XI Fórum Internacional da RedEAmérica traz a Salvador debates sobre desigualdades e inclusão

Na última semana, Salvador (BA) sediou o XI Fórum Internacional da RedEAmérica (FIR 2019). Realizado no dia 21 de março, o evento promoveu debates sobre desigualdades sociais e inclusão a partir de reflexões sobre oportunidades e desafios impostos pela diversidade na construção de um desenvolvimento sustentável na região da América Latina e Caribe.

Pela primeira vez, o Brasil ganhou o centro da atenção dos 14 países que compõem a RedEAmérica no bojo do compartilhamento de experiências importantes entre as nações, além de conhecimentos e boas práticas sobre comunidades sustentáveis.

Temas atuais tais como imigrações, raça, gênero, educação, inovação e a necessidade de um diálogo mais plural foram alguns dos assuntos abordados durante o Fórum. A partir da visão das comunidades sustentáveis, empresas, fundações e institutos foram convidados a fazer contribuições substanciais para a compreensão e gestão da diversidade, a fim de torná-la motor na construção de sociedades mais justas, prósperas e democráticas na América Latina e no Caribe.

Para Cecília Galvani, coordenadora da RedEAmérica no Brasil, há uma correlação direta entre grupos tidos como ‘minoritários’ e a condição de pobreza. “Populações excluídas devido à sua condição étnica, racial e de gênero começam a sair da invisibilidade, mas permanecem fora de políticas públicas. O tema da inclusão da diversidade não pode mais ficar à margem, se quisermos avançar enquanto uma sociedade democrática. Afinal, em se tratando de América Latina, determinadas populações – como negros e índios -, representam a maioria e não uma minoria. Nesse contexto de território, os limites entre crenças, valores e direitos trazem uma complexidade ainda maior para a nossa prática com a presença de comunidades tradicionais – a perspectiva ocidental dos então tidos como ‘direitos universais’ não reflete necessariamente sua realidade e complexidade.”

Nesse sentido, para a coordenadora, temas como o diálogo e seus desafios inerentes continuam no epicentro da cena. “Como incluir as diferentes vozes, encarar o diferente como complementar e conseguir compor uma visão compartilhada em contextos marcados pela diversidade? O desenvolvimento da empatia, do respeito e da visão sistêmica segue como necessário e como caminho possível”, observa.

O FIR é organizado pela RedEAmérica, cujo papel é conectar os que possuem em comum o interesse de gerar comunidades sustentáveis, dar-lhes ferramentas de aprendizagem, facilitar sua interação e tornar visíveis seus esforços para que cada uma das instituições que fazem parte da rede possa aproveitar o conhecimento das demais, e, juntas, construir as estratégias de que precisam para promover comunidades sustentáveis.

A articulação é composta por 80 instituições que estão presentes em 14 países da América Latina e Caribe. No Brasil, seu bloco é composto por organizações como Fundação Alphaville, Fundação Otacílio Coser, Instituto Arcor Brasil, Instituto BRF, Instituto Camargo Correa, Instituto LafargeHolcim, Instituto InterCement, Instituto Lina Galvani, Instituto Votorantim e Natura Cosméticos.

Programação

O FIR 2019 promoveu uma agenda de atividades pré-evento. No dia 19 de março, os membros da RedEAmérica puderam visitar alguns dos projetos desenvolvidos pelas instituições do bloco brasileiro, como a pesca e a horta escolar no Distrito de Ipuaçu, realizadas pela Fundação Alphaville e a Comunidade Empreende, no nordeste de Amaralina, iniciativa do Instituto Camargo Corrêa.

No dia 20 de março, as rodadas de aprendizagem entre os membros abordaram as possibilidades de contribuição para a efetiva implementação das políticas públicas para a primeira infância nos territórios; as metodologias para o fortalecimento individual, coletivo e territorial para uma convivência eficaz; além da Terapia Comunitária Integrativa, ferramenta de diagnóstico, desenvolvimento e avaliação social.

No dia 22 de março, o Fórum oportunizou uma oficina sobre medição do impacto do investimento social privado nos programas já existentes ou naqueles em fase de implementação.

Rafael Gioielli, gerente geral do Instituto Votorantim, destaca três aspectos que fizeram parte de toda a programação do evento. “Houve em todos os painéis uma etapa de compreensão do problema e da influência das questões de diversidade na desigualdade, ou seja, como a questão racial, por exemplo, é um fator estruturante das desigualdades nas sociedades; depois uma reflexão sobre de que forma institutos e fundações se relacionam com essa perspectiva da diversidade e das desigualdades e como isso é considerado em seus programas e projetos; e um terceiro ponto que é como o investimento social privado pode promover um processo de redução de desigualdades. Tudo isso a partir de perspectivas das empresas globais e também de experiências mais locais em comunidades”, conta.

