FIIMP forma rede de aprendizado e anuncia atuação para 2019 e 2020

Criado em 2016, o FIIMP – Fundações e Institutos de Impacto vem se estabelecendo como uma rede de aprendizado. A afirmação é de Márcia Soares, analista de meio ambiente no Fundo Vale, durante a Roda de Conversa FIIMP, que aconteceu no Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto – 2018: Investir para Transformar, nos dias 6 e 7 de junho, em São Paulo.

O Fundo Vale é uma das 22 fundações e institutos familiares, empresariais e independentes que compõem o grupo, entre eles diversos associados do GIFE, lançado com o intuito de aprender, acompanhar e conhecer os resultados de investimentos em negócios de impacto, experimentando o uso de diferentes instrumentos financeiros. Cada investidor aportou 10 mil dólares para iniciar as atividades do FIIMP em 2017.

Mais três parceiros compuseram a Roda: Eduardo Pedote, sócio diretor da Bemtevi Investimento Social, Fillipe Barros, analista de gestão de programas do Instituto Votorantim e Luis Fernando Guggenberger, gerente de sustentabilidade do Instituto Vedacit. Todos concordaram que a produção de conhecimento construída a partir dessa ação conjunta foi um dos maiores avanços do FIIMP.

“O FIIMP veio num momento em que estávamos levantando possibilidades de apoiar negócios de impacto social. Mesmo com experiência de anos apoiando projetos na região amazônica, ainda tínhamos que aprofundar nossos conhecimentos. Um exemplo é que aprendemos que se não contribuíssemos com a economia local, não avançaríamos, porque muitos desses projetos já são negócios, mas precisam de apoio na virada de transformação deles. Com o grupo, sinto que somos agora uma rede de aprendizagem. Foram muitas trocas durante quase dois anos e temos um potencial incrível para ampliar a escala,” avaliou Márcia.

Aprendizados que geram ecos diferentes para cada participante do grupo, de acordo com suas práticas de investimento. “Trata-se de um espaço de muita oxigenação para a Vedacit. Nos ajuda a olhar nossa prática diária, interferindo positivamente nas tomadas de decisão como, por exemplo, abrirmos a possibilidade de realizarmos compras de negócios de impacto social. Nos ajuda a nos conectarmos com o ´gaps´ dentro do campo e para os quais precisamos ficar atentos. Vem sendo um aprendizado muito intenso. Nos faz olhar para ´dentro de casa´ e nos revermos”, contou Luís Fernando.

Para 2018, o FIIMP tem dois desafios: acompanhar os investimentos do conjunto apoiado, monitorando o retorno financeiro e impacto socioambiental gerado em cada caso, e iniciar a segunda rodada do FIIMP. “Essa governança coletiva do FIIMP construiu um desejo de não pararmos por aí. Estamos estruturando o FIIMP 2 e convocamos instituições que queiram construir conosco o modelo dessa segunda rodada”, provocou Fillipe Barros, anunciando o lançamento de atuação do grupo para 2019 e 2020.

Investimentos e aprendizados

Como institutos e fundações podem investir em negócios de impacto socioambiental? Quais os melhores caminhos e que cuidados tomar? Como monitorar o impacto social dos investimentos?

Foram essas as principais inquietações que guiaram o trabalho inicial do grupo para a construção de nove objetivos orientadores. São eles: 1) estimular Fundações e Institutos a direcionarem um percentual de seus investimentos e doações ao desenvolvimento do campo das finanças sociais e negócios de impacto, atraindo mais capital para o campo; 2) experimentar, de forma prática e conjunta, o uso de diferentes mecanismos financeiros de finanças sociais; 3) acompanhar e sistematizar a experiência, como forma de garantir o aprendizado para o pool de organizações; 4) testar mecanismos financeiros que se enquadrem no contexto de fundações e institutos; 5) experimentar estratégias de apoio a projetos socioambientais com recursos retornáveis; 6) aumentar o conhecimento de organizações filantrópicas que não tinham histórico de investimento em negócios de impacto; 7) fomentar e trabalhar com intermediários experientes que poderiam acelerar os aprendizados do grupo; 8) ampliar a forma de atuação de institutos e fundações, sobretudo na atração de outros investidores para os negócios que resolvem problemas sociais e 9) fortalecer o pipeline de negócios de impacto no Brasil.

Diversidade de formatos e instrumentos financeiros

Hoje, tem-se clareza de que há diversas formas para fundações e institutos apoiarem negócios. Podem atuar como doadores em diversas organizações intermediárias e nas fases iniciais dos negócios; como investidores; parceiros; fortalecedores de capacidades; mobilizadores ou disseminadores de oportunidades de negócios de impacto. Há também vários instrumentos financeiros que podem ser escolhidos para se investir em negócios de impacto, como participação acionária (equity), instrumentos de dívida (debt), mecanismos de garantia (aval), Contratos de Impacto Social (Social Impact Bonds), além dos títulos de renda fixa, papéis públicos, venture capital ou ativos reais. Os investimentos podem, ainda, ser realizados diretamente nos negócios sociais ou indiretamente, via intermediários.

