O aumento da desigualdade social no Brasil, segundo pesquisas

Desde o início da pandemia de Covid-19, um novo bilionário surgiu no mundo a cada 26 horas.  Os dez homens mais ricos do planeta dobraram suas fortunas, enquanto mais de 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza. Nesse período, estima-se que 17 milhões de pessoas morreram de Covid-19, uma escala de perda que não era vista desde a Segunda Guerra Mundial.

Esses dados compõem o relatório A Desigualdade Mata: a incomparável ação necessária para combater a desigualdade sem precedentes decorrente da Covid-19, lançado recentemente pela Oxfam. Na publicação, a professora da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, Jayati Ghosh, afirma que a crise sanitária atual mostrou que o acesso desigual a renda e a oportunidades faz mais do que criar sociedades injustas, insalubres e infelizes; na verdade, ele mata as pessoas.

O relatório apresenta dados que mostram a desigualdade sistêmica da sociedade:

– A fortuna de 252 homens é maior do que a riqueza combinada de todas as mulheres e meninas da África, América Latina e Caribe: 1 bilhão de pessoas;

– Desde 1995, o 1% mais rico acumulou quase 20 vezes mais riqueza global do que os 50% mais pobres da humanidade;

– 3,4 milhões de americanos negros estariam vivos hoje se sua expectativa de vida fosse a mesma dos brancos. Antes da Covid-19, esse número já era de 2,1 milhões.

Diversas faces de um problema

Para a Oxfam Brasil, são os números da violência, do feminicídio e das mortes evitáveis que evidenciam o quanto a desigualdade mata no país.

“No Brasil, se pegarmos apenas o contexto da pandemia, mais de 600 mil vidas foram perdidas em razão da desigualdade de acesso a saúde e a tratamento adequado, incluindo a desigualdade de acesso às vacinas e os impactos distintos da crise econômica que se aprofundou nos últimos dois anos e que escalou a fome no país, mas também intensificou a violência doméstica e de gênero”, contextualiza Maitê Gauto, gerente de programas, incidência e campanhas da Oxfam Brasil.

Maitê é enfática ao apontar que a resposta lenta e descoordenada do governo federal diante da crise da Covid também mata à medida em que as ações emergenciais de proteção social e da vida demoram a chegar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

A desigualdade brasileira não nasceu agora, mas foi escancarada em meio a uma crise mundial, que atingiu, principalmente, os mais pobres. Maitê destaca que todos esses fatores são apenas os sintomas expostos de uma sociedade construída em bases injustas.

“Do sistema fiscal e tributário regressivo às políticas de austeridade que resultam em desinvestimentos nas políticas sociais prioritárias são o resultado de um sistema social, econômico e fiscal que produz e reproduz privilégios e que está baseado em uma estrutura racista e sexista de distribuição do poder e de acesso a recursos”, explica.

No Brasil, 10 novos bilionários desde março de 2020

desigualdade social no Brasil
Pessoas em situação de rua na Praça da Sé, em São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

No país, a organização calcula haver atualmente 55 bilionários, com uma riqueza total de US$ 176 bilhões. Desde março de 2020, o país ganhou 10 novos bilionários.

Ainda de acordo a pesquisa, a miséria e a fome cresceram exponencialmente no país durante a pandemia. Em dezembro de 2020, 55% da população brasileira se encontrava em situação de insegurança alimentar, o equivalente a 116,8 milhões de pessoas.

No início de 2022, a Prefeitura de São Paulo divulgou dados sobre o crescimento da população em situação de rua. O número foi de 31% no ano passado, o que corresponde a cerca de 31.884 pessoas. Em 2020 eram 24.344 pessoas. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre fevereiro e março de 2021, havia pelo menos 221 mil pessoas em situação de rua. Esse período corresponde ao pior momento da pandemia no país.

O papel da sociedade civil

O investimento social privado (ISP) mobilizou, em 2020, R$ 5,3 bilhões, segundo dados do Censo GIFE. Este volume foi substancialmente influenciado pelas respostas do setor à pandemia de Covid-19. 

Maitê entende que a mobilização da sociedade civil foi essencial para o enfrentamento à emergência e o aumento de doações feitas ao longo de 2020 foi um exemplo de solidariedade e de responsabilidade coletiva, essencial em um cenário de crise.

“A filantropia tem um papel fundamental nessa retomada, por sua capacidade de fortalecer a agenda da redução das desigualdades e de orientar os investimentos nesse sentido, a partir de suas organizações e da sua estratégia. A pandemia também colocou no centro da agenda a centralidade do Estado como agente capaz de responder à crise, em parceria e em coordenação com a sociedade civil.”

 

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