Global Philanthropy Forum reúne lideranças do mundo para debater sobre o papel dos indivíduos nas transformações sociais

Mais uma vez, institutos e fundações do país marcaram presença no Global Philanthropy Forum (GPF), neste ano realizado de 2 a 4 de maio de 2018, em Redwood City, Califórnia (EUA), conferência que reúne líderes de vários setores do mundo anualmente.

A delegação brasileira – a convite do IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social Privado) – contou com a participação de representantes do GIFE, Fundação Roberto Marinho, Fundação José Luiz Egydio Setubal, Fundação Lemann e Porticus.

Nesta edição, o tema central foi “Sem espectadores”. A proposta foi discutir de que forma todos os cidadãos pode fazer a diferença e da escolha que devem fazer em ser atores, e não apenas espectadores. Para isso, se faz importante o capital social e a cidadania dos cidadãos, a partir da inovação e da ação conjunta.

O objetivo foi debater de que forma é possível, hoje, administrar os desafios colocados, se o fizermos juntos. E diante desse movimento, o papel essencial de líderes, que criam soluções comunitárias, estabelecem coalizões globais e constroem capital social no processo, buscando ver novos caminhos para resolver conflitos, diminuir a fome, superar doenças e a má governança e tantas outras violências e indignidades.

O GPF de 2018 focou as discussões, assim, sobre dois pontos fundamentais: na juventude – os desafios que enfrentam e as soluções que oferecem. Por um lado, muitos jovens sofrem com perseguição, guerra ou simplesmente experimentam indignidades diárias. Por outro lado, demonstram a imaginação para inventar, a tenacidade para resolver, acreditam no futuro e têm a determinação de torná-lo mais brilhante.

E, segundo, na tecnologia – inteligência artificial e aprendizado de máquina, sensoriamento remoto, edição de genes etc. – destacando que são ferramentas que podem ampliar nossa capacidade para o bem, desde que aplicadas em um propósito ético, sendo importante informar as normas para seu uso.

Sociedade civil em destaque

O primeiro dia do evento contou com a abertura de Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas e fundador da Fundação Kofi Annan, que descreveu as atuais divisões e a falta de confiança no mundo. Esta tendência é importante para a fundação, uma vez que se concentra na preservação das democracias liberais e na defesa da integridade eleitoral.

Annan falou sobre a importância do papel da sociedade civil na democracia. Relembrando sua atuação na garantia da paz nas transferências de poder pós-eleição em países africanos, quando estava à frente da ONU, disse que governos muitas vezes desconfiam da sociedade civil, questionando qual sua agenda, quem está por trás etc. Ele enfatizou a necessidade de se apoiar as organizações da sociedade civil, que desempenham um papel fundamental na democracia e a necessidade de colaboração; os problemas podem ser resolvidos de maneira mais eficaz quando os governos, a sociedade civil e o setor privado trabalham juntos, disse ele.

Em seguida, várias lideranças em seus países tiveram a oportunidade de compartilhar suas experiências e contar casos inspiradores de jovens que têm conseguido desenvolver mudanças significativas diante dos desafios profundos que enfrentam. Omar al-Tal, gerente de programa da Mercy Corps Jordan, por exemplo, disse que “como gerente de programas, vejo que precisamos encorajar os beneficiários a não ser espectadores, pois eles sabem do que precisam” ao relatar um caso de refugiados sírios, em linha com a fala do Annan.

Omar relatou também o caso de Muzoon Almellehan, uma jovem síria que se tornou embaixadora da Unicef ano passado, e luta pela educação. Ele entende que estes jovens sabem a importância do que é paz e justiça, pois vivenciaram o que é não ter isso. Por isso, em sua visão, as lideranças precisam agir como facilitadores destes jovens, a fim de que possam ter papéis protagonistas das transformações sociais necessárias do mundo.

Outro exemplo foi trazido por La June Montgomery Tabron, CEO da Kellogg Foundation, que falou com muito entusiasmo sobre a criação do fundo de US$ 10 milhões para equidade racial e empoderamento de mulheres negras do Fundo Baobá, que começa a atuar no Brasil e conta com recursos também da Kellog.

Ainda no primeiro dia, Paula Fabiani, diretora-presidente do IDIS, participou de uma mesa de debate na qual panelistas trouxeram tendências da filantropia na África, Ásia e Brasil. Especialmente sobre o Brasil, Paula falou sobre a importância da agenda de promover a cultura de doação para fortalecer a sociedade civil, a melhoria do ambiente regulatório para doações e a tendência da avaliação de impacto. Ao abordar a questão da juventude e da tecnologia, sinalizou que é necessário se falar sobre os impactos negativos e não apenas positivos da tecnologia, que no futuro podem provocar exclusão digital e do mercado de trabalho.

