Brasil foi o pior colocado na América Latina segundo World Giving Index

A compreensão da importância e envolvimento da sociedade em processos de fortalecimento de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que criam e administram projetos sociais e políticos são fundamentais para uma participação mais ativa e cidadã, além da construção de uma sociedade mais justa e democraticamente saudável.

Essa participação pode ser feita e manifestada de inúmeras formas e o conjunto delas mostra o quanto um país está envolvido com seu próprio desenvolvimento. Anualmente, a Charities Aid Foundation (CAF), organização do Reino Unido, lança o “CAF World Giving Index” (WGI), que mede o grau de solidariedade de nações ao redor do mundo.

Neste ano, a pesquisa ouviu mais de 150 mil pessoas de 146 países para construir o panorama. Sob a crença de que existe um leque de possibilidades para fazer doação, o levantamento busca a perspectiva dos entrevistados em três comportamentos do doador: 1. Ajudou um estranho ou alguém que você não conhecia que precisava de ajuda?; 2. Doou dinheiro a uma organização?; e 3. Doou seu tempo, ou seja, fez trabalho voluntário em alguma organização?

Dessa forma, o ranking é construído a partir de uma média simples das respostas às três perguntas-chave. Cada país recebe uma porcentagem que determinará sua posição na lista.

Panorama global

O primeiro lugar do ranking sempre recebe muita atenção e nas últimas quatro edições, a vaga foi ocupada por Myanmar. Entretanto, 2018 trouxe um novo país para o topo da solidariedade: a Indonésia. A curiosidade do fato é que seus índices nas três respostas não tiveram grandes mudanças se comparados ao ano passado, quando o país conquistou o segundo lugar.

Andrea Wolffenbüttel, diretora de comunicação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), organização que representa a CAF no Brasil, ressalta a ascensão de países asiáticos no ranking e o efeito que crises econômicas e decisões políticas tiveram na queda de alguns países.

“O World Giving Index começou em 2009. Nessa época, países como Estados Unidos e Inglaterra ocupavam as posições mais altas. Posteriormente, alguns países orientais e de cultura muçulmana começaram a se elevar. [Na edição de 2018] temos a Indonésia em primeiro lugar, a Austrália em segundo e a Nova Zelândia em terceiro. Apesar das duas últimas serem de colonização britânica, fazem parte da mesma região geográfica. Essa concentração de comportamento solidário nesse canto do mundo é um fenômeno interessante. Acredito que essa é uma tendência em termos globais por conta das crises que Europa e América atravessaram recentemente.”

Outra descoberta que merece destaque é o fato de que a proporção de pessoas que doaram dinheiro em 2017, quando a pesquisa foi realizada, diminuiu pelo segundo ano consecutivo. Entretanto, o dado deve ser dividido em duas perspectivas: a prática de doar dinheiro aumentou em países desenvolvidos, enquanto em nações em desenvolvimento houve queda de um ponto percentual (de 25 para 24%).

Segundo Andrea, uma possibilidade para explicar esse fenômeno é o fato de que, em países desenvolvidos, as pessoas têm formações mais sólidas em termos educacionais, o que contribui para que tenham maior consciência de seu papel na sociedade. “À medida que você tem mais recursos, entende como funciona a sociedade e tem acesso a benefícios sociais, é natural que você compreenda melhor o papel de cada um [como cidadão].”

A questão sobre como o nível de desenvolvimento da nação interfere no seu nível de solidariedade também se manifesta na pergunta-chave sobre a ajuda a desconhecidos. Isso porque, segundo a diretora, é mais fácil verificar a atitude em um país em desenvolvimento do que em um lugar desenvolvido.

“Eu acredito que a noção dessa ajuda ao próximo acontece mais se as pessoas têm oportunidade de presenciar essas situações. Por exemplo, se você pensar em um país muito bem organizado e resolvido, a chance de ajudar um desconhecido é menor do que aqui no Brasil, onde a cada semáforo alguém pede ajuda. A chance de você se ver em uma situação em que ajuda um desconhecido é muito maior do que provavelmente alguém que mora na Suíça ou na Noruega”, defende a diretora.

