Próximo dia 15 de outubro ganha significado especial em razão das dificuldades enfrentadas pelos docentes durante a pandemia de Covid-19

No Brasil, as aulas foram suspensas em razão da pandemia do novo coronavírus bem quando professores e alunos começavam a se acostumar com um novo ano letivo e uma nova turma. A separação física e a migração das aulas para o ambiente online tiveram efeitos consideráveis não só sobre crianças e jovens, mas também sobre o corpo docente, como mostra a pesquisa Sentimento e Percepção dos Professores Brasileiros nos Diferentes Estágios do Coronavírus no Brasil, do Instituto Península.

O estudo foi dividido em diferentes fases. A primeira, realizada logo no início da pandemia, mostrou que os docentes estavam utilizando o momento para organizar a vida pessoal e familiar (71%) e também colocar os estudos em dia (60%). A segunda, por sua vez, mostrou o quanto a relação com a tecnologia foi desafiadora durante a quarentena: 83,4% afirmaram não se sentir nada ou pouco preparados para ensinar de forma remota. 

A terceira etapa da pesquisa se dedicou a compreender como professores estão se sentindo diante do trabalho remoto, do uso de tecnologia e, principalmente, do iminente retorno à escola. Além de ansiedade (64%) e sobrecarga de trabalho (53% – 20 pontos a mais do que na fase anterior) serem os sentimentos mais recorrentes, em uma escala de zero – nada confortável – a cinco – muito confortável -, a média do nível de conforto para a retomada das aulas é de 1,07, considerando respostas de professores das redes privada e pública (municipal e estadual). 

Retomar o funcionamento escolar em condições sanitárias adequadas para que se evite a disseminação do coronavírus e lidar com o receio da contaminação são as duas principais preocupações apontadas pelos profissionais, tanto que o principal apoio desejado na volta às aulas são orientações para lidar com os protocolos e as questões de saúde (73%). Segundo Lia Glaz, gerente de projetos do Instituto Península, por conhecerem a fundo a realidade das escolas, existe uma incerteza entre os professores sobre a capacidade de ajuste da estrutura física para colocar todas as determinações em prática. 

“É claro que os protocolos precisam ser bastante técnicos, pautados pela área da saúde. Mas talvez uma das primeiras iniciativas seja garantir comunicação fluida e transparente, de fácil compreensão. É uma via de mão dupla – escutar os professores e de manter esse diálogo aberto -, seja por meio de rodas de conversa, como colocamos no Guia de Acolhimento, seja por canais que as escolas possam criar com os professores e com as famílias”, explica. 

Cecilia Motta, secretária de Educação do Mato Grosso do Sul e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), explica que a maioria das secretarias está organizando protocolos sanitários para a retomada gradual das aulas presenciais baseados em quatro eixos. O primeiro, focado na biosegurança, diz respeito a orientações sobre a disposição das salas de aula, organização de entrada e saída dos estudantes nas escolas, o momento da merenda, entre outros. O segundo versa sobre a questão cognitiva, com diretrizes para a realização de avaliações diagnósticas para que, entendendo em qual estágio cada aluno se encontra, os professores possam replanejar suas práticas. 

Também tem atenção especial o acolhimento, correspondente ao eixo três. O eixo normativo, diz respeito à execução das ações planejadas. “É verdade que os docentes estão angustiados porque alguns estados já estão avançados nesse processo e já entregaram suas diretrizes, enquanto outros ainda não. Mas todos os professores receberão essas orientações por escrito, inclusive as famílias.” 

Como acolher os professores?

O guia ao qual Lia se refere é o Guia de Acolhimento para Professores, também elaborado pelo Instituto Península. O material tem como objetivo orientar coordenadores, diretores e redes de ensino a pensar em processos para receber, ouvir e considerar os sentimentos dos professores nesse momento de retomada de aulas presenciais ou semipresenciais. Isso porque, apesar de a quarentena ter sido muito demandante física e psicologicamente para os professores, o pedido por apoio para ajudar o bem-estar emocional de seus alunos aparece com mais força (68%) do que a demanda por apoio psicológico para si (56%).  

“Na nossa percepção, o momento pós-pandemia ou de volta híbrida [aulas presenciais e online] vai exigir uma capacidade de diagnóstico avaliativo dos alunos do ponto de vista pedagógico, mas, em um primeiro momento, uma capacidade de acolhimento de crianças e jovens. E antes de o professor ser capaz de fazer isso com os estudantes, entendemos que alguém precisa fazer isso com ele. O Guia de Acolhimento foi criado nesse sentido de apoiar secretarias e gestores escolares para que cuidemos de quem cuida, sob a crença de que professores bem suportados serão capazes de oferecer melhor suporte”, explica Lia.  

