Diversidade e equidade no ISP é tema de encontro da RIS do Interior Paulista

 

Depois de abordar diversidade racial, gestão da diversidade e inclusão de pessoas com deficiência e diversidade de gênero e LGBTI+, a Rede de Investidores Sociais (RIS) do Interior Paulista discutiu diversidade e equidade no investimento social privado (ISP). Esse foi o tema do encontro realizado no dia 1 de outubro, na sede da Sanasa, em Campinas – o último de uma série de quatro eventos com a temática Equidade e Diversidade, escolhida pelo grupo para sua atuação em 2019. 

Entre os dados que reforçam a necessidade e importância de debater, abordar e promover o assunto, o último Censo GIFE aponta que 60% das organizações respondentes possuem somente conselheiros brancos, 14% têm conselheiros pardos, 3% negros e 24% têm conselheiras mulheres. Já a Pesquisa Organizacional, antiga Pesquisa de Remuneração Total, que trata das práticas e tendências de remuneração e gestão de pessoas no campo social brasileiro, aponta que apesar de 48% das equipes serem compostas por mulheres, esse dado não se reflete em posições de tomada de decisão, uma vez que o primeiro cargo das organizações é ocupado majoritariamente por homens (62%). 

“Existe um advocacy dentro do terceiro setor em relação a diversidade e equidade, mas quando olhamos para dentro ‘de casa’, vemos que ainda tem bastante coisa a ser feita. Neste ano, a Fundação FEAC desenvolveu um trabalho dentro do programa de Juventudes e recebemos um feedback dos jovens, dizendo que as próprias organizações que trabalham com eles precisam abordar o tema dentro da equipe”, explicou Leandro Pinheiro, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC, uma das coordenadoras da RIS. 

Internet como aliada  

Paula Chang, gerente de mobilização e recursos e relações institucionais da Think Olga, explicou como a organização sem fins lucrativos usa, desde sua fundação em 2013, comunicação, tecnologia e inovação em favor dos direitos das mulheres. Sob o recorte de gênero, a gerente apresentou dados da pesquisa The Labor Market Consequences of Maternity Leave Policies: Evidence from Brazil, produzida pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que aponta que após dois anos, quase 50% das mulheres que tiram licença-maternidade estão fora do mercado de trabalho. A gerente também citou o ranking do Fórum Econômico Mundial, que analisa igualdade entre homens e mulheres. Se em 2017 o Brasil ocupava a posição 90, em 2018 passou a ocupar o 95º lugar

“O trabalho da Think Olga é conscientizar as pessoas e trazer cada vez mais aliados para a causa, sejam mulheres ou homens. Queremos construir um mundo onde a violência contra as mulheres não exista e no qual a inteligência e criatividade femininas sejam valorizadas e compartilhadas”, reforçou.  

Para exemplificar a atuação da Think Olga, Paula relembrou a campanha Chega de Fiu Fiu. Com início em 2013, a ação viralizou nas redes sociais, mostrando a demanda da população brasileira por falar sobre assédio. Depois do desenvolvimento de uma pesquisa que mostrou que 83% das respondentes não gosta de receber cantadas, foi desenvolvido o Mapa Chega de Fiu Fiu, que reuniu relatos de assédio. “O mapa também foi usado no desenvolvimento e na aprovação da Lei de Importunação Sexual, aprovada no final de 2018. Antes disso, o assédio em espaços públicos não era tipificado por lei.” 

Além do lançamento de um filme sobre a campanha (saiba mais), a gerente também compartilhou ações como a campanha Meu Primeiro Assédio, motivada por comentários a respeito de uma candidata de 12 anos do Programa Masterchef Júnior. O assunto, que ficou entre os mais comentados no Twitter, mostrou que, segundo os relatos com a hashtag #meuprimeiroassedio, uma mulher é assediada pela primeira vez quando tem, em média, dez anos. 

Paula reforçou a importância de ter equipes que refletem a diversidade da sociedade brasileira. A Think Olga é composta 100% por mulheres, sendo 55% auto-identificadas como brancas, 36% como negras, 9% como brancas-asiáticas, 30% de origem periférica e 40% mães. “Todos nós devemos construir equipes diversas porque essas pessoas trarão uma riqueza para nossas organizações que vai tirar nossos pontos cegos. Eu não consigo representar sozinha todas as mulheres. Precisamos ter mulheres de todos os tipos e realidades para construir um conteúdo que vai representar de fato as mulheres brasileiras.” 