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), afirma que em países desenvolvidos, as pessoas já têm uma cultura de ajudar as causas em que acreditam e de participar para ter uma sociedade mais justa.

O diretor acredita que em nações desenvolvidas, crises econômicas têm mais impacto do que aquelas em países em desenvolvimento. “Se eu sou de um país que não doa e estamos passando por uma crise econômica, isso não vai fazer muita diferença na doação. Mas os Estados Unidos, por exemplo, levaram nove anos para recuperar os níveis de doação do período anterior à crise econômica. Quando esses países saem de uma situação de crise, tem um efeito mais direto na doação. Nos países em desenvolvimento como o Brasil, temos um desafio anterior que é promover a importância de as pessoas doarem de forma estratégica e permanente, além de fazerem trabalho voluntário.”

Contexto brasileiro

O resultado do Brasil segue um padrão de queda desde 2016: enquanto em 2015 o país experienciou um pico, atingindo a 68ª posição, caiu para 75ª em 2016 e chegou a 122ª em 2017.

O resultado se explica pela queda nas três respostas: 43% dos entrevistados ajudou um desconhecido (contra 54% em 2016), 14% doou dinheiro (21% em 2016) e 13% fez trabalho voluntário (20% em 2016), totalizando uma média de 23%.

Apesar de a pesquisa não apresentar os motivos das oscilações de posição dos países, uma vez que os respondentes falam sobre seus comportamentos e não sobre o que os motivou a, por exemplo, doar ou não dinheiro, Andrea pontua algumas possibilidades para explicar a queda acentuada sofrida pelo país.

“Nós estamos atravessando uma crise econômica e financeira muito longa. Há um nível de desemprego alto, as pessoas estão com menos recursos. Além disso, há um temor, uma insegurança pelo que vai acontecer, então a tendência é você começar a pensar se vai ter condições de enfrentar o futuro e se preocupar menos com as outras pessoas. Um terceiro ponto é a sensação de impotência do brasileiro no sentido de que é como se patinássemos nos problemas sem conseguir resolvê-los. Isso tira um pouco a iniciativa da pessoa, dá uma sensação de que ‘não adianta o que eu vou fazer, não vai fazer diferença’. Na minha visão, tudo isso provavelmente impacta o desejo do brasileiro de participar da construção da sociedade civil solidariamente.”

Esse possível crescimento no individualismo frente a um futuro incerto pode ter sido um dos fatores que explicam a queda das respostas brasileiras nas três perguntas-chave. Na 122ª posição, o Brasil foi o pior colocado na América Latina, ficando atrás até mesmo da Venezuela, que alcançou o 107º lugar.

Andrea avalia o resultado com surpresa, já que mesmo em condições piores da que vive o Brasil atualmente, a população venezuelana demonstra níveis superiores de solidariedade. Segundo a diretora, trata-se de um cenário de retrocesso em termos de consciência do papel social de cada um.

Já João Paulo acredita que estabelecer uma relação entre a crise política e econômica com a queda no ranking é tarefa difícil, uma vez que na lista do ano passado a posição brasileira era melhor do que a atual mesmo com a crise já vigente na época.

“Eu que acompanho o ranking há alguns anos acho que algo que influencia a pesquisa é o momento que ela é realizada [durante um mês do ano]. Esse momento específico pode ter circunstâncias próprias daquele ano que influenciam positivamente ou negativamente. Pode ser um momento em que o Brasil tenha tido uma grande tragédia nacional e as pessoas, em razão disso, tenham feito grandes mobilizações e se solidarizado mais. E de fato é como nós avaliamos o ano seguinte ao desastre de Mariana.”

Segundo o diretor, a crise econômica como um todo, envolvendo os aspectos políticos e sociais, é um elemento importante que evita que a posição brasileira se consolide num patamar maior do que o atual, uma vez que interfere diretamente nas três práticas analisadas na pesquisa.

João Paulo analisa a disponibilidade de renda como um fator preponderante na realização de uma boa ação. Pessoas com menos renda disponível têm menos dinheiro para doar. Também há interferência no trabalho voluntário. Segundo o diretor, geralmente aqueles que se envolvem em trabalhos voluntários têm uma renda mínima garantida e conseguem alocar tempo para conciliar seus empregos com o trabalho voluntário.

