Investidores sociais privados atuam no fomento à produção e à divulgação de conhecimento científico para combater a Covid-19

Na última semana, o Instituto Serrapilheira divulgou mais um aporte para pesquisas no contexto de combate à pandemia da Covid-19 no Brasil. Junto com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a instituição vai investir R$ 5 milhões em estudos voltados ao entendimento e à busca de soluções para a doença. Os cinco projetos se inserem em três grandes áreas: biologia viral, modelos matemáticos e imunologia.

Desde o início da epidemia do novo coronavírus no Brasil, o Instituto Serrapilheira – que atua no fomento a uma cultura de ciência no país, a fim de valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade – já investiu mais de R$ 3,5 milhões no fomento à pesquisa científica específica para o combate à pandemia.

Ainda pouco explorado e apoiado pelo setor do investimento social privado, o tema do fomento à ciência e à pesquisa é tido como um dos eixos fundamentais, tanto para uma atuação mais emergencial, com foco na produção de respostas e saídas rápidas para a crise, quanto para o período pós-crise, quando toda a sociedade global precisará atuar nos impactos da pandemia e na construção do que tem sido chamado de ‘novo normal’.

Conhecimento científico: produção e disseminação

A parceria com o IDOR prevê colaborações interdisciplinares entre os dois institutos por meio do compartilhamento de dados e de diferentes expertises dos profissionais envolvidos. Os projetos financiados são coordenados por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e IDOR. A parceria também prevê apoio a jovens doutores que participarão das pesquisas.

Com um aporte de R$ 1 milhão, o Instituto Serrapilheira também está financiando o primeiro estudo brasileiro que investiga o número de infectados pelo novo coronavírus. O levantamento é uma iniciativa do governo do estado do Rio Grande do Sul e é conduzido por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) com a participação de outras universidades do estado.

A análise teve início com foco na evolução da prevalência de infecção de Covid-19 especificamente na população gaúcha, mas, em parceria com o Ministério da Saúde, foi ampliada a todo território nacional. Agentes do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) visitam casas em 133 cidades, realizam entrevistas e testam para a Covid-19. Os dados obtidos pelo estudo serão essenciais para o desenvolvimento de estratégias efetivas de saúde pública baseadas em evidências e o planejamento de medidas mais precisas de combate à pandemia.

Na área da divulgação científica, o Serrapilheira, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), está apoiando o projeto CoronaVerificado, da Agência Lupa, Google News Initiative e LatamChequea, e o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino, que se tornou uma das principais referências na disseminação de informações sobre o novo coronavírus por meio de seus perfis em diversas redes sociais.

A CoronaVerificado reúne conteúdos (em português e espanhol) conferidos por sites e agências de fact-checking em toda a América Latina, além de Espanha e Portugal. É possível fazer buscas por boatos que circulam e acompanhar as medidas tomadas por governos para frear a pandemia. A ferramenta tem sido usada por jornalistas que atuam na cobertura da crise, abrindo a possibilidade de múltiplas análises locais e regionais sobre as ondas de desinformação em torno da Covid-19.

A parceria resulta na produção de conteúdos analíticos para a imprensa. São duas colunas semanais – publicadas no portal UOL às terças-feiras e no jornal  Folha de S. Paulo às quartas, desde o início de junho.

Ainda no eixo de disseminação de conhecimento científico, o Instituto tem organizado webinars sobre financiamento de pesquisa em momentos de crise.

“Nossa estratégia foi identificar rapidamente os melhores pesquisadores em áreas como epidemiologia, imunologia e virologia para obter respostas rápidas e condizentes com o contexto brasileiro. Com vistas ao médio e longo prazo, mantivemos a essência da nossa atuação, que é apoiar pesquisadores para a produção de conhecimento que seja útil, em momentos de crise ou não”, afirma Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira.

Evidências periféricas

A Fundação Tide Setubal é outra organização do setor que viu na geração de conhecimento um caminho imprescindível para atuar no combate aos efeitos da disseminação da Covid-19 no Brasil.

“O cenário de pandemia exigiu de nós o esforço de repensar nosso planejamento e atuação. Apesar de afetar a todos, percebemos que a Covid-19 produz seus efeitos mais severos nas periferias, territórios que são objeto e sujeito centrais da nossa missão. Em meio a esse redirecionamento, entendemos que a realização de pesquisas e a produção de dados teriam um papel relevante na elucidação das diferentes dimensões do problema”, explica Fabio Silva Tsunoda, coordenador de conhecimento da Fundação Tide Setubal.

Por meio de parcerias com universidades e centros de pesquisa com reconhecida expertise – como Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), a Fundação tem fomentado a produção de conhecimento acerca do potencial das medidas de isolamento e o risco de mitigá-las, as diferentes populações que têm sido negativamente afetadas pela pandemia, comparações sobre as dinâmicas territoriais, dentre outros aspectos relacionados aos impactos da Covid-19 nas periferias urbanas.

