais desses locais. 

“Isso tem a ver com uma sociabilidade que é característica da favela. A rua, na verdade, é a extensão da casa. É difícil para as pessoas entenderem que devem permanecer dentro de casa e que não podem fazer churrasco na rua. Sábado eu vim entregar cestas básicas e tinha gente comemorando o aniversário no meio da rua. São questões materiais, culturais e muitas outras que não podem ser simplificadas. Tudo isso vai fazer com que as pessoas se contaminem mais”, afirma. 

Sistema de saúde na periferia 

Além da pesquisa Viver em São Paulo, a Rede Nossa São Paulo também é responsável por um levantamento sobre a distribuição de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) no município. De acordo com os dados consultados pela pesquisa, as subprefeituras da Sé, Pinheiros e Vila Mariana concentram mais de 60% dos leitos de UTI do SUS no município. Ao mesmo tempo, o mapa indica que há, ao menos, sete subprefeituras que não apresentam um único leito, o que significa que mais de 2,3 milhões de pessoas residentes nessas regiões estão inassistidas. 

Outro levantamento, realizado em abril, mostrou que, na época, apesar de o Morumbi, na zona sul paulistana, ser o bairro com maior número de infectados pela doença, o número de mortes era maior na Brasilândia, na zona norte, que, no início de maio, contava com 103 óbitos. Todos os dados denotam o efeito das desigualdades socioeconômicas no combate a uma doença que acomete todas as pessoas sem distinção, mas que contam com diferentes condições para combater o vírus. 

“Quem está morrendo são pessoas que, muitas vezes, já tinham alguma doença ou aquelas que não têm uma alimentação adequada e hábitos de vida saudáveis. As condições para sobreviver, para acessar o sistema de saúde e até as condições do próprio corpo para superar a doença são muito diferentes. Os pobres já são negligenciados do ponto de vista da política pública e tudo isso deve ser levado em consideração”, afirma a diretora. 

Para ela, faltam informações de fácil acesso sobre as diferentes estruturas disponibilizadas aos estratos sociais para que a população possa pressionar o poder público e cobrar providências que alterem esse cenário. “Deve-se aproveitar a urgência das coisas e cobrar uma ação mais efetiva do Estado. Acredito que, nesse momento, a sociedade civil e organizações como a Redes da Maré devem mostrar que isso está acontecendo, mas não pode permanecer assim. Um pouco do que estamos fazendo aqui é trabalhar com as informações e usá-las para advocacy em políticas públicas para que certas coisas aconteçam.” 

O que falta? 

Na análise de Eliana, todas as ausências de estrutura nas periferias podem ser resumidas na falta de ações do poder público como, por exemplo, um sistema que consiga identificar as pessoas que mais precisam de auxílio nesse momento de emergência. “Se tivéssemos esse processo instalado, não teríamos questões tão básicas acontecendo. Há pessoas que encontro na Maré que estão desempregadas há cinco anos. Você vê no corpo dela a situação de fome. Nós não vemos o Estado, por meio da Prefeitura, com ações estruturantes de assistência social.” 

A Redes da Maré está entrevistando e cadastrando as pessoas em um sistema para que as ações não se limitem à distribuição de cestas básicas, iniciativa fundamental, porém de caráter emergencial. Para Eliana, o mais desafiador nesse momento é fazer a ajuda chegar a quem mais precisa. “As pessoas mais necessitadas não têm telefone e CPF. Elas estão no limbo, como estavam antes da pandemia. O que estamos fazendo é justamente pensar como chegar até a senhora de 60 anos, doente, que mora sozinha e veio aqui na porta porque ouviu dizer que estávamos distribuindo alimentos. Há um processo de negligência muito anterior à doença.” 

Protagonismo e iniciativas 

Além de doações e apoios externos, validar e ratificar iniciativas das próprias periferias é uma forma de reconhecer a potência existente nesse território e os saberes da população que vive nas favelas. “No Brasil, existe um pressuposto que hierarquiza e privilegia determinadas camadas sociais. Na cidade, são as classes média e rica que possuem saneamento básico. Não há um pensamento que orienta as ações do Estado para reconhecer o direito de todos. Tudo o que aconteceu na história para que a periferia acessasse direitos foi a partir da luta das pessoas desses lugares”, explica Eliana. 

O protagonismo e disseminação de ações pensadas pelos próprios moradores periféricos são fundamentais, uma vez que são essas pessoas e organizações que atuam na região que conhecem as verdadeiras demandas, necessidades e prioridades das comunidades. 

Ações periféricas

Conheça algumas ações que estão sendo desenvolvidas por coletivos e organizações da periferia para ajudar no combate ao vírus. 

Maré diz NÃO ao Coronavírus

A Campanha Maré diz NÃO ao Coronavírus é uma iniciativa da Redes da Maré pensada para acontecer em sete frentes: entrega de cestas básicas e kits de higiene, produção e distribuição de alimentação diária, renda para mulheres, arrecadação de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), atendimento online diário, ações de comunicação e prevenção e chamada pública – com inscrições até 23 de maio – com bolsas para ações locais de coletivos de arte, cultura e comunicação. 

#CoronaNasPeriferias

Com o objetivo de identificar onde e quais ações estão sendo desenvolvidas para combater o coronavírus nas periferias e favelas brasileiras, o Instituto Marielle Franco, em parceria com o Favela em Pauta e apoio do Twitter, lançou o mapa #CoronaNasPeriferias. No site, é possível consultar quem está propondo a ação, onde ela acontece, o que está sendo feito, além de links e telefone para contato. Em apenas 48 horas do lançamento do mapa, já haviam sido cadastrados 230 pontos de mobilização em 58 cidades de 22 estados brasileiros. Por serem epicentros da doença no país, São Paulo e Rio de Janeiro contam com mais iniciativas mapeadas. 

Coronavírus nas Favelas

O Coronavírus nas Favelas é uma iniciativa do Dicionário de Favelas Marielle Franco com o objetivo de fortalecer o enfrentamento ao vírus nesses locais. Trata-se de um compilado de informações, editadas no modelo de página de wiki, que reúne pesquisas, reportagens, fotos, vídeos, comentários, artigos, ensaios e reflexões acadêmicas sobre os impactos do coronavírus nas favelas. Um dos itens, por exemplo, reúne chamadas públicas para apoiar no combate ao vírus. Outra página reúne diversas iniciativas produzidas pela e para a favela, com manuais sobre o que deve e pode ser feito para combater o vírus, mapeamentos de regiões que estão sem abastecimento de água, guias ilustrados e com gírias e linguagem acessível, podcasts e até molde para fabricação de máscara caseira. 

Agência Mural de Jornalismo das Periferias

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias – agência de notícias, informação e inteligência sobre as periferias das cidades da Grande São Paulo – criou uma página especialmente dedicada ao coronavírus. Entre os conteúdos está a produção de máscaras por um casal de Pirituba, indicações de delivery nas periferias, como pesquisar unidade de saúde em caso de suspeita de coronavírus, cuidados com a saúde mental durante a quarentena, dicas para quem utiliza transporte público diariamente e outras reportagens. 

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