Saúde, orçamento e dimensão psicológica: os desafios envolvidos na volta às aulas

Discordâncias e dissensos são, talvez, o que mais ilustram a pandemia no Brasil: se não há unanimidade sobre pontos básicos, como a necessidade do distanciamento social – mesmo que esse tenha sido ratificado por diversos organismos internacionais de saúde e pesquisa -, quando o assunto é educação e volta às aulas, o cenário se repete. 

De acordo com a última edição da pesquisa Datafolha, 79% dos brasileiros acreditam que a reabertura das escolas no país irá agravar a pandemia. Do outro lado, há quem cite pesquisas e estudos de epidemiologistas para reforçar que crianças são menos suscetíveis à doença, e que, mantido o isolamento social, estão suscetíveis, da mesma forma ou até mais do que os adultos, a inúmeras consequências da privação do convívio: depressão, ansiedade, irritabilidade e sedentarismo têm sido relatados. 

Esses são alguns sentimentos relatados por pais, mães e responsáveis ouvidos por outra pesquisa Datafolha, encomendada por Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures. Entre maio e julho, passou de 58% para 67% o índice de alunos com dificuldades na rotina de estudos em casa, ao mesmo tempo que aumentou também a percepção sobre a desmotivação de crianças e jovens: de 46% para 51%. Nos anos finais do ensino fundamental, é maior a preocupação dos responsáveis com a desmotivação (54%) e possibilidade de abandono escolar (43%). 

Maior do que a busca por um consenso, entretanto, são as reflexões acerca dos inúmeros desafios presentes no debate sobre a volta às aulas. O redeGIFE conversou com especialistas da área de educação e expõe abaixo alguns tópicos.

O desafio do orçamento 

Apesar da preocupação de alguns gestores educacionais com a possibilidade do retorno às aulas presenciais, mesmo sob diretrizes, protocolos, notas técnicas e orientações de órgãos oficiais como a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Conselho Nacional de Educação e movimentos como Todos Pela Educação, Maria Amabile Mansutti, diretora de Tecnologias Educacionais do CENPEC Educação, afirma que uma questão primordial não tem sido abordada com a urgência e importância que deveria: o orçamento público para custear a retomada das aulas. 

“As redes públicas terão condições de fazer todas as adaptações necessárias no ambiente escolar para o retorno às aulas? Segundo o estudo Impacto Fiscal na Educação Básica, realizado pelo Instituto Unibanco e pelo Todos Pela Educação, precisaremos de 30 bilhões de reais para o ano de 2020 nas redes estaduais, já que tivemos queda de arrecadação e vai ter um aumento muito maior das despesas para a adequação das escolas a todos esses protocolos e orientações”, observa. 

A diretora reforça que a política de cortes adotada pelo governo federal preocupa o setor educacional, sobretudo frente à indefinição dos próximos passos. “O Ministério da Saúde é que deverá dar o sinal mais importante sobre a retomada e quais são os riscos envolvidos nisso. Além disso, é necessária uma indicação em nível federal, ou seja, do Ministério da Educação, se haverá recursos para bancar o retorno.” 

Aprendizagem, distanciamento social e desigualdades 

Durante a quarentena, houve grande diferença na oferta de educação à distância. Ao mesmo tempo em que muitas escolas da rede particular de ensino se organizaram para manter as aulas de forma online – algumas, inclusive, contrariando as orientações de especialistas e transpondo as aulas da forma que eram realizadas presencialmente para plataformas virtuais -, nas redes públicas, houve uma série de adaptações: entrega de conteúdos e materiais impressos, disponibilização de atividades em portais das prefeituras e em ambientes virtuais e até mesmo envio de atividades via Facebook, Instagram e WhatsApp. 

A questão do acesso à tecnologia e à internet é outro desafio: a realidade de estudantes de uma mesma turma pode variar muito. Enquanto uns podem ter um computador ou celular para acessar as aulas, outros podem precisar dividir o aparelho com toda a família. Frente a esse cenário, é intuitivo apontar que a dedicação aos estudos durante o período de distanciamento social apresentou e ainda apresenta uma enorme variação, de acordo com os diferentes contextos socioeconômicos que marcam o território brasileiro. 

