Especialistas apontam caminhos para a comunicação de causas na mídia tradicional

Como é possível fazer uso da comunicação de causas em diferentes áreas da comunicação, como jornalismo, entretenimento e até mesmo dramaturgia? Esse foi o tema da roda de conversa Comunicação de Causas, realizada no dia 22 de agosto, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro.

A iniciativa, realizada pela Globo, contou com apoio do GIFE e foi inspirada na rede Narrativas, grupo de profissionais que trabalham com comunicação de causas com o objetivo de aproximar e conectar comunidades de todo o país, promover a comunicação como área estratégica dentro de organizações da sociedade civil (OSCs) e difundir e promover troca de conhecimentos com a promoção de espaços de debate para a transformação social.

Para Fátima Baptista, jornalista e chefe de redação de programas da Globonews, enviar informações mais objetivas na hora de pautar os jornalistas pode abrir caminhos frente à pouca eficiência dos materiais e sugestões que chegam nas redações. “Nós jornalistas, que não somos especialistas em nada, recebemos pautas sobre assuntos diversos, que vão desde a conservação ambiental até o BNDES. Muitas vezes, não conseguimos captar o que é mais importante em determinado material. Além de um trabalho mais direto, é necessário conseguir despertar a empatia dos jornalistas e saber com quem falar.”

Nesse sentido, Fátima defende que é necessário tangibilizar e conectar os temas com a realidade. “Não me contem que a corrupção custa 30 dólares por ano do meu imposto. Me contem que o índice de repetência deve-se ao fato de que crianças não vão à aula por causa de diarreia, que, por sua vez, é acarretada pela falta de saneamento, que não está sendo feito em razão do roubo de verbas destinadas às obras. Acredito que essa lógica nos ajuda a trabalhar causas no jornalismo.”

Fátima Bernardes, jornalista e apresentadora do programa Encontro, usou o exemplo do TED Talks de Simon Sinek para defender que a ordem em que um discurso é apresentado também faz toda diferença na captação da mensagem. A jornalista explicou que a definição das pautas não leva em conta o potencial de emocionar ou comover o público, mas sim a necessidade de tratar de assuntos que já estão nos noticiários. “É necessário que o assunto converse com as informações que as pessoas já têm. Mas, para despertar mais interesse, usamos o entretenimento. Por que vemos uma novela ou um filme? Porque algo nos prende. E aqui, o que nos prende são as pessoas. A partir do momento que conseguirmos transitar das pautas para os exemplos, elas serão muito mais fortes.”

A força das histórias reais

Um exemplo dessa transmutação é o documentário Criança, a Alma do Negócio. Marcos Nisti, empreendedor social e co-fundador da Maria Farinha Filmes – produtora especializada em filmes e outros produtos audiovisuais voltados à comunicação de causas -, contou o que despertou essa vocação. “A Maria Farinha nasceu dentro de uma organização da sociedade civil, o Alana, a partir da necessidade de explicar temas de difícil compreensão. Eu sou casado com a Ana Lúcia Villela [idealizadora do Alana]. Mesmo com uma pedagoga em casa, eu não conseguia entender o problema da publicidade voltada a crianças, uma das causas da vida dela. E ficava imaginando que, se eu não compreendia, imagina quem não tinha acesso ao tipo de informação que eu tenho. Essa foi a motivação para a realização do documentário.”

Fátima Baptista mencionou a urgência de alguns temas como fator determinante na hora de abrir espaço para causas em redações de hard news, as chamadas notícias em tempo real. “Quando abrimos espaço no Jornal Nacional é porque realmente acreditamos na força da pauta. No início do ano, decidimos tratar de feminicídio porque julgamos que é um assunto ainda às escuras. O William Bonner pediu que eu fizesse um levantamento de casos de mortes reportados à redação em um intervalo de cinco dias. Nós recebemos notícia de 22 mortes e resolvemos noticiar todas. É necessário cavar espaço para temas urgentes como esse.”

Fátima Bernardes ressaltou a importância de contar histórias reais para que seu programa cumpra com o objetivo de tratar de assuntos da atualidade. Segundo a jornalista, sugestões de pauta que se dedicam a repassar estatísticas não despertam interesse. “A partir do momento que temos um exemplo concreto, é muito fácil fazer o caminho contrário e levantar os números. Eu posso falar de muitos assuntos quando tenho uma história real.”

Para entrar em contato com essas pessoas e fazer com quem elas se disponham a falar sobre temas difíceis em um programa ao vivo, entretanto, a jornalista observa que é necessária a criação de uma relação de confiança tanto com o programa quanto com o jornalista. “É muito fácil cair na exploração da miséria humana e em abordagens sensacionalistas. Mas está muito claro que nossa intenção não é essa. Sempre tratamos os temas de forma séria, com algum tipo de leveza e apontando um caminho.”

Imparcialidade financeira e representatividade são essenciais

Outro assunto abordado foi o aspecto monetário. Fátima Baptista afirmou que a Globonews não enfrenta problemas quando o assunto é publicidade e atração de anunciantes para programas fora do mainstream. Segundo a jornalista, o programa Cidades e Soluções, exibido uma vez por semana, é um dos campeões de audiência, juntamente com programas políticos.

Fátima Bernardes, por sua vez, observou que apesar de o Encontro ser um programa comercializado, isso não interfere no resultado do que vai ao ar. Além disso, a apresentadora reforçou a centralidade da representatividade na comunicação de causas. “Uma coisa é abordar racismo em uma pauta, outra é ter profissionais negros falando sobre temas diversos.”

Para Beatriz Azeredo, da área de responsabilidade social da Globo, o ponto forte de um workshop sobre pessoas com deficiência do qual participou foi convidar esses profissionais para falar sobre outros temas que não inclusão, reafirmando o lugar de cidadãos e profissionais com competências dessas pessoas.

Os efeitos da comunicação de causas 

Durante a roda de conversa, os participantes compartilharam aprendizados e desdobramentos conquistados graças à comunicação de causas. Fátima Baptista contou que na série Terra do Meio, a equipe de jornalismo encontrou uma população no estado do Pará que não tinha nenhum tipo de documentação, desde certidão de nascimento até RG.

“Um dia, eu estava na redação e um senhor de 75 anos, o Chico, me ligou dizendo que havia tirado uma certidão de nascimento, o que possibilitou que seus filhos pudessem fazer o mesmo para que seus netos, finalmente, pudessem frequentar a escola. Isso é algo pequeno, lá no meio do Pará, mas para mim, e acho que para todo jornalista, um impacto como esse é o melhor termômetro.”

Fátima Bernardes encerrou uma edição do programa que tratou de educação inclusiva comentando que a simples presença de uma criança na sala de aula não se configura como educação inclusiva se não houver uma inclusão social, com convites para festas de aniversário, por exemplo. “Eu estava no shopping e uma mãe veio me agradecer, pois o filho dela tinha sido convidado para a primeira festa, já que a escola tinha tratado sobre o assunto. É o que a gente sempre fala: se transformar a vida de uma única pessoa, já valeu a pena.”

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