Desafios e perspectivas da Agenda 2030 no Brasil é tema de debate

Em 2018, o jornalista Roberto Kovalick recebeu o desafio de fazer uma série sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e mostrar como o Brasil está se organizando para cumprir as 17 metas estabelecidas no documento “Transformando o Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, em que os países signatários se comprometem a tomar medidas transformadoras para promover o desenvolvimento sustentável nos próximos 15 anos.

O grande desafio para produção das matérias era fazer com que, em cinco reportagens, o telespectador prestasse atenção, gostasse e criasse empatia pela pauta. “Como fazer isso interessante? Como fazer com que a pessoa perceba que aquilo tem a ver com a sua vida? É o mesmo desafio que o investimento social privado tem”, refletiu Kovalick, responsável por mediar a mesa “Desafios e perspectivas da Agenda 2030 no Brasil é tema de debate” durante o segundo dia de Jornada ISP.

Para o debate, foram convidados Ricardo Abramovay, sociólogo, economista e professor da FEA/USP; Carlo Pereira, secretário executivo da Rede Brasil do Pacto Global; e Luciana Trindade de Aguiar, assessora da Plataforma de Filantropia ODS no Brasil.

A importância de conscientizar e mobilizar tanto a sociedade civil quanto às empresas a respeito da Agenda 2030, foi reforçada durante o debate, assim como a necessidade de empresas adotarem uma postura de responsabilidade em toda sua cadeia produtiva até o consumidor final, assumindo o compromisso de construir um planeta com mais oportunidades, mais igualitário e preservando o meio ambiente. “Essa foi a grande mensagem da nossa série: fazer um planeta melhor para todos sem acabar com todos os recursos do nosso planeta. Vivemos em um sistema capitalista em que as empresas são os grandes atores”, completou Kovalick.

Carlo Pereira trouxe a experiência do Pacto Global, uma iniciativa lançada em 2000 e vinculada ao então secretário-executivo das Nações Unidas, Kofi Annan. O Pacto nasceu da necessidade de mobilizar a comunidade empresarial do mundo para a adoção de valores fundamentais e internacionalmente aceitos em suas práticas de negócios. As empresas estão trabalhando na Agenda 2030 não só pelas responsabilidades que têm mas também pela oportunidade de negócio que existe. Para se ter dimensão desse universo, se forem somadas as receitas das dez maiores empresas do mundo, o resultado é um valor maior do que os PIBs dos 180 países mais pobres. “Há 15 anos quando se falava em sustentabilidade, se falava de projeto. Hoje, se fala em negócio, se fala em desenvolvimento de portfólio. Hoje as empresas estão se reinventando, são modelos de negócio e estão pensando seu portfolio e pensando em sustentabilidade. Quem não pensou em mudança do clima há 10, 15 anos, hoje está contabilizando prejuízo”, disse Pereira.

Para Ricardo Abramovay, a longevidade, a saúde e a possibilidade desses investimentos se materializarem depende não só da boa vontade das pessoas, mas também da boa vontade dos empresários e do ambiente institucional em que essas empresas se situam. “O ambiente institucional que está sendo criado hoje no mundo é cada vez mais avesso à realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. As reviradas do processo político podem ameaçar valores, patrimônios e a própria Constituição”, disse durante o debate.

A partir do relatório de desenvolvimento humano bianual do PNUD, foram observadas algumas mudanças na questão da desigualdade na América Latina. Se antes o objetivo era incluir a população de menor renda e erradicar a pobreza, hoje, o desafio é criar resiliência nessa população para frear o retorno à pobreza. Foi o que aconteceu recentemente no Brasil e levou mais de 4.6 milhões de pessoas de volta à miserabilidade. Essa perspectiva do ponto de vista social, foi trazida por Luciana Trindade de Aguiar. “O desafio é criar políticas públicas e estratégias com investimento social privado e empresas de forma a ajudar essa população a permanecer onde estão, ascender e não retornar à pobreza. Não podemos retroceder nos ganhos sociais que tivemos nos últimos anos. Esse é um ponto de atenção”, disse Trindade.

Inspirado pelo filme “Ex-pajé”, de Luiz Bolognesi, Ricardo Abramovay deixa um alerta: “quem não valoriza cultura corre fortemente o risco, quando está no poder, de praticar etnocídio. As empresas têm a obrigação de impedir que o Brasil, que tem mais de 100 línguas indígenas, inúmeras comunidades e que deve se orgulhar por ter o maior patrimônio ambiental de biodiversidade do mundo, tenha seu patrimônio destinado à produção de soja e de carne”.

Sobre a Jornada ISP

“Investimento Social Privado, Sociedade e Desenvolvimento” foi o tema da “Jornada ISP”. Durante dois dias, investidores sociais e representantes do poder público, organismos internacionais e organizações da sociedade civil estiveram reunidos na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, para refletir sobre o papel do Investimento Social Privado (ISP) no fortalecimento da sociedade civil e na implementação da Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Realizado nos dias 29 e 30 de novembro, o evento foi uma iniciativa do projeto “Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil” (“Sustenta OSC”), do GIFE – Grupo de Institutos Fundações e Empresas, e da Plataforma Filantropia ODS Brasil, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

 

Notícias relacionadas

Plataforma de Filantropia ODS Brasil: uma estratégia para implementação da Agenda 2030

A busca pela otimização dos esforços para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável deu vida à Plataforma de Filantropia ODS Brasil. Lançada em abril de 2017, a iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) deseja ampliar a capilaridade e a utilização da Agenda 2030 como ferramenta de planejamento e direcionamento do Investimento Social Privado (ISP).

Apoio institucional