O gerente ressalta a importância do evento para a trajetória do Instituto Votorantim. “Para nós faz muito sentido estar nesse espaço da RedEAmérica e no próprio evento, primeiro pela oportunidade de troca com atores do ISP que estão atuando em outros países que, de certa forma, têm contextos parecidos com o nosso. Isso nos ajuda muito a identificar bons projetos e tecnologias e a evitar percorrer caminhos que não deram resultado. Em segundo lugar, pelo tema da diversidade e inclusão que tem ganhado muito espaço na agenda das empresas ligadas ao Grupo Votorantim e o Instituto está se preparando para apoiar as empresas a endereçarem estratégias de diversidade e inclusão nas suas operações.”

Cecília chama atenção para o fato de que na perspectiva dos negócios, inúmeras práticas vêm demonstrando que a diversidade, quando encarada como riqueza, gera inovação e soluções mais sustentáveis na medida em que traz diferentes perspectivas. “Dentro das empresas, temos avanços com relação à inclusão de pessoas com deficiência e mulheres em cargos de liderança, mas o tema de raça segue sendo um desafio na medida em que se trata de uma questão estruturante em nossa cultura e que, para avançarmos, se fazem necessárias políticas públicas de longo prazo com vistas à equidade e justiça social.”

Migrações

O GIFE foi um dos convidados especiais do FIR 2019. Gustavo Bernardino, coordenador de políticas públicas do GIFE, moderou um painel cujo tema foram os recentes movimentos migratórios, que introduzem diversas mudanças nas comunidades e são considerados fonte de inovação e riqueza na formação de diversos territórios na América Latina e no Caribe. Os territórios, as comunidades e as empresas estão preparadas para acolher, ouvir e incorporar imigrantes na construção de um futuro multicultural para todos? Quais são os desafios para construir visões e planos futuros? Essas e outras reflexões conduziram os debates da sessão.

Gustavo explica que a atividade oportunizou dar mais centralidade ao tema junto ao investimento social privado, considerando também que a agenda faz parte do projeto “O que o ISP pode fazer por…?”, cujo objetivo é diversificar e expandir a atuação do setor, atraindo mais investimentos e estimulando a reflexão acerca de sua contribuição em temas urgentes e relevantes da agenda pública nos quais a atuação do ISP se dá de forma ainda tímida.

“Foi muito interessante participar do debate, considerando que são poucos ainda os institutos e as fundações que trabalham com essa temática: na base associativa do GIFE somente Fundação Avina e Instituto C&A tem trabalhos mais direcionados ao tema. Então, estar presente nesse debate nos ajuda a lançar mais luz sobre um tema que vem ganhando relevância no contexto latino-americano e, particularmente no Brasil.”

A atividade foi conduzida a partir da exposição de dois cases – FECHAC, no México, que busca apoiar a comunidade da Ciudad Juarez, que faz fronteira com os Estados e Unidos e recebe um grande fluxo migratório; e uma ação de fornecimento de microcrédito e geração de renda a refugiados em uma comunidade do Quênia realizada pela International Finance Corporation (IFC), organização membro do Grupo Banco Mundial voltada para o setor privado em mercados emergentes.

A atividade contou ainda com a participação de Cynthia Loría, especialista em migrações pela Fundação Avina na Guatemala. A especialista fez uma conceituação dos fenômenos migratórios recentes e também problematizou o debate do ponto de vista da atuação do setor empresarial, ainda tímido em iniciativas que propiciem maior integração das populações de imigrantes, que costumam contar com um alto percentual de pessoas com ensino superior, sem contar o segundo idioma, e que poderiam ser absorvidas pelos quadros de colaboradores das empresas.

Cecília ressalta a mudança de paradigma necessária para a construção de comunidades sustentáveis a partir da perspectiva da diversidade. “Trata-se fundamentalmente da substituição de privilégios e concentração de poder para a promoção da inclusão social e do empoderamento. Considerar o outro como recurso e não apenas como demandante e descobrir o comum por meio da participação, da inclusão de vozes e do diálogo. Envolve também a promoção de acordos de colaboração entre diferentes, focando no que nos une e não no que nos separa. Precisamos desenvolver novas formas de pensar e agir diante dessa realidade cada vez mais complexa, incerta e em constante transformação. Ao mesmo tempo, precisamos reaprender a sentir e aceitar, tolerar e incluir, desconstruindo narrativas dominantes, certezas arraigadas, acessando emoções adormecidas.”

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