Conversas redeGIFE | Diversidade, educação, direitos, saúde mental e mais

O ano de 2021 foi marcado pela conclusão da 11ª edição do Congresso GIFE. Durante nove meses, o principal evento do investimento social privado (ISP) no Brasil – realizado bienalmente desde o ano 2000 – reuniu lideranças e profissionais do setor, dirigentes de organizações da sociedade civil (OSCs), acadêmicos, consultores e representantes do poder público para um amplo debate sobre as práticas do campo na direção de fortalecer a ação cidadã e a produção de bem público no país.

Esse acúmulo de ideias e reflexões foi complementado por entrevistas que realizamos ao longo do ano, ouvindo especialistas de diversas áreas, a fim de promover a troca de experiências e conhecimentos sobre os principais temas da agenda pública brasileira, além dos desafios impostos pela pandemia de Covid-19.

A seguir, confira os destaques e acesse as conversas na íntegra.

Boa leitura!

Março | Mulheres na Ciência

No Dia Internacional da Mulher, o redeGIFE publicou uma entrevista exclusiva com Jaqueline Goes de Jesus, uma das pesquisadoras que liderou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do vírus SARS-CoV-2 apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil. Doutora em Patologia Humana, a biomédica falou sobre a necessidade de valorização da pesquisa em instituições de ensino superior no Brasil e a importância de proporcionar condições para que mais meninas sigam carreira nas Ciências.

“Os nossos nomes acabaram ficando mais conhecidos, mas ter uma equipe de mulheres trabalhando em um projeto de relevância tão grande mostrou que as mulheres podem, sim, trazer inovação, resultados importantes e significativos e uma representatividade que ainda não temos em grande escala.”

“Acredito que a grande mudança vai acontecer quando tivermos governantes que pensem a Ciência como um investimento e não como gasto, já que são os recursos públicos que, de fato, nos trazem possibilidades, estrutura e financiamento para a realização de projetos.”

Leia a entrevista na íntegra.

Maio | O futuro da Educação Básica brasileira

Em maio, conversamos com Olavo Nogueira Filho, diretor executivo do Todos Pela Educação, para debater o futuro da Educação Básica brasileira, a partir da análise de políticas e instrumentos como Lei Orçamentária Anual (LOA), Plano Nacional de Educação (PNE), Novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Na ocasião, o especialista apontou oportunidades em termos de agendas e modos de atuação que podem ser vislumbradas como prioritárias para a atuação de institutos e fundações nos próximos anos.

“Se a pandemia veio para chacoalhar as estruturas do sistema escolar brasileiro – deflagrando suas fragilidades históricas e atuando como uma alavanca de pressão por mudanças -, isso pode ser um possível ‘legado’ – entre aspas mesmo, pois é preciso cautela ao usar esse termo diante de uma tragédia sanitária como a atual. Afinal, ninguém pode estar satisfeito com um cenário em que, pré-pandemia, quase metade das crianças com oito anos de idade ainda não estava alfabetizada e menos de 10% dos que concluíam o Ensino Médio aprendiam o que deveriam ter aprendido. Sob a certeza de continuar minando o futuro de milhões de crianças, adolescentes e jovens, concentrar esforços para ‘apenas’ voltar ao cenário educacional pré-pandemia não pode ser a aspiração.”

“Houve um enorme amadurecimento do campo fundacional na última década, tanto no sentido de se convencer de que a transformação em escala só ocorrerá por meio da política pública, mas também de que os esforços se tornam muito mais efetivos quando o setor se articula entre si e une esforços em prol de uma agenda comum.”

Confira a entrevista na íntegra.

Agosto | Retrocessos e violações de direitos

Em agosto, entrevistamos Alessandra Nilo, coordenadora geral da Gestos Soropositividade Comunicação e Gênero e co-facilitadora do GT Agenda 2030, para repercutir os achados da quinta edição do Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030 no Brasil. A publicação monitora a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) no país. Na análise da coordenadora, além de mostrar uma situação ruim antes mesmo da pandemia, a nova edição dá destaque ao contexto extremamente desfavorável ao desenvolvimento sustentável.

