Perguntas rumo à uma filantropia regenerativa

Artigo por Ana Biglione e Joana Mortari

O termo filantropia regenerativa é relativamente novo. Ele vem ganhando corpo no cenário internacional e começa a aparecer no contexto brasileiro. Ainda que como conceito haja essa novidade, não seria a regeneração um princípio primordial da filantropia, que se propõe a cuidar de – a curar – questões socioambientais que uma sociedade carrega de seu passado? 

Ainda assim, o termo ganha relevância ao percebermos que muitos de nossos esforços filantrópicos acabam por manter (e não transformar ou regenerar) os paradigmas que geram os desafios com os quais estamos lidando. Ou ainda ao percebermos que a maneira como as estratégias de doação são construídas são muitas vezes distantes de seus beneficiários e acabam por sustentar a visão de mundo de quem detém os recursos. Hábitos filantrópicos inconscientes são o chão que costumamos pisar e podem exacerbar as próprias condições sociais que nossas práticas desejam, a priori, transformar.

filantropia regenerativa
Foto: Bruno Andreoni

As práticas regenerativas, no entanto, são “baseadas em relacionamentos reflexivos, responsivos e recíprocos de interdependência”. Nesse sentido, o convite da filantropia regenerativa é nos acordar para a busca de uma maior coerência com as intenções mais profundas da tão desejada transformação. A forma que nos relacionamos, que fazemos filantropia não é secundária, mas central. A filantropia não conseguirá alcançar a desejada transformação sem desenvolver práticas intencionais que reflitam os valores que tenta defender. 

Algumas perguntas podem nos ajudar a refletir criticamente sobre nossas ações filantrópicas e convidá-las a uma postura mais regenerativa:

DINÂMICAS DE PODER | Como a voz daqueles que são os beneficiários das ações e doações tem sido escutada? Qual sua real participação e influência sobre como vem acontecendo as práticas filantrópicas da sua iniciativa? Onde mora o poder (de decisão) no processo de doação e, também, dentro da organização doadora? Quem decide pelo quê e o que isso significa, ou seja, o que se transforma ou se mantém das dinâmicas atuais de poder?

QUALIDADE DAS RELAÇÕES | Como é a sua relação com a organização beneficiada ou com os beneficiários da sua doação? Todos os envolvidos estão “à vontade” nesta relação? Olhando para as dinâmicas desta relação, quando você identifica controle? E quando identifica  confiança? Como essa dinâmica de controle e/ou confiança se expressa no seu processo de financiamento, prestação de contas, gestão? O que tem sido feito para manter ou mudar essas dinâmicas e cuidar das relações?

OPERACIONALIDADE | Como estão estruturados os processos operacionais e de gestão da filantropia? Estão orientados em torno de como melhor apoiar beneficiários e comunidades para alcançar sua visão de mudança social e/ou para gerir e trazer respostas – e servir – ao doador e à sua visão? Como as decisões operacionais têm impactado a transformação desejada e o quão abertas estão para mudar?

INTENCIONALIDADE | Ao considerar sua filantropia atual, que intenções estão presentes – para além de “ajudar” – e como você acompanha na prática qual finalidade elas têm realmente servido? Quais são os espaços de questionamento crítico, escuta e reflexão coletivos que têm sido criados para explorar com mais profundidade a serviço de quem – e de que – realmente estão suas ações e práticas filantrópicas? 

PARADIGMAS SUBJACENTES | Quais princípios e crenças estão presentes e dão contorno às suas práticas filantrópicas? Identificados os princípios, estão eles mais próximos às ideias de separação/controle ou de conexão/relação? Nas práticas de doação e de gestão interna da sua organização: o que tem sido potencialmente mantido/sustentado? O que tem sido potencialmente transformado/inovado? 

Uma última reflexão: se ao responder, as respostas nos parecerem óbvias, talvez seja preciso uma segunda rodada, acessando uma camada mais profunda, respondendo com mais detalhes, atenção a casos práticos, observação da própria prática, nos provocando a perceber aspectos que nem sempre são facilmente vistos ou gostamos de reconhecer.  “Em última análise, o trabalho voltado para si mesmo é uma coisa que não se dissocia do trabalho voltado para o mundo. Um reflete o outro; um é veículo do outro. Quando mudamos, nossos valores e ações também mudam”, afirma Charles Eisenstein. Ao liderar esforços filantrópicos essa coragem de refletirmos para dentro, sobre a nossa prática filantrópica, não apenas desejada, mas devida. 

 

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