Seminário aborda diferentes formas de filantropia comunitária no Brasil

Como a Filantropia Comunitária pode contribuir com o desenvolvimento sustentável no Brasil e promover mudanças duradouras? Essa foi uma das perguntas que pautou o seminário Expandindo e Fortalecendo a Filantropia Comunitária no Brasil, realizado no dia 11 de junho, em São Paulo.

Promovido pela Rede de Filantropia para a Justiça Social, o evento contou com apoio institucional do GIFE, apoio do The Global Fund for Community Foundations (GFCF), Instituto Sabin e Instituto C&A, e parcerias do Worldwide Initiatives for Grantmaker Support (WINGS), RedEAmérica, Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e  Philanthropy for Social Justice & Peace.

Na ocasião, foi lançada a publicação Debates e Reflexões sobre a Filantropia no Brasil, que contém nove artigos de atores do campo, do Brasil e do cenário internacional. O compilado foi produzido a partir do relatório Filantropia no Brasil, publicado em 2018 pela Philanthropy for Social Justice & Peace. “Em um momento em que a sociedade civil está estrangulada, a filantropia tem um papel imenso. Com essa publicação, queremos refletir sobre o que e onde estamos fazendo e porque o grantmaking é relevante, especialmente no contexto em que estamos vivendo”, salientou Ana Valéria Araújo, superintendente do Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Para José Marcelo Zacchi, secretário executivo do GIFE, é necessário promover e aprofundar o engajamento da filantropia com temas diversos. “É preciso ter uma pluralidade de atores e organizações envolvidas, que poderão indicar diferentes caminhos para a atuação filantrópica.”

Filantropia Comunitária e desenvolvimento sustentável: o movimento

Jenny Hogdson, diretora executiva do GFCF e representante do movimento #ShiftThePower, explicou que, ao mesmo tempo em que há uma pressão e burocratização da sociedade civil em níveis mundiais para dificultar sua atuação, muitas pessoas estão criando novas formas de trabalhar.

“No mundo inteiro vemos pessoas que, ao perceberem que o sistema não vai ajudar, começam a fazer as coisas por elas mesmas e a trabalhar de forma horizontal para mostrar que é possível nos reorganizarmos como cidadãos. Se o velho poder fala sobre experts e autoridades, o novo poder é plano e horizontal e fala sobre cocriação, cultura maker e gente que faz em vez de seguir instruções.”

A diretora ressaltou, no entanto, que o fato de os indivíduos se organizarem para criar instituições que ajudem em demandas não supridas pelo governo, tornando-se coinvestidores do seu próprio desenvolvimento, não diminui a responsabilidade pública, ao contrário, a sociedade passa a demandar ainda mais seus direitos.

O movimento #ShiftThePower fala sobre como encontrar formas de engajar pessoas que querem fazer parte da solução, criando assim a mentalidade do ‘nós’ em detrimento do pensamento da visão autoritária que enxerga comunidades como problemas a serem resolvidos. “As melhores soluções não vêm de Londres ou Washington, mas das próprias comunidades que vivem os desafios. A cultura muda quando um pequeno grupo de pessoas encontra uma forma melhor de viver e os outros começam a copiar. Precisamos criar pólos onde essas pessoas possam se reunir.”

Pesquisas e tendências da Filantropia Comunitária no Brasil

Parte dos debates ao longo do seminário se apoiou em pesquisas e indicadores acerca do que tem sido realizado no país. Levantamento realizado em 2016 pela Rede de Filantropia, por exemplo, apontou a percepção de que existem muitas formas de fazer filantropia comunitária no Brasil, não exclusivamente por meio das fundações filantrópicas.

Na avaliação de Graciela Hopstein, coordenadora da Rede Filantropia para a Justiça Social, a filantropia comunitária tem características próprias, dependendo do território onde acontece, sendo ainda um conceito novo. “Muitas comunidades realizam ações diferentes. Com isso, o conceito de filantropia comunitária vai tomando várias formas. Precisamos fortalecer e trazer esses diferentes jeitos de fazer para o centro do debate, inclusive reconhecendo experiências que já existem”, defendeu.