Faz parte do processo de acolhimento, por exemplo, ouvir o quanto os professores estão aflitos com a recuperação da aprendizagem perdida durante a quarentena, preocupação para 67% dos respondentes. Muitos especialistas têm alertado, entretanto, para a importância de considerar que os dois meses de aula restantes em 2020 não serão capazes de abordar o conteúdo de todo o ano letivo. Lia reforça essa percepção ao afirmar que os desafios de defasagem da aprendizagem vão muito além do período pandêmico e que, justamente por isso, a volta às aulas não será capaz de resolver todas as questões educacionais. 

“Esse período prolongado da quarentena, além de aumentar a chance de defasagem, apresenta também a possibilidade de quebra de vínculo com a escola. Então, será fundamental o acolhimento dos estudantes para que se conectem ao ambiente escolar. Do ponto de vista pedagógico, professores deverão fazer diagnósticos e combinar estratégias de reforço, recuperação e, nos locais onde for possível, usar aulas com dispositivos de tecnologia para apoiá-los, sabendo que em dois meses não vai se resolver tudo. Talvez, esse tenha que ser um plano para 2021 ou mais”, aponta a gerente. 

Uma ferramenta que pode ajudar nesse processo é a Apoio à Aprendizagem, plataforma digital criada com o objetivo de apoiar as redes públicas de ensino do país no momento de retomada das atividades presenciais após o período de isolamento social, com disponibilização de atividades, ações e funcionalidades relacionadas a fortalecimento socioemocional, atividades para verificar o desempenho dos estudantes e orientações pedagógicas e um guia para elaboração de instrumentos de avaliação. A iniciativa do Consed e da União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) contou com apoio de inúmeras organizações que atuam na área da educação, como Fundação Lemann, Itaú Social, Fundação Roberto Marinho e Instituto Ayrton Senna. 

Profissão professor 

Apesar do período conturbado que viveram na quarentena e dos meses que virão pela frente, Lia reforça a importância de comemorar o próximo 15 de outubro, dia dos professores. “Acredito que houve um reconhecimento por parte da sociedade, que é mencionado pelos próprios professores na pesquisa. Com as salas de aula entrando na casa das pessoas e famílias, talvez, mais do que nunca, a população percebeu que a profissão do professor é um ofício extremamente complexo.” 

Monica Pinto, gerente de desenvolvimento institucional da Fundação Roberto Marinho (FRM), comenta que, além da pesquisa do Instituto Península, diversos outros levantamentos mostram que famílias passaram a reconhecer mais o trabalho e a importância dos professores para crianças e jovens e que esses, por sua vez, afirmam sentir falta do apoio dos docentes, além de tê-los como referência. 

A especialista pontua, entretanto, que esse reconhecimento deve ser aprofundado com mais atração de pessoas para a profissão docente, cobrança da sociedade por cursos de formação inicial de qualidade que permitam o trabalho em campo, como acontece em outras profissões, e a possibilidade de formação continuada ao longo da carreira, para que o professor possa se manter atualizado de acordo com os desafios e metodologias contemporâneas. Todos esses pontos passam pela valorização do profissional e pela garantia de condições adequadas de trabalho. 

“Não só no Brasil, mas no mundo, a pandemia escancarou que, talvez, os professores não tenham formação adequada e nem condições de trabalho para atuar com ensino híbrido e aula remota. Então, voltamos para a questão da formação inicial. É fundamental que eles recebam esse preparo logo no início, mas que, ao longo da carreira, tenham condições de trabalho para realizar a formação continuada. Esse 15 de outubro precisa, de fato, trazer essa reflexão para a população brasileira, que deve cobrar o poder público, faculdades e universidades. Estamos o tempo todo vendo na mídia e na imprensa sobre a condição de trabalho de enfermeiros, médicos e fisioterapeutas, mas e a dos professores?”, questiona Monica. 

No mês do professor, a Fundação Roberto Marinho está trabalhando em articulação com mais de 60 instituições na divulgação de conteúdos sobre educação, bem como na realização de transmissões ao vivo sobre os desafios da educação no contexto da pandemia, além da divulgação de novos cursos online gratuitos para educadores e outras ações, todas desenvolvidas no âmbito da mobilização digital #Nem1PraTrás/DiaDoProfessor2020.

Cecilia também reforça que as aulas online abriram a oportunidade para que muitos pais, responsáveis e famílias pudessem se surpreender positivamente com a criatividade e determinação dos professores em cumprir suas funções de ensino-aprendizagem. “A pandemia é uma tristeza, mas um legado positivo é a questão das tecnologias e do uso do ensino híbrido. A educação não será a mesma, pois todo mundo acabou aprendendo novas estratégias de ensino. E nesse processo, os professores se mostraram muito competentes e criativos.” 

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