“O setor empresarial tem papel fundamental na promoção de uma cultura de integridade”

Nos últimos anos, o setor privado passou a instituir práticas, protocolos e mecanismos de promoção de integridade no dia a dia, o chamado compliance. O desafio responde a uma demanda cada vez maior por ética e transparência no universo corporativo e impõe uma mudança cultural e multilateral, que envolve o alto comando das empresas, seus processos internos e toda a relação com suas cadeias de valor, bem como acordos coletivos do setor e a cobrança da própria sociedade.

O cenário está por trás da cultura de integridade, na qual se baseia o Movimento Empresarial pela Integridade e Transparência. Lançado no final de julho de 2018 pelo Instituto Ethos em conjunto com empresas e instituições parceiras, a iniciativa se propõe a engajar lideranças empresariais, governos e sociedade civil na adoção de práticas efetivas de integridade no ambiente de negócios e nas relações público-privadas para o fortalecimento da prevenção e combate à corrupção no Brasil, o aprimoramento do Sistema Nacional de Integridade (SIN) e o fortalecimento da democracia.

Um dos apoiadores do Movimento, o GIFE tem entre suas agendas estratégicas os temas da transparência e da governança, com duas iniciativas relacionadas a essas agendas: o Painel GIFE de Transparência e os Indicadores GIFE de Governança.

O Movimento Empresarial pela Integridade e Transparência é a evolução do Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção, criado em 2006. Por meio de um conjunto de ações que buscam implementar ou aperfeiçoar os processos de governança nas empresas, a iniciativa visa a contribuir para a criação e o aprimoramento de políticas públicas que promovam uma cultura de integridade no ambiente de negócios para além do compliance.

O redeGIFE entrevistou Ricardo Young, presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos, que falou sobre os avanços e os desafios do Movimento. Confira a seguir.

redeGIFE – O que motivou a criação do Movimento Empresarial pela Integridade e Transparência? Quais são seus objetivos e agendas?

Ricardo Young – Em outubro de 2017, o Instituto Ethos realizou, em São Paulo, um encontro com líderes empresariais, consultores, pesquisadores e representantes do terceiro setor para discutir e avaliar o apoio a propostas e sugestões contidas no texto base do Plano Nacional de Integridade, Transparência e Combate à Corrupção, construído a partir do estudo “Sistema de Integridade Nacional – Brasil, 2000 a 2015”, que identifica as melhorias e os retrocessos na legislação sobre o tema nesse período. A partir desse encontro, concluiu-se que seria importante definir estratégias e prioridades para o engajamento dos líderes empresariais na agenda da integridade com foco nas relações público-privadas, elencando também as demandas prioritárias ao poder público. Com o lançamento do Movimento Empresarial pela Integridade e Transparência, podemos coletivamente discutir os desafios da cultura de integridade nas organizações e nas relações com o governo e demais stakeholders, fazendo com que as empresas se apropriem dos temas e aperfeiçoem suas práticas internamente e junto às suas cadeias de valor, bem como seu posicionamento junto ao poder público, contribuindo, assim, para o desenvolvimento da cultura de integridade.

redeGIFE – O que está por trás do conceito de ‘cultura de integridade’?

Ricardo Young – A cultura de integridade é um conjunto de princípios, valores, motivações, práticas e costumes que orienta as relações que os indivíduos e as organizações estabelecem entre si e com toda a sociedade, baseando-se em valores éticos, de confiança, responsabilidade e justiça social. É uma mudança de paradigma necessária para transitarmos da lógica da conformidade à norma (compliance) para a lógica da integridade – ou seja, da norma assimilada como parte da cultura empresarial -, que viabiliza a própria sustentabilidade das organizações em diversos aspectos. Empresas sustentáveis são aquelas que têm como base relações transparentes pautadas pela confiança com seus stakeholders e compreendem que a responsabilidade social é necessária para a própria viabilidade do negócio, pois suas decisões são orientadas a gerar prosperidade compartilhada e, assim, atender à sua função social.

redeGIFE – Que compromissos assumem as empresas ao aderirem ao Movimento?