Além disso, sinalizou a importância de se investir na infraestrutura do setor, quando a filantropia no Brasil em geral prioriza diversas causas específicas. “Criar etapas e metas intermediárias, com resultados concretos, pode ser uma maneira de influenciar e trazer mais organizações a apoiar o investimento em melhorias para o ambiente para a filantropia”, acredita.

Novos olhares

Já no segundo dia, os palestrantes mergulharam nos detalhes de estratégias eficazes para mudanças globais, destacando o quanto é fundamental entender as questões a partir das perspectivas daqueles que experimentam injustiças e amplificar suas vozes.

Na seção “Construindo um ecossistema: quando a generosidade encontra a estratégia”, por exemplo, Kim Starkey Jonker, presidente e CEO da King Philanthropies, sentou-se com Valerie Dabady, gerente da Mobilização e Parcerias do Departamento de Recursos do Banco Africano de Desenvolvimento e Dikembe Mutombo, presidente da Fundação Dikembe Mutombo, para discutir como filantropos podem efetivamente identificar ou construir organizações com estratégias fortes e direcionadas.

Kim iniciou o debate levantando fatores importantes para gerar impacto: 1) ter foco estratégico, e não ter estratégias tão diversas; 2) aproveitar as competências individuais; e 3) analisar as demandas: há causas que não estão sendo olhadas? E, por fim, a organização não deve fazer tudo sozinha, é preciso atuar no ecossistema.

Valerie destacou o papel da tecnologia neste processo, lembrando que, muitas vezes, com o mínimo de informações e com tecnologia simples é possível alcançar grande impacto. E Dibemke destacou a importância de se trabalhar em time, tendo em vista que ninguém alcança nada sozinho. Com base nisso, Dabady destacou que saber com quem trabalhar e fazer as parcerias certas para sua organização é fundamental.

Ainda no segundo dia do evento, a delegação brasileira acompanhou uma discussão sobre o papel da juventude. A moderadora Sharna Goldseker, diretora executiva da 21/64, abriu a sessão observando que vivenciamos hoje uma desigualdade enorme. Ao mesmo tempo, os milleniums e a geração-X são as gerações mais doadoras de toda a história.

Diante desse cenário, as duas jovens palestrantes contaram suas trajetórias pessoais à frente de instituições filantrópicas, como grandes doadoras. Caitlin Heinsing, da Heising-Simons Fundation, destacou a importância de reconhecer sua origem, aquilo que já foi construído, e não ficar cegamente em busca do novo, da disrupção. Acredita que é preciso valorizar a construção de parcerias relevantes e recomendou que as organizações contem com conselheiros para além do núcleo familiar mais próximo.

Já Sara Ojjeh, da Ethos Philantropies, destacou alguns aspectos importantes para sua geração, como a possibilidade da experiência real, de vivenciar os projetos de perto, em campo, com a mão na massa. Relatou, por exemplo, uma experiência muito positiva de estar presente em uma ocasião em um projeto apoiado, sem que soubessem que era a financiadora. A experiência foi mais natural e não criou um trabalho e uma preparação extra aos apoiados para recebê-la. Ela conheceu o projeto de perto, como parte da equipe.

Sobre legado, Sara afirmou que quer que daqui a 20 anos seus filhos possam fazer suas escolhas, sejam elas na continuidade da fundação familiar ou não; não quer que eles tenham o peso e a pressão de seguir o legado. Acha importante que a conversa na família seja introduzida aos poucos e com antecedência, de modo que os jovens não sejam surpreendidos.

Durante o GFP, um dos temas também de destaque foi o papel da filantropia em relação aos direitos humanos, tendo em vista que a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa, em 2018, 70 anos da sua promulgação.

Oren Yakobovich, cofundador e CEO da Videre est Credere, chamou a atenção que há muito pouco investimento nestes temas, que são as bases da sociedade e também questionou o porquê a filantropia não atua na prevenção. “Não se deve deixar as questões de direitos humanos somente para os especialistas”, disse Nancy McGuire Choi, COO da Polaris.

Para Matthew Smith, co-fundador e CEO da Fortify Rights, é preciso haver mais investimento na produção audiovisual sobre o tema, investindo diretamente nas comunidades para que elas possam documentar suas realidades. E, Greg Asbed, co-fundador do Fair Food Program, destacou a importância da continuidade das ações de filantropia, com investimentos nos mesmos projetos por um longo período, para que mais pessoas sejam beneficiadas pelas iniciativas.

Por fim, no último dia do evento, Michelle Nunn, CEO da Care USA, uma das maiores organizações internacionais, afirmou ser importante aprender com a mentalidade das empresas startups. No caso da Care, um projeto que pode ser escalável e com grande capacidade de gerar mudança é testado e multiplicado. Lembrou que ainda hoje é preciso buscar novas maneiras de operar como complemento às ações das organizações da sociedade civil, como estabelecer investimento de impacto, empreendedorismo social etc.

