Sexta edição do Fórum Fale sem Medo, do Instituto Avon, reúne especialistas e ativistas para dialogar sobre diferenças e violência contra meninas e mulheres

Em 8 de março, data que marca o Dia Internacional da Mulher, redes sociais foram inundadas de homenagens ao público feminino. Foi também uma oportunidade para protestos por parte de meninas e mulheres, pedindo mais respeito durante o ano todo, além da ampla divulgação de dados relacionados à violência contra esse público.

De acordo com a segunda edição da pesquisa Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, publicada em 2019 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e Instituto Datafolha, 16 milhões de mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência ao longo de 2018. A maioria dessas, 42%, é vítima de violência dentro da própria casa, o que acarreta outro dado de destaque: em 76,4% dos casos o agressor era um conhecido. Os vínculos mais citados foram namorado, cônjuge e companheiro.

Considerando essa realidade, o Instituto Avon e o Itaú Cultural irão promover, no dia 29 de março, em São Paulo, o 6º Fórum Fale sem Medo. Com o tema “Histórias para novos contratos: como conversar com alguém que pensa muito diferente de você?”, o encontro contará com a presença de especialistas brasileiras e estrangeiras, ativistas, músicos e representantes da sociedade civil e do poder público.

Daniela Grelin, diretora do Instituto Avon, ressalta que, em um país onde crescem ano após ano os números de feminicídio – somente em 2019 foram mais de 200, segundo levantamento de Jefferson Nascimento, doutor em direito internacional pela Universidade de São Paulo (USP) conforme notícia d’O Globo -, a realização de eventos como o Fórum torna-se ainda mais pertinente e urgente.

“Nós acreditamos que essas ocorrências são a ‘ponta do iceberg’. Para cada caso que ganha a atenção da mídia, existem milhares de outras formas de violência que acontecem cotidianamente de forma recorrente com mulheres do Brasil inteiro. Existem lacunas nas estruturas do serviço público de atendimento a vítimas de violência, além dos modelos mentais que acabam perpetuando essa cultura que naturaliza a violência. O nosso objetivo com o Fórum Fale sem Medo é chegar nesses modelos mentais, trazendo consciência por meio de debates e pensar em linguagens, abordagens e alternativas que tornem possível para nós como sociedade avançar nessa questão.”

Ana de Fátima Sousa, gerente do núcleo de comunicação do Itaú Cultural, também ressalta a relevância do evento e o alinhamento entre os institutos. “A pauta do Fórum Fale Sem Medo e a seriedade de condução do tema por parte do Instituto Avon se mostraram muito convergentes com o compromisso que o Itaú Cultural tem com a sociedade. Buscar ações para combater a violência contra a mulher, apontar caminhos para igualdade e,  especialmente nesta edição, criar mecanismos de diálogo, de convivência e de troca são as jornadas propostas pelo Fórum e que acreditamos que são essenciais e extremamente urgentes.”

Histórico

A primeira edição do Fórum foi realizada em 2013. Daniela afirma que na época ainda eram poucos os encontros destinados a debater o tema, mas com o passar do tempo, cresceu a atração e o impacto dessas iniciativas.

Se em 2013 o Fórum foi realizado como um evento de pequeno porte, para 150 pessoas, os organizadores têm a expectativa de reunir 800 pessoas na sexta edição do encontro, além de realizar transmissão online pelo Facebook, uma vez que, segundo a diretora, um dos aprendizados com a realização do Fórum ao longo do tempo é o fato de que a violência contra a mulher pauta não só o debate público e a imprensa tradicional, mas também as redes sociais. Em uma busca rápida na rede social de fotos Instagram, são mais de 34 mil publicações com a hashtag #8m2019, que simboliza o dia 8 de março, quando milhares de mulheres ocuparam as ruas de diversas cidades e capitais brasileiras e do mundo na luta pela garantia de direitos do público feminino. Se a pesquisa for #8m, o número de posts ultrapassa um milhão.

Com o aumento progressivo do engajamento com a causa, Daniela explica que o Fórum se constitui como uma oportunidade de reunir em um mesmo ambiente pessoas com papéis importantes e complementares no enfrentamento de cenários de violência.

A edição de 2018, entretanto, trouxe aprendizados que levaram o Instituto a rever o evento. “No Fórum do ano passado percebemos que estávamos falando com pessoas já comprometidas com a causa, ou seja, ‘pregando para convertidos’. Foi então que o próprio conselho do Instituto Avon questionou como chegar nas pessoas que não fazem necessariamente parte do problema ou da solução. Por isso, escolhemos o tema “Como conversar com alguém que pensa muito diferente de você?” para tratar da dificuldade do nosso país de estabelecer diálogos construtivos, com respeito às diferenças e diferentes perspectivas. É um tema mais abrangente e extremamente atual e necessário. O debate e aprofundamento é útil para a causa da violência contra a mulher, mas também para tantas outras causas inerentes à sociedade que queremos construir.”

Programação

Um dos destaques da programação do Fórum é a participação de Özlem Cekic, ex-parlamentar dinamarquesa, que será responsável pela palestra magna “Por que eu tomo café com quem me manda mensagem de ódio?”.  

A tarde de conversas também será preenchida com a realização de dois painéis. O primeiro terá como tema “Como conversar com alguém que pensa muito diferente de você”. O segundo, por sua vez, irá reunir representantes do #AgoraÉQueSãoElas, do governo do estado, Magazine Luiza, Instituto Itaú Cultural, CIVI-CO e Instituto Avon para debater cinco elementos importantes para o fim da violência contra as mulheres.

O evento também contará com mensagens da ONU Mulheres e expressões artísticas, como o show da cantora Karol Conka que fará o encerramento do encontro. Além disso, seguindo a tradição de todo ano contar com o lançamento de uma pesquisa durante o encontro, o Fórum será palco do lançamento do estudo Como conversar com alguém que pensa muito diferente de você sobre gênero?.

Uma parceria entre Instituto Avon e o Papo de Homem, portal que publica artigos com o objetivo de estimular o pensamento crítico e ação, a pesquisa baseia-se na resposta de homens e mulheres sobre sentimentos, obstáculos e benefícios envolvidos no diálogo entre pessoas com visões e opiniões diferentes dentro da temática de gênero, além da possibilidade de identificar caminhos para a construção de pontes entre elas.

“Nós tivemos uma grande amostragem na pesquisa, o que mostra que há muita gente disposta a falar sobre esse tema que está na ordem do dia. O levantamento também nos mostrou que há grupos demográficos muito mais abertos à construção de diálogo, enquanto outros mostram-se pouco interessados em ouvir opiniões divergentes. O grande desafio da pesquisa é encontrar abordagens que tornem possível a construção de pontes”, explica Daniela.

Segundo a diretora, o único caminho para promover transformações sociais, como o respeito e a garantia dos direitos das mulheres, é estimular a cooperação entre a população, o que demanda comunicação e compreensão de que, mesmo que não haja concordância sobre tudo, os seres humanos fazem parte de um mesmo grupo. “O Fórum quer estabelecer alguns conceitos comuns e um deles é a ideia de que mulheres têm direito a uma vida sem violência.”

O dia do evento também contará com a exposição “Você não está sozinha”. Promovida pelo Instituto Avon, a iniciativa conta histórias sobre violências domésticas a partir da perspectiva de objetos, uma vez que em muitos casos não há ninguém além da vítima e do agressor no ambiente.

Participe

O Fórum Fale sem Medo será realizado no dia 29 de março, a partir das 13h, no Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer, em São Paulo. As vagas são limitadas e as inscrições podem ser realizadas neste link.

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