Mudança de fora para dentro 

Viviane Soranso, analista de mobilização social e redes da Fundação Tide Setubal, detalhou a trajetória da organização para que chegasse ao estado atual. Fundada em 2006, a Tide Setubal tinha como missão trabalhar pelo desenvolvimento local de São Miguel Paulista, bairro periférico da zona Leste de São Paulo e, para isso, investiu na contratação de moradores da região.

Em 2016, a Fundação passou por um processo de remodelação institucional que deu origem à sua nova missão: “fomentar iniciativas que promovam a justiça social e o desenvolvimento sustentável de periferias urbanas e contribuam para o enfrentamento das desigualdades socioespaciais das grandes cidades, em articulação com diversos agentes da sociedade civil, de instituições de pesquisa, do Estado e do mercado.” 

“Com todas essas mudanças, começamos uma discussão interna de que não poderíamos falar de desigualdade e justiça social se não debatêssemos algo estruturante que é o racismo”, explicou Viviane. Nesse contexto, a analista afirma que Neca Setubal, presidente da Fundação, teve um papel fundamental de voltar o olhar para a equipe interna e, ao perceber que a maioria das pessoas negras ocupavam cargos na base dos projetos, promover uma realocação de profissionais, além de contratar novos colaboradores com foco na diversidade racial. 

“Nós costumamos falar: se quer mudar de verdade, é preciso mudar a estrutura de poder. E o que é mais representativo que o conselho curador? Por isso, a Neca abriu o conselho, que até então era familiar, e convidou Sueli Carneiro, filósofa, escritora e ativista do movimento social negro, e Jailson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas, para integrar esse espaço. Em 2019, Márcia Lima, pesquisadora da área de educação com recorte de gênero e raça, foi convidada para integrar nosso conselho consultivo”, disse Viviane. 

Segundo a analista, foram necessários três passos para que essas mudanças em grandes níveis acontecessem: o comprometimento da alta gestão com a causa, o envolvimento da área de desenvolvimento organizacional – equivalente ao setor de recursos humanos – e o investimento no desenvolvimento de pessoas, com formações, Plano de Desenvolvimento da Equipe (PDE) e aulas de inglês. 

“Investir no desenvolvimento de pessoas é fundamental quando pensamos em permanência. Se esse desenvolvimento não acontece, as pessoas vão embora porque se sentem inúteis por não entenderem as linguagens e não conseguirem contribuir. Quando fazemos formações, convidamos profissionais de fora, mas também temos a preocupação de reforçar que a própria equipe tem seu conhecimento e pode conduzir uma formação. Nós acreditamos que é necessário criar políticas internas para que a diversidade seja tida como uma estratégia e não como algo que vai acontecendo. Também defendemos que se o ISP quer diminuir as desigualdades sociais, é preciso olhar, discutir e enfrentar marcadores estruturantes dessa desigualdade: o racismo e machismo.” 

Próximos passos 

Depois de uma roda de conversa sobre as exposições de Paula e Viviane, o momento final da reunião foi dedicado a informes e encaminhamentos. Foram apresentados o Termo de Adesão da RIS, criado com o objetivo de conferir mais unidade ao grupo, expressar sua finalidade, princípios, valores, critérios de admissão de novas organizações e atribuições dos membros, e uma identidade visual própria da rede. 

Além disso, os participantes opinaram sobre materiais de comunicação produzidos no âmbito da Campanha Equidade e Diversidade, idealizada pela RIS com o objetivo de ter um produto conjunto para fortalecer a temática, incluindo aprendizados e diálogos realizados ao longo do ano. As peças de comunicação serão disponibilizadas na página da RIS, no site do GIFE, e as organizações que compõem a rede estudam uma data única para início da campanha usando a hashtag #somarparatransformar. 

Dois convites foram realizados à rede: a possibilidade de levar a 1ª Mostra GIFE de Inovação Social para Campinas no começo de 2020 – com um investimento conjunto por parte dos membros para arcar com custos logísticos – e a participação de organizações interessadas na Iniciativa Equidade Racial, sob responsabilidade do GIFE e Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT).  

O próximo e último encontro da rede em 2019 está previsto para meados de novembro.

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