Durante uma roda de conversa sobre impacto e escala, os painelistas foram unanimes sobre o quão fundamental é estabelecer boas parcerias para alcançar escala. Rebecca Onie, cofundadora da Health Leads, ressaltou a importância de não se prender a um modelo específico, prefere tratar como “abordagem”, e que os parceiros e financiadores devem estar interessados na discussão, e terem a agilidade e flexibilidade para seguir quando surgir uma oportunidade que não pode ser perdida.

Já na mesa de debate sobre tecnologia e transformação social, Eileen Donahoe, diretor executivo da Global Digital Policy Incubator, da Universidade de Stanford, ressaltou que fomos ingênuos com o advento das tecnologias digitais, apostando apenas nos avanços que proporcionariam, mas não nas ameaças, como manipulação de dados que polarizam a sociedade, entre outros aspectos.

Lembrou que a liberdade de expressão é uma das bases da democracia, mas que está sendo justificada contra a própria democracia. Contra isso, acredita que as plataformas digitais devem ter accountability em relação aos usuários e a sociedade, que devemos repensar a categorização das plataformas digitais: qual seu papel? Qual sua responsabilidade sobre os conteúdos?

Para Tristan Harris, cofundador do Center for Humane Technology e tendo trabalhado no Google como design ethicist, problematizou que poucas pessoas estão decidindo sobre o que e como todas as outras vão pensar. O especialista lembrou que os engenheiros nas empresas de tecnologia não tem contato com as comunidades, mas as afetam profundamente e, por isso, as empresas precisam ser responsabilizadas.

“Se as pessoas sentem que estão sendo ouvidas pela mídia, elas acreditam na mídia. Daí a importância da inclusão. Precisamos trazer de volta as comunidades para a discussão, inclusive os jovens, que têm familiaridade com tecnologia”, finalizou Jennifer Cobb, diretora da United for News.

Aprendizados

Marisa Ohashi, gerente de Planejamento e Operações do GIFE, que esteve presente no fórum, destacou os diversos aprendizados da participação no evento.

“Foi importante ter contato com as discussões sobre a filantropia e iniciativas em outros países. Acho que foi marcante a discussão sobre as ameaças à democracia e o papel da filantropia neste sentido. Houve muitas discussões, por exemplo, sobre a tecnologia digital ao longo de todo o fórum, e seus efeitos negativos à sociedade, especialmente interessante num evento realizado no Vale do Silício. Trazer a juventude para o debate também foi um destaque. Nestes dois aspectos, pudemos perceber que são discussões atuais em todas as regiões, tendo sido abordadas recentemente no X Congresso GIFE”, disse.

Já Mônica Pinto, gerente de desenvolvimento institucional da Fundação Roberto Marinho e conselheira do GIFE, ressaltou a importância de se debater justamente o tema do fórum, que foi a questão de ser mais que espectadores.

“Acredito que é isso que move o mundo e, como brasileira, foi importante ouvir tantas pessoas de outras nações, com suas experiências de vida no enfrentamento das questões políticas, sociais e econômicas que inviabilizam direitos humanos e a qualidade de vida de bilhões de pessoas em nosso planeta. É perturbador, mas ao mesmo tempo fonte de esperança, ver tanta gente e instituições assumindo riscos e desenvolvendo projetos e tecnologias, para combater violências, fome, privação de direitos básicos, fakenews, analfabetismo etc. O mundo parece bem menor e bem mais parecido com o Brasil e suas mazelas. A grande questão que aflige a todos é: qual a medida, o melhor balanceamento entre a atuação sobre os problemas já existentes e sobre estratégias preventivas? Em que medida a filantropia deve atuar no atendimento ou na prevenção dos problemas que enfrentamos?”, questionou.

Sobre o uso da tecnologia nos processos políticos, sociais e no cotidiano das pessoas – uma das questões mais debatidas no encontro – Mônica ressaltou os vários exemplos de instituições que estão fazendo um trabalho relevante para combater a falta de informação, a publicização de informações falsas, os algoritmos que limitam as redes de contatos, a circulação de mensagens que promovem e ampliam o ódio e a oposição cega.

“Para enfrentar a mudança de paradigma trazida pelo mundo digital não podemos ter uma postura ingênua diante da tecnologia. Ecoam pelo mundo todo escândalos políticos e sociais, que nos desafiam a desenvolver mecanismos de comunicação e interação, que garantam a democracia. Esses mecanismos devem considerar e tirar proveito da escala e da agilidade digitais, tão bem utilizados pelos atores que a utilizam para disseminar o medo, o totalitarismo e as desigualdades. Sociedade civil, filantropos, líderes sociais, agências internacionais, institutos e fundações precisam dialogar com mais intensidade, para atuar de forma contundente e articulada, e pressionar governos por medidas de longo prazo, para além de seus mandatos”, acredita.

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