Institutos e fundações avaliam aprendizados sobre novos investimentos em negócios de impacto e o campo de finanças sociais

 

Perguntas feitas durante muito tempo por investidores sociais – como ‘Será que eu posso investir em negócios de impacto? Será que não teremos problemas jurídicos? Eu tenho que me engajar nessa também? ’, – e que pareciam ainda sem respostas, já começam a ser superadas diante de boas práticas desenvolvidas e diversos obstáculos, principalmente burocráticos, que passam a ser superados. O momento de dúvidas inicial ganha mais clareza e muitos investidores sociais avançam em entender mais o campo e colaborar para fortalecê-lo.

“Tem três aspectos importantes já observados. Primeiro, sim, o investimento social privado pode se engajar com esse tema, não só diretamente com negócios em si, mas com o campo como um todo. Segundo, há barreiras, mas que são totalmente superáveis. E, terceiro, há vários caminhos para que institutos e fundações se engajem no campo. O momento atual, então, é de cada um entender e identificar quais caminhos e oportunidades fazem mais sentido para a sua realidade institucional. Saímos daqueles estágios iniciais de incertezas, vimos que é possível e, agora, temos de decidir como fazer”, avalia Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, destacando que boa parte dessa visão foi construída a partir da experiência na iniciativa FIIMP – Fundações e Institutos de Impacto (a ser compartilhada no Congresso GIFE – veja abaixo na matéria).

O grupo teve sua origem no Lab de Inovação em Finanças Sociais realizado pela Força Tarefa de Finanças Sociais (FTFS), em 2016, inspirados pela recomendação nº 2 que trata do protagonismo dos institutos e fundações no tema. A partir daí, organizou-se como um grupo independente e com uma estrutura de governança própria.

O grupo reuniu então 22 fundações e institutos familiares, empresariais e independentes – entre eles diversos associados do GIFE – com o intuito de aprender, acompanhar e conhecer os resultados de investimentos em negócios de impacto, experimentando o uso de diferentes instrumentos financeiros. Cada investidor aportou 10 mil dólares para a iniciativa começar a rodar em 2017. Entre as diversas opções disponíveis, o FIIMP testou três instrumentos financeiros diferentes por meio de três intermediários, a SITAWI Finanças do Bem, a Bemtevi e a Din4mo Ventures.

No primeiro caso, a SITAWI Finanças do Bem foi o intermediário, e por meio de doação do FIIMP, está estruturando a primeira ‘garantia de empréstimo socioambiental’ para um negócio de impacto no Brasil. A operação envolve tanto uma parceria com uma instituição financeira tradicional, quanto a seleção de um negócio de impacto que atenda aos critérios da mesma. No segundo caso, o intermediário financeiro foi a Din4mo, e foram dois negócios investidos: Mais 60 Saúde e Vivenda, pelo instrumento de ‘título de dívida conversível (TDC)’, em dois formatos negociados por meio da plataforma Broota. No terceiro caso, o intermediário financeiro foi a Bemtevi, que investiu no Projeto da Cozinha Criativa, da Agência Solano Trindade, e na empresa Descarte Correto, por meio do instrumento ‘dívida’.

Além do aporte de recursos, o FIIMP estabeleceu uma governança interna para fomentar a participação ativa dos institutos e fundações em grupos de trabalho (comunicação, operações etc.), a fim de que todos pudessem aprender de fato com o processo. Muitos dos participantes se aproximaram diretamente também dos três intermediários, que abriram a oportunidade para os investidores conhecerem os processos internos e participarem da prospecção e também seleção dos negócios, por exemplo, entendendo os critérios utilizados.