Segundo Maria, todo o contexto demanda atenção a questões como evasão escolar, que, de acordo com inúmeros estudos e pesquisas, tende a aumentar no retorno às aulas, assim como as questões do acesso e da qualidade da oferta educacional. “Nós já enfrentávamos o desafio das desigualdades, mas agora isso ficou escancarado. Vários artigos mostram o grande impacto que ocorre quando crianças altamente vulneráveis, principalmente, ficam grandes períodos afastadas das escolas.”.

Como elaborar um planejamento de retomada 

Independente da busca por consenso, é importante atentar-se a medidas que gestores educacionais devem considerar na elaboração de protocolos de retorno às aulas presenciais, caso assim seja determinado pelos governos estaduais e municipais. 

No âmbito da pandemia, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação tem elaborado guias com orientações práticas sobre diversos temas, como educação, alimentação escolar, educação à distância e reabertura das escolas. Ao todo, o guia sobre a retomada conta com 20 orientações que vão além da observação dos protocolos de segurança e saúde exigidos e reforçam medidas como garantia da participação da comunidade escolar, inclusive de meninas e mulheres, promoção de canais de comunicação eficientes, construção de protocolos de retorno de acordo com a realidade de cada escola, proposição de uma educação humanizada e integral, desenvolvimento de novas formas de avaliação a partir de uma reorganização curricular, entre outras. 

Para Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil, devido às grandes chances de a crise atual ter consequências para os sistema de ensino em termos de acesso, qualidade, equidade e gestão que irão perdurar após o término da pandemia, é necessário pensar em atividades de prevenção, preparação e mitigação a partir de uma abordagem de médio e longo prazo. 

No curto prazo, entretanto, a coordenadora reforça a importância de um planejamento coordenado entre setores, governos e parceiros do setor educacional, o que envolve a análise dos riscos possíveis ou já existentes da crise, incluindo aqueles relacionados a outros setores-chave, como o da saúde, e a compreensão da relação entre esses riscos e a educação para desenvolver estratégias adequadas de resposta. 

“No contexto da Covid-19, a falta de familiaridade das crianças com técnicas apropriadas de higiene ou a resistência ao cumprimento de regras de distanciamento social, por exemplo, podem agravar a propagação do vírus. No entanto, o envio de mensagens comunitárias que salvam vidas, o uso da educação como veículo de divulgação de informações sobre saúde pública e o investimento na educação como forma de promover a inovação e o desenvolvimento das competências necessárias para enfrentar futuras crises podem se revelar úteis para mitigar esses riscos”, exemplifica Rebeca.  

Maria aponta que o ideal seria ter uma política educacional para o período da pandemia. Segundo a especialista, considerando a indefinição dos próximos passos e como se darão os desdobramentos na área educacional, não têm sido observados planejamentos mais robustos e detalhados. 

Ensino híbrido como mudança permanente 

Considerando que na maioria das localidades, em razão de medidas como distanciamento social, não será permitida a volta da totalidade dos estudantes, será necessário manter o ensino online, em um sistema de escalonamento daqueles que frequentam a escola e nos outros dias estudam em casa. Por isso, Maria pontua a importância do debate sobre acesso a tecnologias e qualidade da oferta educacional ser feito de forma mais clara, forte e precisa em diversos documentos. “Ao mesmo tempo em que traz desafios, o ensino híbrido nos apresenta oportunidades que precisam ser bem analisadas porque esse é um movimento irreversível”, explica a especialista. 

Rebeca segue o mesmo raciocínio ao afirmar que o planejamento de estratégias integrais de ensino à distância deve ser orientado pelas necessidades de mitigação imediata e também pelas metas de longo prazo, ou seja, as mudanças demandadas em razão da pandemia podem dar início ou intensificar todo um processo de mudança educacional.  “Além da resposta à crise atual, os esforços para implementar o ensino à distância em larga escala para todos os níveis da educação oferecem lições valiosas e podem lançar as bases para objetivos de longo prazo para construir sistemas educacionais mais abertos, inclusivos e flexíveis depois que a pandemia da Covid-19 tiver passado”, explica. 

