Instituto Sabin e Agência Aupa lançam série sobre erros cometidos no empreendedorismo social

Não é incomum encontrar capas de revistas falando sobre empreendedores de sucesso com menos de 30 anos. Suas trajetórias são bem sucedidas e seus modelos de negócio são precisos e funcionais. Mas é possível começar a empreender sem falhar ao menos uma vez? Para mostrar que a grande maioria dos empreendedores sociais já cometeram pequenos e grandes erros, o Instituto Sabin, em parceria com a Agência Aupa, acaba de lançar a série Eu Errei.

Como o nome adianta, a websérie tem como proposta mostrar que a vida de empreendedor nem sempre é uma caminhada tranquila e que, por trás do sucesso, existem muitos tombos e ajustes.  

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, explica que a organização sentia a necessidade de falar sobre “o lado B” do empreendedorismo e adotar um viés “menos capa de revista e mais vida real”. Por isso, levou a ideia à Agência Aupa, veículo especializado na cobertura jornalística de negócios de impacto, e juntas, as duas organizações se propuseram a produzir uma série de vídeos, entrevistas e ensaios fotográficos de pessoas que precisaram mudar e adaptar suas práticas para que suas empresas prosperassem.  

“Se a gente trouxesse empreendedores para falar sobre como criaram seus negócios e o que fazem, seria ‘chover no molhado’. Então, a ideia era fazer algo diferente do [conteúdo] que já temos disponível e, junto com a Aupa, percebemos que tratar do erro seria uma boa maneira de falar sobre empreendedorismo de forma mais profunda.”

A própria decisão sobre realizar ou não o projeto poderia envolver o erro, uma vez que, segundo Fábio, havia dúvida se os empreendedores convidados a participar de fato topariam se posicionar em frente às câmeras e falar sobre suas falhas. “Tivemos uma surpresa muito positiva quando eles não só toparam, mas forneceram mais assunto e material do que esperávamos.”

O processo de escolher os entrevistados também não foi feito de forma tradicional. Em vez de a Aupa e o Instituto Sabin listarem organizações e empreendedores conhecidos, as duas instituições contataram incubadoras, aceleradoras e outras organizações que de alguma forma apoiam o campo e pediram indicações para compor o elenco de dez pessoas.

Para embasar o projeto, o gerente cita o Fuckup Nights, movimento criado na Cidade do México onde pessoas contam seus fracassos profissionais em uma sala cheia de desconhecidos. “É quase que um contra-movimento dentro desse universo do empreendedorismo que tende a falar sobre sucesso, além de questionar o que é sucesso, e no caso do empreendedorismo social, isso é ainda mais forte.”

Os episódios

Apesar de ter um modelo livre, que depende da evolução das entrevistas com cada empreendedor, os episódios seguem uma estrutura de apresentação das organizações, o erro cometido e a solução para o negócio.

Matheus Cardoso, criador do Moradigna, por exemplo, protagoniza o episódio de abertura da série. Durante 20 anos, Matheus foi morador do Jardim Pantanal – comunidade localizada às margens do Rio Tietê, na zona leste de São Paulo – e, por isso, conhece de perto os problemas relacionados às enchentes enfrentados pela população local. A ideia do Moradigna é reformar cômodos de residências dessas famílias e proporcionar uma vida mais digna.

O erro cometido por ele e sua equipe foi, além de reformar as casas, fornecer também o financiamento da reforma. Quando o projeto começou a ganhar escala, o Moradigna percebeu que a inadimplência acontecia e impedia o fechamento das contas no final do mês, o que obrigou a equipe a delegar parte do financiamento a bancos especializados em crédito para populações de baixa renda.

Ao final do episódio, Matheus comenta que empreender não se trata apenas de abrir uma empresa e sim de agregar valor na vida de outras pessoas. À frente do Instituto Sabin, Fábio assina embaixo. “A nossa agenda é fortalecer o terreno dos negócios de impacto e empreendedorismo social e entendemos que é possível fazê-lo de várias formas. Uma delas é a produção e disseminação de conteúdos de forma crítica, expondo temas que às vezes não são tão óbvios nessa agenda. E a Aupa tem a missão de ser um veículo focado em negócios de impacto. Foi um casamento que fez sentido.”

O caso de Matheus exemplifica a estrutura da série: vídeos curtos, de quatro a seis minutos, como material principal, acompanhado de uma reportagem permeada por fotos do empreendedor. “Nós gravamos um material maior do que vamos utilizar. A ideia é transformar o conteúdo bruto no texto da página – que mostra o contexto do projeto e onde a equipe errou -, no vídeo principal e depois em subprodutos. Também fazemos um book para o empreendedor porque muitas vezes eles não têm esse tipo de foto.”

A previsão é que a série tenha dez episódios que serão liberados às sextas-feiras até meados de abril.

Linguagem e comunicação

Além do site contendo todos os materiais citados acima, a página do Facebook do projeto traz memes, frases curtas e recortes dos episódios, além de utilizar uma linguagem leve e descontraída, comum às redes sociais e gerações mais jovens.

Fábio argumenta que essa é uma estratégia para alcançar outros públicos, além daqueles que já estão sensibilizados ou que já atuam com empreendedorismo social. “Ao utilizar novas linguagens digitais, também queremos testar até que ponto esse tipo de abordagem realmente alcança outros públicos, divulga e permeia mais a discussão em outros contextos.”

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