Rede LEQT lança relatório sobre composição, relacionamento e atuação em rede

Uma das mais antigas e articuladas Redes Temáticas (RTs) do GIFE, a RT de Leitura e Escrita de Qualidade Para Todos (LEQT) acaba de lançar um estudo que sistematiza parte do conhecimento acumulado com o trabalho e a articulação do grupo ao longo dos últimos oito anos. O Mapeamento da Rede LEQT: Análise Estrutural de Redes foi produzido com o apoio do consultor Rogério da Costa, do Laboratório de Inteligência Coletiva (LInC).

Ana Lima, integrante da coordenação da LEQT, explica que uma das motivações para realizar o estudo veio de uma das características constitutivas do grupo: a pluralidade de atores que o compõem, incluindo organizações, acadêmicos, especialistas, representantes do setor público e do investimento social privado (ISP), organizações comunitárias de base e muitos outros que militam no campo da promoção da leitura. 

Esse amplo espectro deve-se ao fato de que o tema é muito amplo e abarca diferentes visões e finalidades, que vão desde a apreciação literária pelo prazer de ler até questões de cidadania e empoderamento de pessoas. 

“Ao longo dos anos, a RT veio se fortalecendo e ganhando mais membros, tornando o grupo cada vez mais potente nas suas interlocuções internas e externas. Mas, essa pluralidade também nos apresenta desafios porque diferentes perfis não necessariamente compartilham das mesmas visões, objetivos e propósitos”, explica Ana. 

Nesse sentido, tanto as organizações que compõem a coordenação, como os próprios membros da rede, compartilhavam a vontade de entender melhor sua constituição, assim como suas motivações e possíveis caminhos para o futuro. A isso, Ana conta que se somou a vontade do grupo de se posicionar mais claramente como tal, frente a posicionamentos – sobretudo do governo federal, mas também dos ministérios da Educação e da Cultura – com relação à atuação das organizações da sociedade civil (OSCs). 

Os relacionamentos na LEQT 

Mesmo que as organizações membro já tivessem hipóteses próprias sobre a constituição da rede e já tenham realizado tentativas de identificar características quando o assunto é a constituição do grupo, Ana comenta que foi de comum acordo buscar um especialista que entendesse do conceito de relações em rede e como essas se constroem e fortalecem. 

A análise teve início com um questionário composto por reflexões como com quais organizações cada membro já se relacionou, com quais organizações atua ou já atuou em parcerias formalizadas ou não, com quais organizações promoveu ações no campo da leitura e com quais organizações de fora do campo da leitura se relacionam e avaliam que faria sentido ter a leitura como uma de suas frentes de atuação. 

As respostas a essas questões geraram alguns mapas que ilustram o relatório. Um dos modelos deixa claras as relações dos membros com pessoas e organizações externas. “Isso é muito legal porque vai mostrando o quanto estar no grupo permite que suas ideias, colocações, projetos e propostas afetem não só os membros da RT, mas também parceiros dos parceiros, e como tudo isso se expande”, reflete Ana.   

Além disso, a coordenadora pontua que, como o questionário perguntou tanto sobre as relações que acontecem hoje em dia, como sobre as que já aconteceram no passado, foi possível traçar uma série histórica para analisar como a RT tem adensado seus relacionamentos internos e atraído novos membros ao longo do tempo. 

A LEQT e outras redes 

A especialista reforça que o apoio do consultor foi decisivo na interpretação da malha de relacionamentos, permitindo aos membros ler e comparar os índices obtidos pelo levantamento com outros contextos e redes. “Essa leitura auxiliada por ele, com referências de outros campos, nos ajudou a perceber algumas qualidades bem importantes da LEQT.” 

Entre elas está a quantidade de interações entre as organizações do grupo, taxa superior ao considerado comum em outros contextos. Outro ponto que recebeu destaque durante a análise foi o papel das organizações. Mesmo que façam parte da RT instituições muito grandes e com alto potencial no quesito financeiro, o espaço também é composto por organizações bem pequenas, com atuação local e comunitária. Independente disso, uma pode ser tão importante quanto a outra, explica Ana, devido à sua legitimidade, credibilidade e visibilidade em relação ao tema abordado. 

“Esse reconhecimento de que é possível desempenhar um papel relevante e de destaque mesmo que a organização seja pequena é uma oportunidade de novos desenhos dentro e fora da LEQT, com a possibilidade de organizações assumirem novos protagonismos”, observa a coordenadora. 

Uma situação que não acontece na LEQT é a centralidade de atores ou organizações. Em muitos grupos, existe o cenário de que uma organização se relaciona com várias outras, mas essas não se relacionam entre si. Isso é uma constituição frágil de rede, pois se o eixo central deixa de existir, todo o trabalho é desperdiçado. Em contraposição, o relatório mostrou que a LEQT possui um tecido forte, sem concentração de trabalho em poucas mãos. 

Mapa representando a potencial expansão da Rede.

“A partir das respostas também pudemos analisar com quantos atores preciso falar se eu, enquanto organização da RT, desejo falar com outra. Na LEQT, esse número é baixo, ou seja, consigo chegar rapidamente em quem eu quero, pois conheço alguém que conhece tal pessoa ou organização e que pode me conectar ao meu objetivo”, completa Ana. 

O mapeamento também serviu para explicitar pontos que eram notados dentro da rede, como a falta de bibliotecas públicas representadas no grupo. Por isso, a partir do relatório, já foram desenvolvidas algumas ações que possibilitaram a chegada de novos membros com esse perfil. 

As periferias da rede 

Para Ana, uma das grandes contribuições do estudo foi a interpretação sobre as periferias da rede, ou seja, um processo de reflexão sobre organizações que não estão muito engajadas com os debates, mas que, ainda assim, integram o grupo. “São atores que têm poucos laços e, normalmente, tendemos a achar que essas pessoas ou organizações pouco integradas são elos mais fracos”, justifica. 

Entretanto, a análise permitiu compreender que “as periferias da rede, assim como as periferias da vida, é que trazem a diversidade”. A potência reside no fato de que são esses elos, por exemplo, que realizam trabalhos alternativos, que se diferem das ações já encampadas por outros membros do grupo. “Essa pessoa ou organização está mais à margem porque tem especificidades ou porque, geograficamente, está longe ou porque atua em um subcampo de determinada causa, mas, exatamente por isso, ela traz para a rede uma diversidade ainda maior.”  

Segundo a coordenadora, muitas organizações relataram que preencher o formulário demandou o exercício de reunir equipes internas e pensar sobre sua própria atuação e engajamento com a causa da leitura, além dos relacionamentos estabelecidos ao longo dos anos e quais parceiros poderiam ser apresentados ao tema. “Fica como dica para outras RTs do GIFE que têm interesse em aprofundar sua configuração e se entender melhor enquanto rede”, pontua. 

O material completo pode ser acessado aqui.

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