“Essa governança horizontal, permitiu a formação de um grupo coeso e integrado. Percebemos o quanto essa atuação entre pares é realmente poderosa. Ter vários institutos e fundações trabalhando juntos traz uma credibilidade e força interna nas próprias organizações. E isso ajudou, inclusive, muitos investidores a destravar barreiras sobre o tema, como jurídicas, institucionais, contábeis. Além disso, conseguimos atuar de uma forma diferente do que costumamos enquanto institutos e fundações. Como a iniciativa surgiu a partir de um protótipo,  atuamos mais próximos da lógica das startups, em que se coloca a ideia na prática, corrige, reconstrói, faz de novo”, completa o gerente do Instituto Sabin.

Principais aprendizados

Apesar do processo ainda estar em curso, com a proposta de acompanhar de que forma o investimento está sendo utilizado e os resultados junto aos negócios, o grupo se reuniu para avaliar este um ano de atuação conjunta.

Em um workshop realizado no início do mês, os participantes do FIIMP e os intermediários puderam compartilhar quais foram os aprendizados desse processo e pensar nos próximos passos. Todo este conhecimento construído pelo grupo até agora foi sistematizado e irá se transformar numa publicação, a ser lançada em breve.

Um dos aprendizados, por exemplo, destacado pelos participantes é a importância de antes de realizar qualquer investimento de impacto, ficar atento às questões jurídicas referentes ao tema, começando pela leitura do Estatuto para ver o que é permitido ou não. O grupo percebeu também que escolher qual instrumento financeiro utilizar é uma questão de equilíbrio entre riscos, retorno financeiro e impacto socioambiental desejado, o que pode variar para cada instituto ou fundação.

Durante o ano de 2017, para superar estas questões o FIIMP organizou um workshop dedicado à temática jurídica. Esse apoio de escritórios especializados que já atuam com o tema foi fundamental, pois, apesar de muitas organizações contarem com apoio jurídico por meio de estruturas internalizadas e/ou terceirizadas, os profissionais normalmente não estavam ainda atualizados em relação às questões ligadas ao investimento em negócios de impacto por organizações filantrópicas. O próprio Instituto Sabin, por exemplo, fez alterações no seu Estatuto.

Outro ponto destacado pelo grupo é que foi possível perceber que há diversas formas para fundações e institutos apoiarem negócios, atuando como: doadores em diversas organizações intermediárias e nas fases iniciais de negócios, investidores, parceiros, fortalecedores de capacidades, mobilizadores ou disseminadores de oportunidades de negócios de impacto. Há também diversos instrumentos financeiros que podem ser escolhidos para se investir em negócios de impacto, como participação acionária (equity), instrumentos de dívida (debt), contratos de impacto social (social impact bonds), além dos títulos de renda fixa, papéis públicos, venture capital ou ativos reais. Os investimentos podem ainda ser realizados diretamente nos negócios sociais ou indiretamente, via intermediários financeiros.

A participação e aprendizados via FIIMP acabou gerando movimentos internos nos institutos e fundações, como aconteceu com o Oi Futuro. A organização, que já vinha se aproximando do tema via participação em eventos para conhecer as recomendações da FTFS e a própria Rede de Negócios de Impacto do GIFE, ao ingressar no FIIMP viu a oportunidade de se aprofundar no campo.

“Estávamos também num momento de pensar o nosso planejamento estratégico e essa discussão nos fez refletir sobre o que poderíamos fazer internamente, enquanto instituto que pensa em inovação social e quer ampliar o seu impacto, para ampliar horizontes. Isso nos moveu a mergulhar na temática e foi um ano muito interessante”, comenta Flávia Vianna, coordenadora de Inovação Social do OiFuturo.

Os aprendizados foram incorporados, por exemplo, no Labora – Laboratório de Inovação Social, que oferece o Programa de Incubação e Aceleração de organizações sociais e negócios sociais – apoio a OSC, grupos culturais ou coletivos, formalizados ou não, que desenvolvam projetos sociais na área da cultura e precisem de apoio nas áreas de gestão estratégica e inovação para a execução de suas iniciativas – e, o Programa de Aceleração de Negócios Sociais, que conta com execução técnica da Yunus Negócios Sociais.