Entretanto, ressalta a necessidade de investigar outros fatores que possam ter contribuído com o cenário. “Se usarmos só o desemprego e a falta de renda, por que estamos atrás da Venezuela se seus indicadores econômicos são muito piores do que os brasileiros?”

Cultura de doação no Brasil

Em 2018, os países participantes do World Giving Index atingiram o menor nível de doação em dinheiro desde 2013. Em razão dessa redução da proporção de doações, Andrea evidencia a necessidade de processos de reflexão sobre o assunto, procurando possíveis causas para esse cenário. “Eu acredito que nós temos que começar a pensar o que estamos comunicando errado ou por que países e pessoas estão deixando de entender qual é o papel do terceiro setor e da sociedade civil organizada. Se isso é um valor que está se perdendo, então acho que essa é uma reflexão globalmente necessária.”

Segundo a Pesquisa Doação Brasil, realizada pelo IDIS, pessoas físicas destinaram R$ 13,7 bilhões a organizações da sociedade civil em 2015. Apesar de 71% dos entrevistados concordarem que as OSCs dependem da colaboração de pessoas e empresas para obterem recursos e funcionar, pouco menos da metade (47%) dos respondentes percebe que a ação das organizações leva benefícios a quem realmente precisa.

Nesse sentido, o relatório aponta a necessidade de quebrar a barreira da desconfiança dos brasileiros com relação às instituições recebedoras do recurso ou aos próprios beneficiados, já que 40% dos respondentes não têm confiança no que os recebedores vão fazer com o dinheiro da doação.

Além disso, frente ao dado que revela de que 84% concorda que as pessoas não devem expor que fazem doação, é possível afirmar que essa é uma mentalidade que ‘trava’ a criação de uma verdadeira cultura de doação no país. Por isso, a pesquisa ressalta a necessidade de transformar o “doador oculto” em um agente multiplicador da cultura de doação.

Uma oportunidade para isso é o Dia de Doar. A ação foi criada nos Estados Unidos em 2012 e é realizada depois de datas como Black Friday e Cyber Monday. O Brasil, que participa da iniciativa desde 2013, este ano realizará o Dia de Doar em 27 de novembro.

À frente da ABCR, uma das organizações que constroem a campanha no Brasil, João Paulo argumenta que a ideia é que sociedade se mobilize para financiar as causas que defende e que o apoio vá além das redes sociais e se efetive com a doação para as organizações, tornando essa uma prática recorrente.

“Eu acredito que nós estamos tentando descobrir qual é o nosso caminho, do Brasil e dos países em desenvolvimento, para promover uma sociedade mais generosa e que entenda a importância de financiar as causas em que acredita, sem querer importar fórmulas já existentes dos Estados Unidos e da Europa. Vários países da América do Sul, da África e Ásia estão criando iniciativas que não existiam há cinco ou dez anos para promover a cultura de doação. Só que o impacto disso não se dá em um ano, ele é quase geracional.”

ISP e uma sociedade civil mais forte

A tomada de consciência sobre a importância de ter uma sociedade mais solidária e doadora também é papel do investimento social privado (ISP).

O Censo GIFE aponta que, do montante de R$ 2,9 bilhões investidos por 116 institutos, fundações e empresas associadas ao GIFE em 2016, 60% foi em programas e ações próprias e apenas 21% em doações e patrocínios de iniciativas de terceiros, o que equivale a R$ 595 milhões, 33% menos que em 2014.

Esses dados embasam a argumentação de João Paulo. “O investimento social privado é estratégico para promover a cultura de doação porque ele parte do pressuposto que o investidor já tem essa percepção de investir na sociedade. O que talvez ele não faça é utilizar os recursos para alavancar a cultura de doação.”

O diretor defende que, se investidores sociais de fato se tornarem mais conscientes sobre esse cenário, talvez possam direcionar parte do investimento para alavancar a solidariedade para com causas e a doação brasileira como um todo. “Se existe alguma parte da sociedade que tem capacidade de influenciar diretamente a cultura de doação é o investimento social privado.”

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