“Com tantos interesses envolvidos entre os vários negócios que atuamos, definimos que o dos investidores estaria em aprender como seriam os mecanismos financeiros de investimentos. E que os Intermediários, que são as organizações que atuam na ponta, quem decidiriam os negócios de impacto que deveríamos investir. Ficamos mais numa posição de observação do que de influência nas escolhas em si. E porque atuamos na dimensão de aprendizado, desmistificamos com tranquilidade a dúvida sobre se instituições e fundações poderiam ou não apoiar negócios de impacto. Quando nos voltamos para os Intermediários, percebemos diferentes olhares que abriram, para nós, perspectivas do que apoiar. Esse trabalho, além de contribuir com a sustentabilidade deles, que também são negócios, possibilita que outros Intermediários surjam”, afirmou Márcia.

No FIIMP, o grupo aplicou quatro modelos de investimento, sendo um investimento direto e os outros três (com a maior parte do recurso) pelo modelo indireto. Ao fomentar os intermediários, acreditam estar contribuindo também para o fortalecimento de mais atores do ecossistema. Foram testados três instrumentos financeiros diferentes, por meio de três intermediários: a SITAWI Finanças do Bem, a Bemtevi e a Din4mo Ventures.

No primeiro caso, no qual a SITAWI foi o intermediário, o negócio de impacto inicialmente selecionado atua no setor da Educação, e o instrumento foi a Garantia de Empréstimo. Por meio de doação do FIIMP, a SITAWI buscou estruturar a primeira Garantia de Empréstimo Socioambiental para um negócio de impacto no Brasil. No segundo caso, o intermediário foi a Din4mo, e o negócio investido foi da área da saúde por meio do instrumento de Título de Dívida Conversível (TDC) da plataforma Broota. Já no terceiro caso, o investimento foi feito diretamente no negócio (da área de habitação), também pelo instrumento de Título de Dívida Conversível (TDC) dentro da plataforma Broota. E no quarto caso, o intermediário foi a Bemtevi, apoiando diversos negócios por meio do instrumento Dívida.

“O maior destaque do FIIMP para nós foi essa aprendizagem da ação conjunta, uma atuação que se mostrou um processo rico tanto no campo teórico quanto prático. Um dos desafios que nós, como Intermediários, conseguimos vencer é a falta de capilaridade de muitos institutos e fundações. Demos esse suporte a eles, orientando em quais projetos investir para que o fomento de fato aconteça. Exercemos essa conexão, essa sinergia entre os negócios”, explicou Eduardo Pedote, da Bemtevi Investimento Social.

Segundo Fillipe Barros, do Instituto Votorantim, o aprendizado em acompanhar as organizações intermediárias que nos orientam nas escolhas de investimentos foi muito grande. “Aprendemos as dores de empreendedores, aprendemos a nos relacionarmos com eles. E, após quase dois anos de atuação, o momento exigia uma primeira sistematização da trajetória do grupo”, disse ele.

Sistematização e disseminação

As dúvidas que motivaram o nascimento do FIIMP, a trajetória de discussões e aprendizados do grupo, e toda a formulação de conceitos decorrente foram sistematizadas para que mais organizações possam ter acesso ao conhecimento.

A partir disso, construiu-se o Guia FIIMP – Nossa jornada de aprendizado em Finanças Sociais e Negócios de Impacto para institutos e fundações que desejam apoiar e investir nesse novo ecossistema. Na publicação, que foi lançada na Roda de Conversa FIIMP, é possível conhecer toda a jornada do grupo e também se aprofundar com os materiais de apoio disponibilizados ao longo do texto. Além disso, há indicações de leitura prática sobre como fundações e institutos podem efetivar investimentos de impacto. “Tentamos trazer os caminhos percorridos por nós na resolução de muitos dilemas, jurídicos inclusive”, completou Márcia Soares, do Fundo Vale. O material está disponível para download gratuito no SINAPSE, biblioteca virtual do GIFE – acesse aqui.

Inspiração

O FIIMP teve sua origem no Lab de Inovação em Finanças Sociais realizado pela Força Tarefa de Finanças Sociais, em 2016, inspirados pela recomendação nº 2 que trata do protagonismo dos institutos e fundações no tema. A partir daí, estruturou-se como um grupo independente e com uma estrutura de governança própria. Essa recomendação sugere que fundações e Institutos (empresariais, familiares e independentes) realizem tanto doações quanto investimentos para viabilizar iniciativas piloto e inovadoras do campo de Finanças Sociais e Negócios de Impacto.

Para saber mais

Durante o X Congresso GIFE, na mesa de debate Negócios de impacto e investimento social: estratégias, dilemas e potencialidades, foi lançada a publicação Olhares sobre a atuação do investimento social privado no campo de negócios de impacto. Dando sequência à série Temas do Investimento Social do GIFE, a iniciativa tem como objetivo gerar conhecimento no campo por meio da análise de temas fronteiriços e estratégicos, fomentando e qualificando a atuação de investidores sociais privados no panorama político-institucional brasileiro. Acesse a publicação completa aqui.

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