Instituto Jatobás e Instituto Sabin promovem seminário sobre inovação social

O dia 20 de setembro marcou a realização da primeira edição do Seminário de Inovação Social – Semeando diálogos e ideias, em São Paulo. O evento foi organizado pelo Instituto Jatobás e Instituto Sabin com o objetivo de contribuir para desmistificar o conceito de inovação social no Brasil e estimular a busca de inovação pelos participantes.

Com organização da Mobiliza Consultoria e SenseLab, a iniciativa contou com apoio do GIFE, da Fundação Salvador Arena e da TOTVS, além da parceria institucional do Instituto Desiderata e do Pé de Amora. Os convidados foram selecionados de acordo com sua atuação no cenário nacional de inovação social dentro do conjunto dos setores da sociedade: privado, público, terceiro setor e academia. Esses também foram os recortes que guiaram a programação.

Segundo Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, a formulação do evento carregou duas narrativas sobre inovação social e o objetivo do seminário foi ampliar a percepção e o repertório para além delas. “Uma narrativa era a inovação social como a mesma coisa que empreendedorismo social ou negócios de impacto social. A outra era o fato de que o conceito está muito vinculado apenas ao campo do terceiro setor, como sendo um território das organizações da sociedade civil. Essas são narrativas que também compõem o espectro da inovação social, mas o conceito não se resume a elas.”

À frente de uma das organizadoras do evento, Fábio argumenta que o modo de buscar inovação social é tão relevante como as ações colocadas em prática. Esse pensamento se refletiu tanto na elaboração conjunta do seminário, quando várias organizações ajudaram a pensar o formato, como na formulação da agenda do dia. “É muito mais fácil uma organização montar um evento da cabeça dela do que reunir várias organizações que têm concepções diferentes. Mas nós pudemos sim experimentar na prática esse processo mais colaborativo.”

Pensar colaborativamente também é um ponto destacado por Ivani Tristan, líder da Rede Comunidades de Inovação Social do Instituto Jatobás. Para ela, essa lógica que se reflete na construção do evento precisa aparecer também nas proposições de inovação. “Não podemos achar que temos a solução para o problema do outro. Devemos apostar na co-construção e ter a humildade de saber que existem diferentes saberes e pessoas que não têm acesso a conhecimento e oportunidades. Possibilitar esse acesso implica em não fazer necessariamente aquilo que achamos que deve ser feito.”

A coordenadora defende que uma nova perspectiva importante é possibilitar o acesso ao conhecimento e construir a solução de forma conjunta com a população. “Escala e replicação são necessárias, senão nunca vamos resolver os problemas sociais. Mas é importante destacar o método, o ‘como’ fazer, não é exatamente ‘o que’ fazer, que depende de cada localidade e cultura. O ‘como’ fazer é o que faz diferença. O desafio é o resgate do trabalho colaborativo, em rede, e as trocas a partir disso.”

Painel principal: inovação social no Brasil e no mundo

O dia de trabalho teve início com  o painel “Cenário da Inovação Social no Brasil e no mundo”, composto pela convidada internacional Louise Pulford, diretora da Social Innovation Exchange (SIX) e Saulo Barreto, co-fundador do Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI).

Louise abriu sua fala ao afirmar que, para a SIX, inovação social pode ser um produto, processo, serviço, tecnologia ou modo de pensar, e que definir esse conceito é difícil, uma vez que cada organização tem sua própria percepção. “A inovação social não é algo novo, as pessoas têm inovado durante muito tempo. Mas nos últimos dez anos o assunto está mais falado, não é algo que alguém faz sozinho no seu quintal. Para a SIX, inovação social é melhorar o jeito que fazemos coisas na sociedade de forma colaborativa, nova e melhor para o mundo.”

Segundo a diretora, ecossistemas bem sucedidos são formados por uma combinação de quatro pilares: pessoas, conhecimento, recursos financeiros e poder, conjunto que pode surgir e ser possibilitado em empresas, governos, fundações, universidades, hubs de inovação e organizações da sociedade civil (OSCs).

Para contextualizar os participantes, Louise fez um resumo das atividades e objetivos da SIX, uma social innovation exchange (em tradução livre, lugar de troca sobre inovação social) construída em valor, relações interpessoais e conhecimento. “O que fazemos é facilitar conversas com propósito. Nosso trabalho é inspirar pessoas para usar inovação social a fim de endereçar os desafios enfrentados atualmente. Trata-se de um trabalho urgente e mais do que somente conectar pessoas, precisamos de redes ativas”, explicou.

Com mais de oitenta parceiros, 75 fundações filantrópicas engajadas e ações com 25 universidades em dez países, a SIX trabalha a inovação social em diferentes frentes, de acordo com a realidade de cada ator. Sobre as universidades, por exemplo, Louise comentou que é papel da organização desafiar as instituições de ensino a repensar seus propósitos. “As universidades podem fazer muito mais do que estão fazendo atualmente. Muitas agendas de inovação estão apostando somente em ciência e tecnologia como inovação. Mas nós acreditamos que inovação social precisa fazer parte de todas as discussões sobre inovação”, ressaltou.

