Instituto Península lança pesquisa que aprofunda olhar sobre professores brasileiros

Quando o assunto é educação, muito se fala sobre a qualidade de ensino oferecida aos mais de 48 milhões de estudantes matriculados na educação básica ou sobre a infraestrutura necessária para que o aprendizado aconteça. Também é preciso, entretanto, falar dos mais de 2,2 milhões de professores, segundo as Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2018 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que entram diariamente nas salas de aula brasileiras para ensinar e aprender com seus alunos. 

Com o objetivo de ir além de números e dados e entender com mais profundidade quem são esses profissionais da educação e o que os move e motiva, o Instituto Península, juntamente com a PS2P – Observatório de comportamento e cultura, lançou o Observatório do Professor

“Dentro do nosso núcleo de estudos e pesquisas, uma das finalidades é entender com profundidade quem são os professores brasileiros, como pensam e agem e descobrir aspectos relacionados às suas personalidades. Com o levantamento de estatísticas já existente, identificamos uma lacuna e entendemos que poderíamos contribuir com esse entendimento profundo de quem é o professor no seu dia a dia. A pesquisa foi idealizada para que pudéssemos mergulhar na rotina desses professores e entender de fato o que leva essas pessoas a se tornar professores, como se sentem na profissão, quais são os desafios cotidianos”, explica Lia Glaz, gerente de projetos do Instituto Península.

As mais de três mil horas de conteúdo reúnem 30 entrevistas com especialistas e professores de escolas públicas municipais, estaduais e federais nas etapas do Ensinos Infantil, Fundamental, Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) das cinco regiões brasileiras; acompanhamento do dia a dia de dez professores, que resultou em 60 horas de filmagem; mais de mil fotos; e acompanhamento em redes sociais.

O material contribuiu para que fossem identificados seis elementos que interferem na prática do professor: identidade e experiências pessoais, reciprocidade e o peso de experiências educacionais positivas ou negativas, afeto nas relações professor-aluno, reputação, coletividade e ambiente escolar. 

Principais achados 

Segundo a gerente de projetos, ir à campo sem ideias pré-concebidas trouxe uma complementariedade ao que as estatísticas haviam mostrado previamente. 

Um exemplo é a solidão apontada por muitos professores. A importância do aspecto relacional desses profissionais foi reforçada pois, mesmo fazendo parte de uma comunidade, não há um senso de coletividade ou pertencimento, além da falta de formações, ferramentas e práticas com foco em questões de relacionamento. 

“A questão da solidão, muito apontada pelos professores, foi algo que chamou atenção. Quando olhamos os números, a maioria dos profissionais diz que gosta de se relacionar com outros professores, que está em um grupo grande dentro da escola. Então, apesar de ele estar em uma ou em várias escolas, cercado de muita gente, ele se sente sozinho”, afirma Lia.  

O depoimento de um dos professores anônimos que a pesquisa ouviu traz um outro aspecto da solidão docente: a competitividade e falta de cultura de troca entre docentes. “Uma coisa que encontrei nas escolas, em geral, de Ensino Fundamental, quando entrei na profissão foi a questão da competitividade entre professores e isso, na época, era o que mais me incomodava. Se você procurava fazer algo diferente era porque você estava querendo aparecer ou ser melhor que os outros.” 

Lia aponta que, se a inovação não for uma política da escola e um professor tentar fazer algo diferente, ele quebra o ciclo de funcionamento daquele grupo e, não raro, acaba rechaçado ao invés de incluído. “Entretanto, também encontramos lugares, como uma comunidade no interior de Pernambuco, onde a troca era institucionalizada e, por isso, fazia parte da cultura daqueles professores. Nesse caso, vimos que quando há um espaço de mobilização e de troca bem estabelecido, os resultados são muito melhores, tanto para os professores, quanto para os alunos e a escola.”

Esse cenário de despreparo para lidar com colegas também foi apontado quando o assunto é a realidade social onde a escola e, consequentemente, os alunos, estão inseridos. O assunto, que é complexo, envolve diferentes frentes, começando na formação inicial que não prepara o professor para a realidade que encontrará nas salas de aula. “A formação no Brasil, com destaque para a inicial, está muito desconectada do que acontece nas escolas. Trata-se de uma formação majoritariamente teórica que pressupõe que um conjunto de teorias vai fazer com que, desse aluno, emerja um bom professor em sala de aula.” 

Na contramão dessa realidade, Lia aponta que países bem rankeados em avaliações como o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) apresentam outros olhares quando o assunto é formação docente compartilhados pelo Instituto. “Nós acreditamos que o professor precisa ter uma boa carga teórica na formação inicial, mas que ela precisa estar tematizada na prática. Ele precisa aprender o conteúdo e a como ensiná-lo. Esse conhecimento precisa fazer sentido dentro da escola, para que, quando vá para a escola da vida real, não tenha um choque cultural tão grande quanto o dos professores que a pesquisa mostrou.” 

Investimento no professor 

Mesmo quando o assunto é novas formas de ensinar e metodologias inovadoras, como as competências para o século 21 ou socioemocionais, a formação inicial ainda apresenta dificuldades de romper com metodologias tradicionais de ensino. E isso se reflete na forma com que o profissional docente se posicionará em sala de aula.

“A formação socioemocional exige uma relação entre o aluno e o professor. Só que esse profissional precisa estar preparado para estabelecer essa relação. Não dá para um professor formar um aluno capaz de trabalhar em grupo, por exemplo, se ele não sabe fazer isso. Ele precisa estar preparado para trabalhar em grupo, para construir resiliência nele mesmo e ser empático para poder ensinar de forma empática.”

É nesse sentido que Lia reforça a crença do Instituto no professor como figura central e não mais um insumo do sistema educacional. Esse olhar integral para o docente é, segundo a gerente, fundamental para alcançar o desenvolvimento integral dos estudantes. “A nossa crença é que antes de ser um bom professor, é preciso ser um ser humano que se conhece, consegue entender e mobilizar suas emoções em prol de algo que seja positivo para ele e que seja capaz de entender os aspectos de saúde que vão ter um impacto na profissão que ele escolheu. Escolhemos dar um passo atrás e olhar para esse ser humano, acreditando que um indivíduo melhor por trás da máscara de professor, que é só um dos papéis que ele tem na vida, é capaz de mobilizar os alunos para uma aprendizagem mais significativa, que vai além do conteúdo.” 

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