Erika Sanchez Saes conectou a conversa com o cenário do investimento social privado a partir de dados coletados no último Censo GIFE. A quarta maior área de atuação e investimento dos respondentes é ‘apoio ao fortalecimento das organizações da sociedade civil’ e a quinta ‘desenvolvimento local/comunitário’.

Entre os 116 respondentes, 43% são predominantemente executores, ou seja, realizam seus próprios projetos; 41% são híbridos; e 16%, predominantemente doadores, o que demonstra alto potencial de crescimento para doação. A diminuição do orçamento (de R$ 3,6 bilhões no Censo de 2014 para R$ 2,9 bilhões em 2016) é um fator que impacta diretamente o repasse às organizações, que de 2014 para 2016 diminuiu 33%. Nesse cenário, um dos desafios é entender porque certos investidores não apoiam OSCs.

O estudo Filantropia Comunitária: Terreno Fértil para o Desenvolvimento Social, realizado por IDIS e Fundação Charles Stewart Mott, vai ao encontro desse desafio mapeando organizações que operam ou desejam operar no campo da filantropia comunitária, a fim de entender qual é a melhor forma de apoiá-las.

Raquel Altemani, gerente de projetos do IDIS, elencou alguns achados comuns entre as organizações comunitárias de São Paulo selecionadas pelo edital do IDIS para a pesquisa. “Diversas organizações estão lutando para sobreviver e apresentam desafios iguais a qualquer instituição, como reter talentos, mensurar impacto e captar recursos. Também percebemos que, apesar de muitas já se relacionarem com outras iniciativas locais, não investem recursos financeiros, muitas vezes porque elas próprias estão buscando sua sustentabilidade. Por fim, há falta de conexão com outras organizações, com predominância do trabalho isolado”, comentou.

Grantmaking e investimento social privado: experiências de apoio à sociedade civil como estratégia de desenvolvimento

No final do período da manhã, representantes de organizações da sociedade civil puderam apresentar experiências que têm sido realizadas em diferentes partes do Brasil.

É o caso do Fundo Socioambiental Casa. Criado em 2006, a organização se destina a apoiar e incentivar o protagonismo de grupos e movimentos de base na América do Sul para promover um acesso mais democrático aos recursos.

A comunidade Kĩsêdjê, por sua vez, criou a Associação Indígena Kĩsêdjê (AIK) e um fundo comunitário, de forma a concentrar a venda de artesanatos e produções da aldeia, como mel, pimenta e óleo de pequi.

Já a Caranguejo Uça atua desde 2000 na Ilha de Deus, em Recife, fomentando coletivos de resistência e o trabalho realizado nas periferias. “Conhecer os atores que estão fazendo a diferença é fundamental para compreender que temos potência no território e que vamos criar juntos uma nova forma de sociedade”, explicou Terezinha Filha, integrante da organização.

Por fim, o Fundo Baobá, cuja missão é trazer mais pessoas para o movimento de promoção da equidade racial a partir de um fundo patrimonial que aplica seus rendimentos em organizações que atuam com o tema, passando-as de beneficiárias a protagonistas.

Amália Fischer, cofundadora do Fundo Elas, que mediou o debate, observou que não é preciso ser milionário para doar. “Não devemos ter medo da palavra filantropo. O mais importante é se engajar e pensar em uma cultura de doação que vá além da caridade, porque essa vê o outro como desigual. É preciso ter respeito pelos outros e entender que doação não é beneficência, não é esmola e nem caridade.”

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, reforçou que a filantropia está sendo provocada a se reinventar em um contexto internacional e que, nesse cenário, é positiva a aproximação da Rede de Filantropia para a Justiça Social e do GIFE, em um movimento de atrair mais investidores para organizações comunitárias.

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