Estudo retrata impacto da pandemia em organizações lideradas por mulheres e pessoas LBTIs

Enquanto estudos recentes mostram que os muito ricos levaram poucos meses para se recuperarem dos impactos da Covid-19 e os bilionários mais do que dobraram suas fortunasa pesquisa Ativismo e Pandemia no Brasil, realizada pelo Fundo ELAS+, revela como o período prejudicou as organizações da sociedade civil comandadas majoritariamente por mulheres e pessoas LBTI (lésbicas, bissexuais, transgênero e intersexo).

Segundo Iracema Souza, consultora de programas do ELAS+ e uma das pesquisadoras do estudo, essas organizações possuem atuação em todo o território nacional, produzindo frentes de resistência com construção efetiva de ações de mobilização, advocacy e atendimento direto às comunidades que vivenciam diariamente desigualdades econômica, de raça, gênero e sexualidade.

E se a pandemia agravou as dificuldades já enfrentadas por essas ativistas em suas localidades – como o desemprego, a fome, as questões referentes à saúde mental, as dificuldades de acesso aos recursos tecnológicos e os desafios de prevenção e tratamento da Covid-19 -, houve uma grande mobilização, especialmente destes grupos, para contornar essas questões. 

“Foi possível observar a agilidade para atuação in loco por parte dessas organizações e a inventividade diante dos obstáculos apresentados, com soluções por meio da promoção de acesso a insumos de prevenção, alimentação, estruturas de abrigo e capacitações, até com o compartilhamento de recursos próprios”, explica Iracema. 

Flexibilidade de apoios 

Considerando alguns achados da pesquisa, como o fato de que 56% dos movimentos de mulheres e LBTIs no Brasil são informais e que 54% dos respondentes contaram com aporte reduzido para todo o ano de 2019, Iracema explica quão importante foi a flexibilização do edital Mulheres em Movimento 2020, do ELAS+, para conseguir apoiar grupos informais.

“A maioria das organizações se constitui no universo dos ativismos. Logo, a sensibilidade [de alterar o edital] foi indispensável para que instituições com menos recursos, com atuação em territórios mais vulneráveis e excluídas dos financiamentos voltados a grupos com CNPJ tivessem oportunidade de se fortalecer e produzir ações efetivas nos diferentes espaços de atuação.” 

A pesquisadora também aponta que o levantamento permitiu acompanhar como essas organizações aproveitaram a flexibilização para alocar os recursos em diferentes frentes, considerando os efeitos produzidos pela pandemia. 

“Observamos estratégias de redistribuição de recursos, anteriormente ao auxílio emergencial disponibilizado pelo governo, como o pagamento de bolsas para profissionais sem a possibilidade de trabalhar, para pessoas desempregadas e em situação de fome. Algumas organizações redirecionaram suas ações previstas para atendimento a demandas emergenciais como distribuição de itens alimentícios e produção e disponibilização de máscaras”, exemplifica. 

Por serem comandados por mulheres e pessoas LBTIs, os grupos e movimentos estão, naturalmente, mais sensibilizados para a importância do apoio a segmentos marginalizados socialmente. Nesse sentido, Iracema destaca uma das ações: a distribuição de recursos para profissionais do sexo, cujo trabalho foi inviabilizado pela pandemia diante da recomendação de não realização do contato físico, o que, segundo a pesquisadora, demonstra a sensibilidade e profundidade do engajamento dessas organizações. 

Iracema também ressalta a relevância do apoio oferecido por esses movimentos na realização do cadastro de suas beneficiárias e moradoras das suas localidades de atuação no programa de auxílio emergencial do governo e de proteção social. 

“Essas iniciativas ilustram a importância e o papel que essas organizações desempenham na efetividade das políticas públicas e que, apesar de formuladas para a solução de alguns problemas como a fome e o desemprego, possuem diversos desafios na implementação ao desconsiderar outros aspectos, como as desigualdades no acesso à informação e aos recursos tecnológicos exigidos para a realização do requerimento à política.” 

Apoio institucional 

Juntamente com as esferas governamentais, as empresas privadas estão entre os setores que menos financiam organizações lideradas por mulheres no Brasil. As principais fontes de recursos dessas organizações são o voluntariado (62,4%), doações individuais (53,4%), eventos (49%) e vendas (36,6%). 

O levantamento mostra que falta apoio institucional para que esses grupos e movimentos possam investir em sua infraestrutura: 73,6% das respondentes afirmaram sediar seus ativismos em suas residências, em espaços alugados ou em imóveis emprestados. Para Iracema, falta reconhecimento por parte da sociedade sobre a centralidade dessas organizações na garantia da democracia. 

“O incentivo à produção de conhecimento sobre os ativismos de mulheres e pessoas trans no Brasil é um passo em direção ao fortalecimento da atuação desses grupos, que, sem dúvida, interferiram para que o contexto produzido pela pandemia fosse menos trágico que aquele que observamos. No entanto, o conhecimento, por si só, não é capaz de transformar a realidade de financiamento que temos hoje. Também é necessário que o saber seja transformado em ações práticas, através do fortalecimento das organizações pelas suas atuações e não pela formalidade ou não, e que atendam as reais necessidades e apoiem as ações para fazê-las crescer e desenvolver, ao contrário de torná-las engessadas e desconectadas da realidade”, finaliza. 

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