Ricardo Young – Os compromissos assumidos são relacionados ao aprofundamento e consolidação dos programas de integridade empresarial; gestão de riscos e ações de combate à corrupção; implementação ou aprimoramento de canais de denúncias de fraudes e desvios de conduta; garantias de maior transparência sobre os modelos de governança; inclusão dos gestores de compliance nas decisões estratégicas das empresas; estabelecimento de procedimentos e garantias de prevenção de atos de corrupção nas atividades de defesa de interesse. Além disso, as empresas também trazem demandas ao poder público que se relacionam com o aperfeiçoamento da legislação vigente referente aos temas anticorrupção, visando à segurança jurídica e um ambiente de negócios mais saudável.

redeGIFE – Como você avalia a trajetória do Movimento desde o seu lançamento? Fale sobre os aprendizados da iniciativa em 2018.

Ricardo Young – O Movimento tem uma agenda de longo prazo e ainda está em fase inicial, mas desde o seu lançamento, em julho do ano passado, conseguimos quase dobrar o número de empresas que aderiram a ele inicialmente. Esperamos que novas empresas se mobilizem e se engajem cada vez mais nessa ação coletiva para que consigamos conjuntamente endereçar questões prioritárias no início do novo governo. Nesse sentido, a alta liderança das empresas signatárias tem papel fundamental em se manter engajada, empregando esforços contínuos para integrar esses compromissos em suas estratégias. Temos que ter a compreensão profunda de que se queremos melhorar o ambiente de negócios e, para isso, as empresas terão que protagonizar outra cultura de negócios, para além das boas práticas.

redeGIFE – No atual contexto político, econômico e social do Brasil, como a iniciativa dialoga com os três setores da sociedade: poder público, empresas e terceiro setor?

Ricardo Young – O atual contexto é complexo e demanda, por essa razão, soluções conjuntas construídas com a participação de todos para trabalharmos esses temas de maneira integral. As empresas são protagonistas desse projeto e acreditamos que o setor empresarial tem papel fundamental na transformação social por meio do comprometimento com a promoção de uma cultura de integridade e, como poderosos agentes econômicos, contagiar o conjunto da sociedade. Mas, a iniciativa dialoga intimamente também com o poder público, já que o projeto tem onze demandas específicas para a melhoria da transparência e a relação público-privada. E o Movimento também dialoga com o terceiro setor, pois além de ser apoiado por organizações como a Rede Brasil do Pacto Global e o próprio GIFE, ele soma esforços com agendas dessas e de outras instituições que trabalham com o tema anticorrupção na realização de políticas públicas e objetivando a própria consolidação do Estado Democrático de Direito.

redeGIFE – Quais são as perspectivas para o avanço do Movimento em 2019? Fale sobre os próximos passos da agenda e a expectativa em relação à adesão de mais instituições ao Movimento no próximo período.

Ricardo Young – Em 2019, a perspectiva é que o Movimento se desenvolva continuamente em duas frentes: discutindo os temas e as ferramentas de gestão existentes para implementação dos compromissos assumidos junto às empresas a fim de apoiá-las nesse desenvolvimento e com ações de articulação para advocacy junto ao poder público. Acreditamos que novas empresas se engajarão em 2019 e que as que já são signatárias podem trazer empresas parceiras, fornecedoras e outras de sua cadeia de valor para trabalharem os temas aderindo ao Movimento. Temos a expectativa de contribuir com o amadurecimento dessas discussões e ajudar as empresas nesse desenvolvimento. Como pano de fundo, temos o grande desafio de trabalhar esses velhos dilemas com uma visão de mundo sistêmica, interdependente e integral e isso requer estratégias de longo prazo, já que mudanças culturais não acontecem da noite para o dia.

Como participar

A iniciativa é aberta à adesão de qualquer empresa interessada, independente do porte ou atividade, desde que a mesma não figure no cadastro de empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas às de escravo, a chamada “lista suja”do Ministério do Trabalho e Emprego; no Cadastro Nacional de Empresas Punidas (CNEP); e nem no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas (CEIS) do Ministério da Transparência e Controladoria Geral da União.

Para aderir, a empresa deve estar de acordo com a Carta Compromisso do Movimento e preencher um formulário online. O Movimento já conta com mais de quarenta empresas signatárias de áreas diversas e diferentes graus de amadurecimento quanto à implementação de práticas de integridade.

Um documento complementar à Carta Compromisso visa a apoiar as empresas na implementação dos compromissos assumidos e traz orientações que constituem uma visão de longo prazo acerca do direcionamento das mudanças de comportamento, políticas, procedimentos, regulamentações, leis e demais instrumentos.

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