“Em muitas áreas, retrocedemos a ponto de perder décadas de investimentos e precisaremos reconstruir muito do que foi destruído em termos de políticas sociais, ambientais e econômicas. Por isso, é necessário convocarmos todos os poderes à responsabilidade de implementar a Agenda 2030, assim como de seguir investindo na territorialização e localização dos ODS por todo o país, o que só poderá ser alcançado com diálogo, bom senso e parcerias, pois as pessoas, governos, empresas, sociedade civil organizada e academia também estão sendo chamados a contribuir com a construção do nosso futuro.”

“Para haver um maior envolvimento por parte de institutos e fundações empresariais para implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil seria fundamental a retomada da Comissão Nacional dos ODS, extinta em 2019. A Comissão era um colegiado paritário, de natureza consultiva, criado justamente para articular, mobilizar e estimular o diálogo entre os entes federativos, o setor privado e a sociedade civil. A produção dos Relatórios Nacionais Voluntários, interrompida em 2017, e o alinhamento dos instrumentos de gestão federais, como o Plano Plurianual (PPA), aos ODS também seriam sinalizações positivas, assim como a priorização de investimentos em negócios, indústrias e projetos alinhados aos objetivos, com resultados e prestação de contas transparentes e com envolvimento real da sociedade civil nas etapas de criação e desenvolvimento desses negócios.”

Acesse a entrevista na íntegra.

Agosto | Equidade racial no mercado de trabalho

Ainda em agosto,  o redeGIFE se dedicou à produção de uma série de conteúdos voltados ao Mês da Filantropia Negra. O evento teve origem nos Estados Unidos e, este ano, pela primeira vez, contou com a copromoção do GIFE no Brasil, em conjunto com sua Rede Temática de Equidade Racial. Nesse contexto, conversamos com Daniel Teixeira, diretor executivo do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), para refletir sobre a desigualdade racial no mercado de trabalho.

“Há muitos anos, várias pesquisas vêm apontando que, em geral, as pessoas reconhecem o racismo presente na sociedade brasileira, mas não se consideram racistas. O que significaria um país com racismo sem racistas, e isso demonstra que o racismo ainda é um tabu. Para que as pessoas possam falar sobre a presença do racismo nas relações objetivas e sociais e também dentro de instituições, são necessárias ações de conscientização, ainda mais agora que o tema passou a ser mais discutido. Temos um momento importante para que as ações de conscientização sejam sistemáticas, especialmente nas instituições.”

“Estudos e diagnósticos institucionais mostram que os cargos de liderança, historicamente, não são ocupados por pessoas negras. Ainda hoje, essa é uma preocupação de instituições que trabalham com equidade racial: promover uma atuação estratégica nesses espaços de liderança já que, mais do que tudo, são a cara da instituição. Liderar é caminhar na frente, é aquilo que mostra seus posicionamentos estratégicos, são as pessoas da linha de frente de uma instituição e que, portanto, lhe dão rosto e, em geral, esse rosto não é negro nas médias e altas lideranças de quase a totalidade das instituições.”

Leia a entrevista na íntegra.

Agosto | A importância do movimento negro para o combate ao racismo

Ainda durante o Mês da Filantropia Negra, conversamos com Douglas Belchior, professor de História, cofundador da Uneafro Brasil e integrante da Coalizão Negra por Direitos. O ativista falou sobre o protagonismo de organizações do movimento negro que há décadas lutam pela garantia de direitos e denunciam o racismo praticado diariamente na sociedade brasileira.