Liderada pela professora Lumena Almeida Castro Furtado, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM), a pesquisa resultante da parceria com a Unifesp analisará os impactos sociais da pandemia e como têm sido a proposição e a vivência de medidas de prevenção, contenção, enfrentamento e combate contra a disseminação e expansão do novo coronavírus na região metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista.

Já a equipe envolvida no projeto coordenado pelo professor José Paulo Guedes Pinto, da UFABC, desenvolveu uma ferramenta que simula a transmissão comunitária do novo coronavírus. O objetivo principal é formar uma rede de pesquisa multidisciplinar para aprimorar tecnicamente o simulador, criar cenários diferentes de simulação, fazer análise estatística dos casos, construir análise do próprio modelo desenvolvido, permitir a utilização pedagógica do modelo e dar suporte para pesquisas já existentes. Até julho, o projeto contará com bolsistas de mestrado, apoio técnico e iniciação científica, além dos professores e professoras envolvidas.

O terceiro projeto financiado pela Tide Setubal é o Covid e Raça no Brasil, liderado por Márcia Lima, professora do departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, e fundadora do Afro – Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

O estudo visa colaborar para a compreensão da pandemia e de seus efeitos sobre a população negra, tendo em vista os cruzamentos de raça, gênero, classe e territórios que incidem sobre os múltiplos grupos estudados, a partir dos eixos pesquisa e monitoramento da saúde da população negra no âmbito do Afro e monitoramento das lideranças comunitárias de algumas capitais e regiões metropolitanas para o mapeamento dos desafios frente à crise. O estudo abrange ainda variáveis de mercado de trabalho e renda dessas populações, bem como o acesso e os efeitos dos programas sociais emergenciais no âmbito federal.

“Pesquisas voltadas à prevenção e ao tratamento são imprescindíveis e urgentes, pois vidas precisam ser salvas. Porém, entendemos também que outras áreas do conhecimento podem contribuir com a qualificação do debate público, por um lado, e colaborar com a proposição de medidas a serem adotadas hoje e no futuro, por outro. Esse conhecimento produzido pode colaborar, por exemplo, com a identificação das populações mais vulneráveis e com a definição de políticas públicas ou projetos sociais que terão maior eficácia no enfrentamento dos efeitos no longo prazo. As ciências humanas e exatas – e, porventura, a combinação delas – possuem os instrumentos necessários para essa finalidade”, defende Fabio.

Coordenação com setor público é essencial

Hugo observa que a produção de uma vacina contra o novo coronavírus, um dos principais assuntos no mundo todo, demanda, primordialmente, a atuação coordenada com o governo brasileiro. Isso porque o custo envolvido, tanto na etapa prévia de testes, quanto na operação efetiva para a produção em escala, é bastante alto e exige o comprometimento do setor.

“A produção de uma vacina sempre terá que envolver uma articulação internacional com países como Estados Unidos, China e os europeus, que possuem poderio tecnológico. Nós poderíamos contribuir com a organização local da etapa de testagem para a validação da vacina, o que deveria ser feito em locais como o Brasil, que tem uma alta taxa de contágio no momento, o que é essencial para o resultado. O custo de produção de uma vacina é algo em torno de 10 a 20 bilhões de reais. Só a etapa de ensaio prévio para investigar se haveria condições de produzi-la custa em média 1 bilhão de reais. Esse investimento só é possível com uma ação coordenada entre setor público, iniciativa privada e sociedade civil.”

A expectativa do diretor-presidente do Serrapilheira é que o atual contexto de emergência possa servir para fortalecer a pauta da importância da valorização e do apoio ao campo da ciência no setor do investimento social privado.

“A crise atual escancara a relevância do conhecimento científico. Sabemos que ainda são poucas as organizações do setor do investimento social privado que apoiam a ciência e a divulgação científica no Brasil e essa tem se mostrado uma pauta central para todos os outros temas historicamente explorados e apoiados pelo ISP. Estamos à disposição para compartilhar nossa experiência na área. Temos também a preocupação de promover maior diversidade no campo científico e sabemos que muitos de nossos pares, associados ao GIFE, têm mais experiência com o tema da diversidade. Essa é, portanto, uma interseção que gostaríamos de explorar.”

Para Fabio, é imprescindível cada vez mais atores, sejam eles públicos ou privados, colaborando com o ecossistema da ciência. “O setor carrega em sua dinâmica a possibilidade de alavancar soluções sistêmicas e, quando ele opera de maneira mais sinérgica, os resultados tendem a aparecer com mais agilidade e intensidade.”

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