Portas de entrada ao tema de negócios de impacto

Fábio Deboni[1]

Já discutimos anteriormente o avanço do tema dos ‘negócios de impacto’ na confluência com a agenda do investimento social privado (ISP). As reflexões mais recentes focaram no ‘como’ construir esta ponte[2] e não no convencimento sobre a relevância ou necessidade desta conexão.

Ainda que possa parecer que esta conexão já esteja dada e certa, o que temos visto entre institutos e fundações é um crescente interesse pelo tema dos ‘negócios de impacto’, sem, no entanto, que ele venha acompanhado de estratégias claras de incorporação na caixa de ferramentas que o ISP já maneja há mais tempo.

Temos dito, portanto, que supor que esta sinergia e conexão se dê apenas por osmose seria ingênuo e inócuo de nossa parte – institutos, fundações e empresas mantenedoras, de um lado, e organizações do ecossistema de negócios de impacto, do outro.

Já há motivações e narrativas suficientemente fortes para ‘engajar’ institutos e fundações neste tema. Vamos citar algumas apenas para sustentar esse argumento:

  • Recomendação no2 da então Força Tarefa de Finanças Sociais[3], que propõe que, até 2020, 5% dos orçamentos de institutos e fundações sejam alocados para fortalecer este campo;
  • Iniciativas de institutos e fundações, de forma individual e coletiva, desdobrando na prática esta aproximação. Pra citar três exemplos coletivos: a Rede Temática de Negócios de Impacto do Gife[4], publicação recente do Gife sobre o tema[5] e o FIIMP (Fundações e Institutos de Impacto)[6]
  • Globalmente o avanço do tema do ‘impact investing’ e o avanço da agenda do Venture Philanthropy[7]aqui no Brasil, com vários cases de fundações internacionais atuando neste terreno[8].

Mesmo com estes argumentos e com a chegada deste tema ao mainstream no contexto global (e brasileiro?), ainda são poucos os institutos e fundações que, assumidamente, possuem estratégias conhecidas e cases práticos de engajamento com o campo dos negócios de impacto.

Estamos, portanto, numa fase exploratória, caracterizada por conhecer melhor este terreno e identificar por onde se transitar.

Vale salientar também que nesta fase institutos e fundações objetivam formar opinião própria (visão ideológica) sobre o tema de modo a definir se querem ou não se engajar nele. Em outras palavras, esse envolvimento não deve ser interpretado como algo mandatório – ou seja, de que todos institutos/fundações têm que atuar com o tema – mas sim como uma oportunidade que pode fazer sentido para alguns e para outros não.

No meio do caminho tinha uma pedra

Parafraseando o poema conhecido de Drummond, temos nos deparado com diversas dúvidas e questionamentos por parte de gestores, equipes e conselheiros de Institutos e Fundações sobre este tema. Já abordamos parte destas inquietações anteriormente[9], mas diante da recorrência desta questão entendemos que elas merecem ser reinterpretadas e rediscutidas.

Em suma, são 6 as principais travas que têm desafiado institutos e fundações a embarcarem neste tema:

1. Ideológica

A narrativa que resume essa dimensão seria a seguinte:

“Neste momento, esta agenda não está alinhada com a estratégia institucional da organização”

Vale salientar que há diversos institutos e fundações que sequer têm condições de fazer esta reflexão, pois ainda não conseguiram construir suficiente repertório de compreensão sobre este novo tema. Portanto, nossa sugestão é que eles se permitam, ao menos, conhecer melhor o tema a ponto de conseguirem internamente se posicionar a respeito.

2. Institucional

A narrativa que resume essa dimensão seria a seguinte:

“Ainda que possa haver certo alinhamento ideológico, é preciso convencer internamente as estruturas de governança para incorporar esta agenda”.

Havendo suficiente acúmulo para incorporar a agenda na estratégia do instituto/fundação, é preciso construir e desdobrar a trinca: estratégia, tática/operação e narrativa.

