Fundação Tide Setubal lança série de depoimentos sobre potências e inovações da periferia

Resgatar a tradição oral da contação de histórias com personagens diversos que, com suas narrativas, revelam as potências e inovações que nascem nas periferias e se deslocam pela cidade. Essa é a proposta da série “Enfrente”, recém lançada pela Fundação Tide Setubal.

A iniciativa faz parte de um conjunto de medidas que a organização tomou a partir de sua reestruturação há dois anos. Nessa época, a Tide Setubal definiu que sua missão é ser uma instituição promotora de debates e iniciativas sobre os temas justiça social e desigualdades socioespaciais, contribuindo para seu enfrentamento.

Para atingir esse objetivo, a Fundação aposta em diferentes ações. Uma delas é o Projeto Vozes Urbanas, série de debates presenciais em espaços diversos com temáticas relacionadas a justiça social e desigualdades socioespaciais em grandes metrópoles (saiba mais). Outra é o Circuito Literário nas Periferias, O Clipe, circuito literários nas periferias, com ações em diferentes regiões da cidade.  Já o movimento com audiovisual começou com Letras Pretas,  tema de uma das edições do Festival do Livro e da Literatura em São Miguel Paulista, em São Paulo, que se transformou em série com o tema de letramento racial e produção de literatura por escritores negros e negras com o objetivo de atingir novos públicos além da rede de São Miguel Paulista.

A mais nova iniciativa nesse leque é a série “Enfrente”. Depois da Letras Pretas, realizada em parceria com a MOVA, a Fundação Tide Setubal percebeu que o audiovisual é um bom instrumento. Em função disso e de sua mudança institucional, repaginou todo seu canal do YouTube, que hoje leva o mesmo nome da série.

“Eu brinco que nós tínhamos um depósito de vídeos e não um canal com linhas editoriais e uma proposta de entregar um conteúdo conectado com o debate da nossa missão, que pudesse ser usado por outras pessoas em outros espaços. Então, reformulamos pensando nisso”, explica Fernanda Nobre, coordenadora de comunicação da Fundação Tide Setubal.

Segundo ela, a ideia de ser um espaço para ações que revelam a potência das periferias explica porque o canal chama Enfrente e não Fundação Tide Setubal. “Queremos dar destaque para pessoas, instituições e pesquisadores que trabalham para essa causa.”

A série

Segundo Fernanda, a equipe da Fundação pensou na série como um instrumento para caminhar na contramão do paradigma da ausência, uma vez que, na maioria das vezes em que a grande mídia fala de espaços periféricos, aborda o que falta naquele território. “Nós escolhemos mostrar como as pessoas estão enfrentando os desafios das desigualdades nos seus territórios que, muitas vezes, são promovidos pela ausência do estado.”

Realizada em parceria com a MOVA, a série foi organizada em dez episódios curtos de cinco a sete minutos. Em cada um deles, uma pessoa conta sua história sem interferências externas. O único requisito utilizado na seleção das pessoas foi que cada uma tivesse uma história de enfrentamento para contar. Fernanda explica que, em primeiro lugar, a equipe da Fundação construiu o argumento da série – “apresentar um mosaico de histórias de enfrentamento às desigualdades, transferindo os holofotes da ausência para as potências das periferias” – e depois cada um indicou possíveis personagens ligados à Fundação ou não.

“Temos desde agentes de saúde que atuam no território de São Miguel Paulista até pessoas conectadas com negócios sociais de impacto e aquelas que lutam pela questão da habitação. São diferentes tipos de enfrentamento.”

Entretanto, a organização buscou um equilíbrio de raça e gênero entre os entrevistados. O primeiro episódio da série, por exemplo, apresenta Well Amorin, cineasta independente, jornalista, fotógrafo e militante do movimento negro e LGBT. Em seguida, o episódio traz a história de Cláudia Adão, assistente social, amante da poesia, das rezas e das ervas.

Não só na raça e gênero, a diversidade também se faz presente nas ações dos entrevistados. “Tem um rapaz que trabalha com literatura e traz sua força política. Uma moça tem um negócio de alimentação voltado para a pesquisa da comida afro. Outra é uma assistente social que pesquisa genocídio da juventude negra”, ressalta Fernanda.

Assim como o canal do YouTube, a série leva o nome de Enfrente, que pode ser entendido de duas formas: enfrentar e ir em frente. “Por conta de estar associado à nossa missão, enfrentar as desigualdades socioespaciais e contribuir para esse enfrentamento é uma missão da Fundação. Então, o nome tem esses dois sentidos: enfrentar no sentido de desafiar e também no sentido de seguir em frente, não paralisar no enfrentamento.”

Movimento coletivo

Segundo Fernanda, outro objetivo da série foi mostrar que não se trata de uma força individual, e sim da potência que ideias de uma pessoa ganham quando colocadas em redes, movimentos e coletivos. “[Os entrevistados] são pessoas que estão vivendo aquele contexto [de desigualdade], mas que encontram caminhos e soluções que muitas vezes partem de uma construção individual, mas que em algum momento se conectam com redes. Então, nós dizemos que a “Enfrente” é a história de cada um, mas o movimento é do todo.”

Essa crença é ressaltada pela abertura da série, que diz: “Tecer a rede, furar a bolha, escutar, mudar de lugar, responsabilizar-se pelo outro. Criar inovações para poder ser em conjunto. A história é de cada um, o movimento é do todo.” Fernanda completa: “Não dá para responsabilizar uma pessoa por mudar sua realidade. Na verdade, ela precisa ter uma rede, é uma conexão desses elementos. A transformação das desigualdades nos territórios é uma responsabilidade coletiva.”

Segunda temporada

Toda quarta-feira, um novo episódio da primeira temporada da série é liberado no canal do YouTube da Fundação. Além disso, a ideia deu tão certo que uma segunda temporada já está em produção.

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