Fundação Itaú Social lança pesquisa sobre trajetórias de jovens nas periferias da cidade

 

Dificuldades no transporte público, preconceitos e falta de sensação de pertencimento. Seja qual for o motivo, muitos são os desafios que jovens moradores das periferias enfrentam para seguir um caminho em busca de educação e uma vaga no mercado de trabalho. Para dar luz a essas questões, a Fundação Itaú Social, em parceria com o Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, lançou a publicação “Novos fluxos na busca por oportunidades: Trajetórias de jovens nas periferias da cidade”.

De autoria de Fernanda Zanelli, gestora de projetos socioculturais para juventudes da Fundação, a ideia de realizar um estudo aprofundado surgiu a partir da observação de movimentos protagonizados por jovens, como os protestos de junho de 2013, os “rolezinhos”, as ocupações, e muitos outros. “Isso tudo trouxe uma mensagem de que a juventude está participando do debate e tem coisas a passar. Nossa motivação foi olhar de que forma essa participação e vontade de estar no debate se traduz em suas trajetórias de vida, pensando em todos os obstáculos que precisam enfrentar em relação às desigualdades”, explica.

A pesquisa tem como objetivo organizar recomendações para gestores e educadores sociais que são os tomadores de decisão de ações relacionadas ao público jovem. Segundo Fernanda, a proximidade da Fundação Itaú Social com projetos práticos pode ajudar no entendimento das necessidades. “Muito do material da pesquisa dialoga com entrevistas de profundidade e com grupos focais, mas também com o aprendizado da organização em executar projetos para a juventude. Nós sabemos que os educadores sociais e os gestores de políticas muitas vezes precisam de respostas mais ligadas à prática. Então, a publicação teve esse cuidado de não ficar só no mundo das ideias, mas também dialogar com os desafios apresentados no campo”.

A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas e dinâmicas com grupos focais com jovens de 15 a 29 anos, moradores de bairros periféricos de todas as regiões da capital de São Paulo e também da região metropolitana, como São Bernardo do Campo. Além dessas ferramentas, também foram utilizadas pesquisas estatísticas, registros de jovens em redes sociais e canais digitais, além de observações desse público em espaços como escolas, bairros e intervenções culturais.

Motivações para a pesquisa

Falar de um tema tão específico, da busca do jovem da periferia por educação, trabalho e por sua própria identidade, é importante, mesmo que já existam iniciativas que tenham esse mesmo público-alvo. Isso porque, muitas vezes, as soluções para os problemas enfrentados são pensadas por adultos que não vivem a mesma realidade do jovem. Nesse sentido, explicam-se o surgimento e a consequente popularidade de movimentos próprios, criados por jovens e para jovens, em detrimento de instituições mais tradicionais, respondendo à busca por essa sensação de pertencimento.

“O que nós temos percebido é que faltam espaços de participação que vão além da escuta. É preciso ouvir, mas também dar espaço para que esse jovem participe, faça coisas na escola, no espaço comunitário, no bairro e que esse seja um fluxo constante. Também é importante que, de alguma forma, as políticas públicas sejam porosas para aprender com o que vem do campo, com as soluções que estão sendo forjadas no espaço da escola, no centro comunitário, no bairro. Se isso influenciar outras instâncias da política, aí estamos em um bom caminho”, defende a especialista.

Outro motivo apontado pela pesquisa para esse “esvaziamento” de instituições como partidos, sindicatos e associações, é que essas organizações não fornecem à juventude a flexibilidade que ela demanda. Na criação de políticas para esse público, por exemplo, é preciso conhecer e entender suas necessidades e anseios e formular programas em parcerias com secretarias e departamentos públicos e também com grupos e organizações, como as fundadas por jovens, tão presentes nas periferias.  

Segundo Fernanda, o fato da juventude preferir espaços onde tenha voz e possa fazer suas práticas denota uma necessidade de participação. Um exemplo é o número cada vez maior de coletivos. “A maior parte destes grupos é formado por jovens, mesmo que mais velhos, muito ligados à cultura, e isso não deixa de ser um ato político. Eles propõe uma reflexão, mas que esteja ligada à uma prática, uma intervenção. E essa forma de fazer, muito imediata, está ligada ao ethos dessa geração de jovens, o que acaba por atraí-los”.

A publicação

O livro, organizado por capítulos, traz temas como novos fluxos na busca por oportunidades, a importância do território na vida dos jovens, a criação de laços e a descoberta de experiências, importância dos mentores, entre outros.

O primeiro capítulo, por exemplo, fala sobre a necessidade de diferenciar as periferias. Segundo a gestora da Fundação Itaú Social, muitas vezes a população entende periferia como um todo, enquanto cada lugar é diferente do outro, assim como seus moradores.

Essa reflexão, por sua vez, traz o debate sobre o vínculo do jovem com o território. “A forma como cada local é articulado vai fazer total diferença na forma como os jovens vão se relacionar com esse bairro, com orgulho de estar ali, entre outros fatores”. Segundo a pesquisa, o momento que o jovem começa a frequentar outros locais, seja por estudo ou trabalho, também é delicado, pois ele “ já não se reconhece como parte do bairro onde nasceu, por passar a maior parte do tempo fora e muito menos um morador dos outros bairros mais centrais que começou a frequentar”.

Outro ponto ressaltado pela especialista é a importância da formação de redes, seja em coletivos, nas escolas ou em centros comunitários. Fernanda defende que quanto mais forte uma rede estiver, mais possibilidade de interação e de buscar novas oportunidades serão oferecidas aos jovens. “A rede [de contatos] é fundamental para que esse jovens consigam alcançar novos convites, novas informações. Ter contato com pares de outros bairros, cidades, estados, países ou camadas sociais, faz total diferença para que eles acessem repertórios que ainda não têm, e que o seu leque de possibilidades se abra. Essa é uma mensagem muito forte da pesquisa, sobre a importância das redes. O jovem está em um momento de vida onde as decisões vão ser muito cruciais”.

Essas e outras discussões podem ser acompanhadas na íntegra da publicação, que está disponível no site da Fundação Itaú Social.

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