“Esse um ano de caminhada trouxe várias provocações, a fim de que possamos pensar num modelo viável para atuar no campo, que faça sentido e seja seguro. Para nós, neste momento, não é possível investir diretamente nos negócios, mas fizemos via os intermediários e sendo ponte entre os negócios e os possíveis investidores. Além disso, iniciamos um movimento para vermos a possibilidade de contratar produtos e serviços dos negócios sociais, dialogando com a área de suprimentos, compras etc. O que eu acho mais interessante é discutirmos como podemos ‘hackear’ este sistema hoje colocado, pensando numa nova forma de fazer negócio, de poder ter lucro, sem destruir a sociedade, e sem criar mais desigualdades. Isso é muito instigante”, pondera Flávia.

Para o próprio GIFE, que também acompanhou de perto todo o processo do FIIMP, foi possível compreender melhor o campo e entender qual o papel de uma organização como o GIFE e as oportunidades para o ISP fazer diferença e expandir o campo. “Para nós, que também fomentamos muito a articulação de redes, foi interessante compreender o modelo estabelecido pelo FIIMP, que gerou muito envolvimento e participação. Ter tido essa participação até agora trouxe mais um modelo possível”, comenta Erika Sanchez, gerente de programas do FIIMP.

Avançando no debate

Para ampliar a discussão em torno do tema, o X Congresso GIFE, a ser realizado de 4 a 6 de abril, irá promover diversos painéis a respeito. Na programação fechada, no dia 5, à tarde, o debate será: “Negócios de impacto e investimento social: estratégias, dilemas e potencialidades”. Na ocasião, será feito o lançamento da publicação ‘Olhares sobre a atuação do investimento social privado no campo de negócios de impacto’, pertencente à série ‘Temas do Investimento Social Privado’, e que contou com o apoio de ICE, Instituto C&A, Instituto Sabin, Instituto Vedacit, OiFuturo e Instituto InterCement.

O estudo tem como proposta identificar, sistematizar e aprofundar as reflexões atuais sobre a correlação entre ISP e o campo das finanças sociais e os negócios de impacto, buscando adensar o debate que vem sendo feito a partir das experiências atuais, de modo a refletir a complexidade dessa interação. Ao apresentar o contexto da atuação dos investidores sociais no campo dos negócios de impacto – incluindo as tendências e práticas em curso –, a publicação pretende subsidiar, ampliar e aprofundar a discussão sobre essa atuação e promover o diálogo sobre suas potencialidades e implicações.

A proposta deste painel no Congresso é, a partir de tendências, oportunidades e desafios que emergem da publicação, gerar uma conversa com os dois convidados: Carla Duprat, diretora executiva do Instituto InterCement, para refletir sobre de que forma como institutos corporativos já tem feito nessa trilha e tem avançado em relações internas – áreas de negócios, jurídicos etc. – e também em seus territórios. E com Celso Athayde, produtor de eventos e ativista social brasileiro, fundador da Central Única das Favelas (CUFA) e da Favela Holding, primeira holding social, e do Data Favela, o instituto de pesquisa e estratégias de negócios especializado na realidade das favelas brasileiras, para falar sobre negócios de impacto periféricos.

Também no dia 5 do Congresso, a experiência do FIIMP será compartilhada por Márcia Soares, do Fundo Vale, na mesa “Expandindo conexões: aprendizados e avanços na atuação em rede”. Neste painel, a proposta será refletir sobre quando faz sentido atuar em rede, quais são os principais desafios enfrentados e como as redes vêm lidando com eles e o que é preciso construir e desenvolver para atuar em rede de maneira efetiva, potente, plural, com envolvimento de todos.

Já como parte da programação aberta do evento, na tarde do dia 6, será feita uma discussão a respeito de “Negócios de Impacto e Finanças Sociais”. Na atividade, serão compartilhadas iniciativas de organizações como A Banca, Grupo Boticário, Din4mo, Fundação Amazonas Sustentável, entre outros.

A programação completa é possível de ser acessada aqui.

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