 3. Estratégica e metodológica

A narrativa que resume essa dimensão seria a seguinte:

“Assumida a agenda do ponto de vista institucional, é preciso definir qual será o ‘encaixe’ dela na estratégia da organização, e quais serão as trilhas metodológicas que conduzirão a organização nesta direção?”

Essa dimensão nada mais é do que um desdobramento da dimensão (institucional) anterior, e passa, por exemplo, por questões como: vamos apoiar o ecossistema, via intermediários? Vamos focar no investimento direto (com parceiros e de forma ‘caseira’)? Vamos manter essa trilha com o atual foco territorial que já atuamos?

4. Técnica (skills)

A narrativa que resume essa dimensão seria a seguinte:

“É preciso desenvolver novas habilidades na capacidade já instalada das equipes e incorporar novos repertórios para lidar com esta nova agenda”.

A agenda dos negócios de impacto requer novas habilidades as quais, em geral, não estão presentes nas equipes técnicas atuais de institutos/fundações. Sabemos manejar recursos via doação, mas temos know how para começar a fazer empréstimos? Esse tipo de questão ilustra essa dimensão.

5. Jurídica e contábil

Esta talvez seja a trava mais mencionada atualmente. Ela traz consigo certo desconhecimento deste campo e das possibilidades legais existentes que não conflitam com o arcabouço legal vigente para o terceiro setor e, em especial, para o campo fundacional.

Já se sabe que é possível atuar com este tema, de várias formas, e que elas são legais e viáveis. Portanto, não há barreira legal numa fundação e num instituto que pretende atuar no campo dos negócios de impacto. Evidentemente, há implicações e riscos envolvidos, que precisam ser bem conhecidos e mapeados.

Deve-se, entretanto, buscar orientação jurídica especializada no assunto para prosseguir nesta direção.

O que não nos parece adequado é seguirmos com a narrativa que muito se ouve por aí: “não podemos atuar com negócios de impacto por restrições legais”.

6. Orçamentária

Ao assumir esta agenda, a organização precisa desdobrar sua estratégia também em termos orçamentários. Ficar apenas como ‘expectador’ vendo a ‘banda passar’ e fazendo apoios institucionais somente não nos parece ser o mais justo e adequado, muito menos o que se espera do setor funcional em termos de engajamento com esta agenda. A alocação orçamentária pode se dar de inúmeras formas e, inclusive, pode começar por meio de doação a organizações intermediárias do campo, algo bastante simples de ser implementado. Vale lembrar que a Recomendação da Força Tarefa sugere que até 2020 apenas 5% dos orçamentos de institutos e fundações seja alocado neste tema.

Portas de entrada

Quais seriam, então, possíveis portas de entrada para institutos e fundações atuarem neste tema?

O quadro abaixo, nos oferece uma ‘régua’ com 6 focos de atuação, cada um com algumas possibilidades de ação. Da direita para a esquerda a ‘régua’ vai de uma perspectiva mais pública e coletiva de atuação (sentido mais público do tema) em direção a uma abordagem mais privada e individual (foco na agenda do instituto/fundação).

Fonte: Instituto Sabin (produção própria)

A ideia da ‘régua’ é apenas oferecer uma visão mais ampliada e menos trivial ao que se vê por aí na literatura e nas conversas do setor.

Em geral, escutam-se duas narrativas muito presentes nestas conversas. Uma, ancorada no ‘mantra’ de que institutos e fundações deveriam fortalecer o ecossistema de negócios de impacto ao terem um capital mais paciente a assumir riscos, ousar e experimentar. Outra, mais focada nas barreiras jurídicas e contábeis que limitam o investimento direto que institutos e fundações poderiam fazer em negócios de impacto.

