Jornalismo das periferias como instrumento de democratização da comunicação

A comunicação periférica, jornalismo das periferias ou jornalismo das quebradas é aquela desenvolvida pelos comunicadores das periferias sobre as questões que afetam suas comunidades e diz respeito aos direitos das pessoas que habitam os territórios periféricos. A definição é de Cristina Fernandes Souza, colaboradora da rede de profissionais de comunicação de causas Narrativas.

A pesquisa Mapa do Jornalismo Periférico: passado, presente e futuro, produzida em 2019 pelo Fórum de Comunicação e Territórios de São Paulo, mapeou 97 iniciativas de jornalismo periférico na capital. “Buscamos aquilo que acreditamos ser fundamental na cobertura periférica: trazer à tona as informações úteis, histórias de cuidados, os serviços e as ações tomadas pelas periferias”, explica Vagner de Alencar, jornalista e cofundador da Agência Mural.

Entre os anos de 2013 e 2014, o Observatório de Favelas identificou 118 coletivos populares de comunicação na região metropolitana do Rio de Janeiro. Eles se dividem em páginas nas redes sociais, sites, blogs, jornais, revistas, rádios, TVs, Web-TVs, Web-Rádios e boletins eletrônicos. Apesar de desempenharem, sobretudo, o papel de divulgadores de uma realidade local (em grande parte, favelas e bairros de classe média baixa), alguns coletivos também produzem conteúdos de abrangência nacional, por meio de material compartilhado.

Agência Mural

Há 11 anos, o blog Mural, primeira plataforma de notícias das periferias de São Paulo, nasceu a partir de um trabalho coletivo de 20 pessoas com o objetivo de minimizar as lacunas de informação dessas regiões. Desde o início, a plataforma faz parte da lista de blogs da Folha de S.Paulo, e alimenta o veículo com conteúdo exclusivo de áreas invisíveis à redação do jornal e aos seus leitores.

Inicialmente, o blog tinha o compromisso de publicar uma reportagem por dia, de segunda a sexta. Desde então, lá se foram mil histórias divulgadas por mais de 100 muralistas, como são conhecidos os correspondentes locais, que já passaram pelo blog. São jornalistas, comunicadores e blogueiros residentes nos bairros e cidades da região metropolitana de São Paulo cobertas pelo portal de notícias. Pessoas especialistas em suas regiões.

Vagner aponta um importante elemento amplamente discutido no veículo de informação e vivenciado por ele: o racismo. “Dos 40 alunos matriculados em minha sala de aula [na Universidade Presbiteriana Mackenzie], cinco eram bolsistas integrais. Desses, eu e um amigo erámos os únicos negros – importante dizer: ambos, porém, de pele clara. Um semestre depois, ele abandonou o curso ao tornar-se pai e ser aprovado em concurso para segurança no Metrô.”

Na Agência, cerca de 55% dos quase 80 correspondentes espalhados pela região metropolitana se consideram pardos e pretos. “A nossa redação é diversa porque as periferias são diversas. As histórias são plurais. Essa diversidade, que também é territorial em sua função de trazer as periferias para o centro da discussão, fugindo dos estereótipos a elas, permite que esses profissionais sejam intitulados não como repórteres de minorias, mas capazes de abordar qualquer assunto para além da negritude”, explica o jornalista.

Legislação e o direito à comunicação

Segundo o relatório Direito à Comunicação, produzido e publicado pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, pode-se associar a falta de pluralidade de vozes e a baixa diversidade de pautas nos grandes veículos de comunicação à “alta concentração de propriedade no mercado da comunicação”. 

Essa concentração das concessões públicas das empresas brasileiras de telecomunicações está quase sempre conectada com a prática da “propriedade cruzada”, que se apresenta como uma  dimensão central da concentração na mídia brasileira, sendo naturalizada pelo sistema de comunicação de massa nacional.

Para o Intervozes, falta democracia no cenário brasileiro de comunicação, uma vez que tais práticas ferem a legislação nacional, que conta com dispositivos e leis para regulamentação e coibição de práticas que ameaçam o direito à comunicação e à liberdade de expressão da sociedade. 

“A comunicação social brasileira está amparada numa série de regras legais, uma delas a Constituição Federal de 1988, que possui capítulo específico sobre o tema. As principais leis que regulam o setor, no entanto, são o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT) e o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão (Decreto nº 52.795/1963), quando se trata de radiodifusão, e a Lei Geral de Telecomunicações (Lei nº 9.472/1997), que regulamenta os serviços de telefonia e conexão à internet e o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), que garante direitos aos usuários digitais”, analisa o relatório da organização.

Aporte financeiro

Na América Latina, a Open Society Foundations apoia iniciativas voltadas à proteção de jornalistas contra ameaças e violências enfrentadas durante o desenvolvimento de seu trabalho. A organização contribui também com o financiamento de reportagens investigativas independentes sobre questões que podem ser ignoradas pela grande imprensa por razões políticas ou comerciais. 

Especificamente no Brasil, apoia grupos comunitários na periferia do Rio de Janeiro, que atuam em ações de conscientização sobre medidas preventivas voltadas à pandemia e com a doação de cestas básicas. A comunicação também é uma pauta importante para a organização.

Ex-secretário nacional de Justiça no governo de Luiz Inácio Lula da Silva e diretor para América Latina e Caribe da Open Society Foundations, Pedro Abramovay analisa que muitas organizações ainda atuam sem olhar para a comunicação. “Isso é uma coisa que não funciona. A comunicação tem que ser um elemento tão importante quanto a própria política e a forma de atuação da organi­zação. Ela deve estar na concepção do projeto. Comu­nicação deve ser um tema completamente integrado à lógica inicial, à estratégia da organização.”

A informação instantânea, muitas vezes ao vivo, pode ser transmitida ao mundo dos próprios lugares onde os fatos ocorreram em questão de segundos. Mas, a realidade de acesso às tecnologias e à internet ainda é distante para inúmeras pessoas, principalmente no campo e nas periferias dos grandes centros urbanos, por questões estruturais relacionadas à falta de políticas públicas. 

Conheça iniciativas que fomentam o desenvolvimento da mídia independente e do jornalismo das periferias

Potências Periféricas: rede formada por mulheres e homens, cis ou trans, agentes de transformação. Coletividades de todas as idades que organizam arranjos produtivos sociais, econômicos, culturais e solidários pelas bordas da cidade de São Paulo e do Brasil, mobilizando soluções criativas, justas, políticas e comunitárias de mudança e uma nova narrativa das quebradas.

Mundo Negro: um dos primeiros portais feitos para negros no Brasil. No ar desde 2001, é um dos principais sites com conteúdo exclusivo para negros, produzidos por jornalistas, sendo um espaço de notória credibilidade, o que, numa era repleta de produtores de conteúdo, garante ao portal um destaque em comparação aos demais veículos voltados a esse público.

Alma Preta: agência de jornalismo especializada na temática racial com o objetivo de construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Nós, Mulheres da Periferia: site jornalístico dedicado a repercutir a opinião e a história de mulheres negras e periféricas, que busca oferecer um outro jeito de ver os acontecimentos no Brasil e no mundo e contribuir para a construção de uma sociedade plural, antirracista e não patricarcal.

Rede Wayuri: nasceu com o nome de Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, no Amazonas. Criada em 2017, é composta por 17 comunicadores indígenas de oito etnias: Baré, Baniwa, Desana, Tariana, Tukano, Tuyuka, Wanano e Yanomami.

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