Diagnóstico como etapa fundamental 

A indefinição sobre quando as aulas serão retomadas e a forma como isso se dará contribui com mais dúvidas e a possibilidade de aprofundar ainda mais as desigualdades já existentes. “Em geral, estudos mostram que 20% conseguem avançar no ensino remoto, 30% não estão nem conectados e 50% estão no ‘meio do caminho’. Esse é um ponto que nós do CENPEC temos observado: as escolas ainda não estão trabalhando para identificar com clareza o quanto os alunos estão se beneficiando desse ensino remoto”, afirma Maria.  

Um capítulo inteiro do e-book A escola de um novo tempo: práticas pedagógicas no contexto da pandemia, elaborado pelo CENPEC Educação no âmbito da série Nós da Escola, da Editora Moderna, trata sobre a importância da avaliação diagnóstica da aprendizagem durante a quarentena. Para Maria, trata-se de uma ferramenta fundamental, uma vez que, ao mesmo tempo em que se fala de recuperação da aprendizagem, são os resultados desses diagnósticos que permitirão a continuidade da educação. 

“Existem níveis de aprendizagem diferentes dentro de uma mesma sala. É provável que muitos alunos tenham regredido na aprendizagem, que outros tenham conseguido avançar e que a grande maioria esteja no meio do caminho. Nada disso será resolvido em um curto espaço de tempo. Não é algo que faremos de uma hora para a outra. Precisamos avançar muito na identificação dos níveis de aprendizagem para recuperar. Teremos um longo caminho para que isso aconteça, pois os efeitos são muito devastadores para a aprendizagem na escola pública”, explica Maria, citando a título de comparação o fundo de um bilhão de libras (cerca de R$ 6,6 bilhões) anunciado pelo governo britânico, em junho, como forma de apoiar crianças e jovens a recuperar o conteúdo perdido durante o período de distanciamento social. 

O cuidado com o bem-estar emocional 

Muitos especialistas também têm alertado para a importância de considerar a dimensão emocional e psicológica não só dos alunos, mas também dos professores, coordenadores, diretores e de toda a equipe e comunidade escolar. Se o estresse e a ansiedade diante de mudanças radicais nas rotinas, da falta de respostas claras sobre a pandemia e do futuro das aulas presenciais atingiu a todos, muitos podem ter experienciado situações ainda mais graves, como a perda de parentes em razão da Covid-19, diminuição da renda familiar e outros desafios. 

Para Rebeca, incentivar o desenvolvimento de habilidades de resiliência emocional para lidar com essa situação é um dos caminhos a serem seguidos. “Já está comprovado por práticas baseadas em evidências que as habilidades socioemocionais podem ser adaptadas para ajudar a dotar crianças, jovens, pais e professores dos conhecimentos, capacidades, atitudes e comportamentos necessários para se manterem saudáveis e otimistas, lidarem com as emoções, praticarem o engajamento consciente, demonstrarem comportamentos pró-sociais e enfrentarem os desafios diários. Além disso, pesquisas mostram que a aprendizagem socioemocional pode ser ensinada como qualquer outra disciplina escolar e, por isso, toda a equipe pedagógica pode apoiar o desenvolvimento dessas habilidades.” 

Propostas no âmbito da arte-educação, por exemplo, podem ser uma boa oportunidade para envolver famílias e incentivar o aprendizado, inclusive sobre a própria crise, e discussões sobre as vivências durante a pandemia. “Além de ativar as áreas de recompensa no cérebro que ajudam a converter emoções negativas como medo e raiva em emoções positivas como esperança e confiança, o comportamento pró-social também permitirá que as pessoas se acalmem quando estiverem irritadas, resolvam conflitos de forma respeitosa e façam escolhas éticas e seguras”, completa a coordenadora. 

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