Debates e experiências centradas no uso de Inteligência Artificial e Realidade Virtual já são realidade no setor da filantropia e do investimento social

No mundo todo, pessoas interagem com mecanismos e dispositivos que simulam a capacidade do ser humano. Esse campo de estudos, que recebe o nome de Inteligência Artificial (IA), já é uma realidade em diversos setores.

De assistentes virtuais a algoritmos de publicidade, algumas empresas têm incorporado a ferramenta em seus planejamentos e processos. No setor público, a emergência na área da saúde pública global tem ampliado o debate em torno da necessidade de uma vigilância generalizada e de como o volume ainda maior de dados coletados exigirá um uso mais eficiente da IA no fornecimento de serviços públicos.

Mas, se essa discussão é ainda um desafio para a maior parte das empresas, algumas com o maior volume de recursos do mundo, que têm batalhado para se tornarem orientadas por dados, em que pé estão as organizações do campo sem fins lucrativos no tema?

Tal discussão começa a permear os espaços do investimento social privado e da filantropia, por exemplo. Nos Estados Unidos, um estudo recente financiado pela fundação estadunidense Bill & Melinda Gates explora os usos atuais e potenciais da IA ​​no setor sem fins lucrativos, desde o aumento das operações de arrecadação de fundos até uma melhor compreensão do que motiva os doadores a apoiar uma organização. O relatório apresenta uma série de oportunidades, bem como um conjunto de desafios que precisa ser enfrentado para que o tema ganhe maior adesão entre os diversos atores que compõem o setor.

O estudo reforça que o que distingue a IA de outras tecnologias são três aspectos: inteligência, aprendizado e adaptabilidade. Um de seus recursos, o aprendizado de máquina, envolve o uso de algoritmos de computador para processar e compreender grandes volumes de dados e, assim, identificar padrões e fazer previsões.

O documento descreve várias maneiras pelas quais algumas organizações sem fins lucrativos do país têm empregado IA em suas operações para melhorar a eficiência e, em particular, se envolver de forma mais eficaz com os doadores, que incluem: mecanismos de correspondência e personalização de doadores, aconselhamento filantrópico, modelos de previsão de doadores e fluxo de trabalho de gerenciamento automatizado, campanhas de arrecadação de fundos online, pesquisa de doadores e cooperativas de dados, ferramentas de relatórios e fluxo de trabalho, entre outras.

Experimentos brasileiros: Realidade Virtual

Se nos Estados Unidos, o debate já alcança a dimensão relacionada à cultura de doação daquele país, no Brasil, algumas experiências têm se dado em diálogo com a perspectiva das narrativas de impacto.

A produtora audiovisual Maria Farinha Filmes, parceira recorrente em projetos do setor do investimento social privado, inaugurou uma unidade para trabalhar com o recurso da Realidade Virtual (RV), tecnologia que permite substituir a realidade do usuário por outra, gerada por um dispositivo.

A JungleBee, assim como a Maria Farinha e também a distribuidora cultural Flow, faz parte do AlanaLab, núcleo de negócios do Alana – organização que atua no tema da infância -, que investe em empresas e iniciativas de comunicação de impacto.

Tadeu Jungle, sócio-fundador da JungleBee, explica que a Realidade Virtual é uma plataforma audiovisual imersiva que coloca o espectador dentro da cena ou situação filmada. “Chris Milk, cineasta pioneiro no uso dessa ferramenta com o clássico Clouds Over Sidra, relata que ‘a Realidade Virtual é a maior máquina de empatia jamais inventada’. Esse filme foi exibido no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em 2015, e arrecadou US$ 3,8 bilhões para a causa dos refugiados sírios, 70% a mais do que o esperado”, conta.

Na análise do especialista, a adoção da ferramenta permitiu um avanço do recurso do Storytelling para o Storyliving. “Mais do que assistir, o espectador pode ‘estar’ e ‘sentir’ a cena. Além de levar o espectador para dentro do filme, a RV amplia a concentração e o foco na mensagem, uma vez que esse espectador, usando óculos apropriados para assistir ao filme, fica totalmente imerso na narrativa. Acreditamos que isso pode levar a mais empatia e compaixão, além de despertar mais interesse, potencializando a geração de sentimentos e emoções e criando, assim, novos significados”, observa.

Tadeu explica, no entanto, que o recurso não tira o potencial e o valor das narrativas convencionais, tampouco deve ser adotado em qualquer situação. “A RV não é aconselhável em todos os casos. Cada projeto deve ser avaliado a partir de seus objetivos, o que compreende a necessidade de impacto e sua escala de distribuição”, explica.

Desafios e aprendizados

Esse know-how permitiu à JungleBee identificar alguns desafios. Por exemplo, filmar em Realidade Virtual exige o aprendizado de uma nova narrativa. Além disso, o custo de produção de um documentário em RV é similar ao da produção de um documentário tradicional, porém, seu uso deve ser pensado em escalas menores do que um filme tradicional, que pode ser distribuído pelas redes sociais.

“Não que um filme em RV não possa ser distribuído assim. É possível reproduzir na tela do computador ou celular, mas, nesse caso, o espectador não terá a experiência da imersão”, explica o especialista, tomando como exemplo o filme Fogo na Floresta, produzido em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Tadeu conta que desde seu lançamento, há três anos, o filme tem sido utilizado em vários eventos presenciais do Instituto (como no Rock in Rio, onde uma tenda foi construída para a exibição do filme com os óculos apropriados), assim como está disponível no YouTube para uma exibição em maior escala (já tendo alcançado mais de 220 mil pessoas). “O sucesso foi tanto que em breve vamos lançar o Fazedores de Floresta, também em RV”, conta.

RV para educar

Outra possibilidade de uso da RV está no treinamento de colaboradores por meio de processos interativos que podem substituir os tradicionais powerpoint (PPT).

Um dos projetos em andamento na JungleBee está dentro dessa perspectiva. O filme Bem-Vindes! conta a história de uma moça que chega para fazer uma entrevista de trabalho em uma empresa e é surpreendida pelas práticas inclusivas da instituição. A ideia é possibilitar a inserção do debate sobre diversidade e inclusão no ambiente empresarial.

“A ideia é exibir o filme para colaboradores dentro das empresas em salas de reunião normais, para 10 a 20 pessoas. Porém, com o auxílio de um monitor ou monitora, o filme poderá ser exibido para até 400 pessoas em um só dia com os óculos de RV. É um projeto promissor pela inovação da proposta para os tradicionais treinamentos e pelo uso do entretenimento voltado à educação”, observa.

Aliás, Tadeu avalia que, no campo da educação, a RV terá um papel importante em um futuro próximo. “Possibilitar que crianças ‘vivam e sintam’ novos mundos, pessoas e culturas pode ser a chave para romper com preconceitos de toda sorte, além de permitir uma vivência científica nunca antes vista.”

Devido ao alto custo de implantação, o especialista vislumbra dois caminhos: por meio da criação de salas de RV ou por intermédio dos próprios professores.

“O potencial da tecnologia da RV para o campo da educação e da comunicação é incomensurável e pode abrir fronteiras para novas formas de aprendizado, diminuindo as  distâncias e as diferenças. Aliada à Inteligência Artificial e alavancada pela chegada do 5G, a RV deve tornar o mundo um local mais acessível e amigável”, conclui.

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