Portanto, as duas narrativas estariam, em nossa ‘régua’, nos dois polos opostos – uma com forte viés ecossistêmico e coletivo (e, portanto, provavelmente menos aderente à missão/causa do instituto/fundação) e outra com forte viés institucional (e, portanto, bastante alinhada às demandas e expectativas diretas de cada instituto/fundação), ainda que com forte viés numa trava e não na sua solução.

Nossos aprendizados até então:

  • É possível e até mesmo desejável que se mesclem várias dimensões. A agenda é complexa e nova, e, portanto, requer abordagens múltiplas e um mix de combinações que faça sentido à sua organização.
  • Tentar ‘copiar-colar’ estratégias de outros institutos/fundações não nos parece ser o mais adequado, pois os contextos institucionais são completamente distintos entre si.
  • Para nós, a porta de entrada ao tema que mais fez sentido foi pela dimensão mais pública/coletiva, pois ela possibilitaram um entendimento mais claro do que significa na prática o tão falado ‘fortalecimento do ecossistema’ além de permitir construir uma visão mais panorâmica do assunto (inteligência de mercado). Pra quem está chegando ao tema, é fundamental saber quem é quem, quem faz o quê, lacunas, capacidades instaladas, etc.
  • Participar de iniciativas coletivas, como o FIIMP, foram e são fundamentais para consolidar a nossa estratégia de atuação no tema. Atuar em iniciativas coletivas requer dedicação e disponibilidade de tempo para além das agendas institucionais e próprias, portanto, precisa ser bem alinhado no âmbito da governança de cada instituto/fundação.
  • Por fim, mas não menos importante, é preciso construir mais espaços de formação, reflexão, troca de experiências e aprendizagem para institutos e fundações que queiram engajar-se no campo dos negócios de impacto. Entendemos este esforço como sendo fundamental para pavimentar o caminho do ISP rumo a esta nova agenda, com ampla troca entre pares e diluição de riscos[10].

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) em conjunto com o ICE. Membro do Conselho do Gife. É autor do livro “Reflexões contemporâneas sobre Investimento Social Privado”. fabio@institutosabin.org.br

[2] https://gife.org.br/institutos-e-fundacoes-no-campo-de-negocios-de-impacto/

[3] Atual: Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, vide (pág 21): https://forcatarefa-assets.s3.amazonaws.com/uploads/2015/10/Finan%C3%A7as-Sociais_Solu%C3%A7%C3%B5es.pdf

[4] https://gife.org.br/atuacao-em-rede/negocios-de-impacto/

[5] https://sinapse.gife.org.br/download/olhares-sobre-a-atuacao-do-investimento-social-privado-no-campo-de-negocios-de-impacto

[6] https://sinapse.gife.org.br/download/27910 – Guia com a sistematização do ciclo de aprendizagem do FIIMP (1). Um novo grupo denominado FIIMP 2 está sendo constituído e iniciará uma nova jornada a partir do início de 2019.

[7] https://evpa.eu.com/about-us/what-is-venture-philanthropy

[8] Um exemplo de Portugal, dentre tantos outros disponíveis pelo mundo: https://gulbenkian.pt/project/maze/

[9] https://gife.org.br/falsa-ideia-da-linha-evolutiva-da-filantropia/

[10] Uma iniciativa que construímos de forma conjunta com a Din4mo vem dando ótimos indicativos neste sentido. O Enzima Lab é um processo de imersão de institutos e fundações no tema, inspirado em programas de pré-aceleração de negócios de impacto, procura oferecer espaço de compreensão teórica sobre o tema, visualização de ferramentas utilizadas no setor, mentoria com profissionais que atuam nestas áreas e aprendizagem coletiva. Para 2019 teremos uma nova turma, a ser definida. A turma atual conta com Instituto Sabin e Din4mo como realizadores, e Fundação Grupo Boticário, Instituto Alcoa, Porticus, Instituto C&A e Gife. Mais detalhes: marcel@din4mo.com e mariana@din4mo.com

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