“O Brasil se construiu historicamente assentado no racismo, em um sistema de dominação racial de dimensões políticas, culturais, econômicas e religiosas. O Brasil não existe sem racismo. Falar que o racismo é estruturante é uma redundância porque é óbvio que ele é, visto que é o pressuposto da organização da sociedade brasileira. Ele organiza a vida e a morte. O que sempre houve foi um esforço das elites brasileiras, econômicas e intelectuais em camuflar esse racismo e dar outras explicações para os problemas sociais e as desigualdades que não o próprio racismo. Em momentos de agudização de necessidades, de precariedade e desigualdades, [o racismo] fica mais explícito. Isso só acontece por uma imposição política da formulação do movimento negro. Não fossem as formulações políticas e se o próprio movimento não tivesse trazido o debate ainda antes da pandemia, a crise não seria um momento de maior explicitação do racismo.”

“A sociedade civil organizada brasileira precisa apoiar o fortalecimento, a estruturação e a construção autônoma e independente do movimento negro organizado. Existem partidos dirigidos por brancos, formas de fazer política tradicionalmente brancas, organizações do terceiro setor ricas, fundações e grupos de direitos humanos brancos. É muito importante que essas instituições sejam fortes, estruturadas, tenham suas sedes nas capitais brasileiras, seus recursos, condições de empregabilidade e de trabalho. Mas qual é a organização negra brasileira que tem essas condições? O grande desafio que temos hoje é fortalecer articulações e instituições negras para que elas possam existir de maneira autônoma e independente como as organizações brancas e para que também tenham uma sede no centro das capitais brasileiras.”

Leia a entrevista na íntegra.

Agosto | Saúde mental e trabalho

Às vésperas do Setembro Amarelo, que promove a prevenção ao suicídio, ouvimos Maria Fernanda Quartiero, investidora social e diretora presidente do Instituto Cactus, organização que trabalha para a prevenção e a promoção da saúde mental no Brasil.

“É inegável que as medidas de isolamento social intensificaram o processo de adoecimento da população, mas estamos arcando com as consequências de anos de desatenção nesse campo. O debate público sobre saúde mental pode até ser atual, mas os dados alarmantes sobre sofrimentos psíquicos não são.”

“Para enfrentar essa questão, agora emergencial, precisamos reconhecer que esse é um problema de saúde pública que atravessa diversas esferas da vida de um indivíduo, como a educação, a empregabilidade e o meio ambiente. Devemos aproveitar a atenção e luz que o tema recebeu e ter um olhar mais sustentável e estrutural para institucionalizar o debate sobre saúde mental no Brasil em todos os setores sociais.”

Confira a entrevista na íntegra.

Novembro | É preciso descolonizar processos de monitoramento e avaliação

No mês da Consciência Negra, conversamos com Lívia Guimarães, pesquisadora da Pacto – Organizações Regenerativas. Mestra e doutoranda em Ciências Humanas e Sociais, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Controle Social, Memórias e Resistências, da Universidade Federal do ABC (UFABC), e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).  A especialista abordou a importância e os desafios para a inclusão racial como categoria analítica de processos de monitoramento e avaliação (M&A).

“Para que a raça, marcador estruturante da sociedade brasileira, seja também tomada como estruturante para o campo de M&A, é fundamental que os atuais mecanismos teóricos, técnicos e práticos hegemônicos sejam revistos, reformulados e adequados ao contexto brasileiro. Com isso, quero dizer que eles precisam, antes de mais nada, ser enegrecidos e decolonializados. Creio ser urgente desfazer a trama tecida em torno do ecossistema de M&A, que projeta a produção branca anglo-saxã e europeia como a única possível em detrimento de outras formas de conhecimento.”

“Evocar as vozes do público diretamente atendido pelos programas, projetos e outras iniciativas significa reconhecer essas pessoas como protagonistas e sujeitas de direito. Busca-se, com isso, eliminar estigmas que muitos grupos carregam quando são reconhecidos apenas como ‘beneficiários’. As percepções dos envolvidos podem ser entendidas como aportes importantes para aprimoramento ou inovação dos processos avaliativos. Esse movimento gera um ganho para todo o cenário brasileiro de avaliação.”

Leia a entrevista completa.

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