Saulo Barreto, co-fundador do Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI), veio em seguida para contar suas experiências em Santa Luzia do Itanhy, município localizado em Sergipe, com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Antes de explicar sua atuação no nordeste brasileiro, comentou pontos e erros comuns cometidos no âmbito da inovação social. “Quando queremos ajudar pessoas em situações vulneráveis, nós tendemos a guiar o que essas pessoas devem fazer. Para mudar, é preciso uma mudança sistêmica de mentalidade e a inovação é o elemento mais forte pelo qual podemos fazer isso.”

Para exemplificar sua fala, Saulo compartilhou com os participantes exemplos de ações do IPTI. Uma delas foi o desenvolvimento da tecnologia social Hb, que tem como objetivo permitir o diagnóstico, tratamento e controle de índices de anemia ferropriva nas escolas. A experiência, bem sucedida em Santa Luzia do Itanhy (SE), foi reaplicada em Boquim (SE), Axinim (AM) e Ilhabela (SP).

“Ao trabalhar com tecnologia ou inovação social, é fundamental entender que as comunidades que queremos ajudar não necessariamente querem a nossa ajuda. As ações devem ser feitas em longo prazo e com muita empatia, coisa que não sabemos fazer, pois temos a tendência de querer conduzir os outros.”

Para falar sobre escala, tema presente em praticamente todos as conversas durante o dia, Saulo usou o exemplo do Synapse, caderno pedagógico criado para contribuir para a melhoria na qualidade do ensino e da aprendizagem de português e matemática e trabalhar questões motoras e socioemocionais com crianças dos três primeiros anos do Ensino Fundamental. Segundo ele, o processo foi aplicado inicialmente em poucos lugares para depois ser expandido. “O problema de quem financia inovação social é pensar em escala no ponto de partida. Isso é algo a ser pensado como consequência em longo prazo. Nesse caso, houve a criação de uma rede de conhecimento: uma professora que aplicava conhecia bem o Synapse e ensinou um grupo de professoras.”

Saulo também destacou pontos importantes no processo de inovação social, entre eles a falha, a perspectiva de longo prazo e a abordagem sistêmica. “Quem faz tecnologia ou inovação social e nunca falhou, deve se preocupar. Além disso, enquanto desejarmos soluções de curto prazo, nunca teremos um projeto de nação. A maior economia que perde com isso é a economia da esperança.”

Inovação social na prática

A segunda parte do seminário foi destinada à apresentação de cases para que os participantes pudessem ver a inovação social na prática a partir da apresentação e aprofundamento de casos reais e como diferentes organizações lidam com desafios do campo. O grupo se dividiu em quatro salas, cada uma destinada à uma iniciativa: Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), Instituto Geledés, Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Coca-Cola.

A FBAC falou um pouco mais sobre a implementação e o funcionamento da metodologia Apac (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado). O Instituto Geledés apresentou o aplicativo PLP 2.0 e Juntas, criadas para prevenir e auxiliar mulheres que sofreram agressões físicas e psicológicas.  

O ICE apresentou a Força Tarefa de Finanças Sociais, chamada atualmente de Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, que acredita no poder de modelos de negócios para resolver problemas sociais. Já a Coca-Cola apresentou a inovação social presente nas principais atividades do negócio. Em todos os casos, uma apresentação inicial do caso era o ponto de partida para discussões mais aprofundadas sobre o conceito de inovação, escalabilidade, replicação, entre outros.

A parte da tarde foi destinada a três palestras inspiracionais. Mirela Domenich, diretora da Ashoka Brasil, falou sobre ações da organização que potencializam inovadores sociais no mundo todo, além do desejo de incentivar essas pessoas a reinventarem o desenvolvimento social. Segundo ela, todos podem ser inovadores sociais, desde que tenham oportunidades para desenvolver suas habilidades.

Graziella Comini, professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) explicou os diferentes tipos de escala, além da importância de inovadores e empreendedores saberem de fato o que é escalar uma solução. “Escalar envolve mudança de framing. É preciso reconhecer que você não sabe tudo e também é importante compartilhar com os outros, já que o processo de scaling envolve reflexão e troca de experiências entre pares. Escalar não significa aumentar quantitativamente, significa aumentar qualitativamente e ter um impacto mais profundo.”

Leonardo Letelier, CEO e fundador da SITAWI Finanças do Bem, escolheu falar sobre as diversas estratégias dentro do financiamento da inovação social e ressaltou que a mesma iniciativa pode ter necessidades de financiamento diferentes ao longo de sua evolução. Por fim, abordou como o tema guia do seminário, a inovação, faz-se presente no financiamento, por meio de novas iniciativas como crowdfunding, crowdequity e crowdlending.

A última parte do seminário foi destinada ao balanço sobre os quatro casos apresentados simultaneamente na parte da manhã e a uma mesa redonda, composta por palestrantes e convidados que quisessem se pronunciar.

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