Livro reúne experiências e aprendizados da filantropia e do investimento social na pandemia

*Essa reportagem integra a Série Conhecimento Emergência, uma sequência de textos destinados a explorar cada um dos artigos e estudos produzidos no âmbito do eixo 5 (Apoio ao acompanhamento e análise do conjunto das ações mobilizadas) da iniciativa Emergência Covid-19, do GIFE. 

 

Além dos cinco artigos publicados no âmbito da série Estudos Emergência Covid, a produção de conhecimento a respeito da atuação do investimento social privado (ISP) em resposta à pandemia também envolve o quarto volume da série Temas do Investimento Social, intitulado Filantropia e Investimento Social na Pandemia: Respostas, Aprendizados e Reflexões sobre o Futuro

Resultado de um amplo trabalho de pesquisa que incluiu entrevistas e estudo de dados secundários, o livro apresenta a resposta imediata do campo da filantropia e do ISP à emergência desencadeada pela Covid-19 no Brasil, bem como desafios comuns, adaptações no modo de fazer e aprendizados alcançados. Apesar de apontar tendências para o campo no período pós-pandemia, a publicação não tem a pretensão de afirmar o que, de fato, será incorporado ou não. 

O documento divide-se em cinco capítulos: a atuação do ISP em resposta à pandemia (as doações, produção de conhecimento, mobilização e estratégias de atuação); práticas de gestão interna; de grantmaking (como a ênfase nas necessidades dos donatários); de colaboração e atuação em rede e relação do ISP com a agenda pública

Tendências e histórico da filantropia 

Neca Setubal, presidente da Fundação Tide Setubal e ex-presidente do Conselho de Governança do GIFE, explica que as tendências debatidas pela publicação não foram criadas ou trazidas única e exclusivamente pela pandemia. Eram pontos já abordados que foram reforçados ou evidenciados pelo contexto de emergência. 

Logo no início, o livro aborda a perenidade da estrutura instalada e o histórico de atuação da filantropia e do investimento social que possibilitaram que as organizações do setor estivessem mais preparadas do que imaginavam para enfrentar a pandemia, que impôs um estado de alerta e emergência à toda a sociedade. 

“Ano após ano, as organizações de investimento social privado e da filantropia têm se qualificado em termos de gestão, capacidades institucionais e práticas em geral, seja na articulação com o campo ou trabalhando cada vez mais colaborativamente. Essas capacidades já internalizadas possibilitaram uma resposta melhor à pandemia”, explica Karen Polaz, colaboradora externa do GIFE e autora da publicação. 

Repensar, rever, adaptar  

Esse caminho já trilhado pelas organizações foi importante, por exemplo, para que elas tivessem clareza sobre seu papel social diante de uma emergência, mesmo com orçamentos, projetos e programas aprovados para o ano de 2020. 

Diante de um cenário tão imprevisto, as organizações puderam compreender de forma mais clara que é interessante ter uma ‘margem de manobra’ para adaptar as suas ações, estratégias e a forma como financiam o campo, inclusive levando em consideração as principais necessidades de organizações apoiadas, por exemplo. 

“Ter alguma capacidade organizacional para se adaptar e realizar mudanças foi algo que ficou muito claro. Entretanto, isso não significa abandonar sua teoria de mudança ou o propósito pelo qual a organização existe, mas entender que poder flexibilizar é mais benéfico que não fazê-lo. É possível ter adaptações e capacidade de ajuste previstas dentro de uma teoria da mudança estruturada”, aponta Karen.  

“Especialmente fundações e organizações maiores contam com um setor jurídico e compliance. [Na pandemia], elas perceberam que é possível ter mais agilidade e flexibilidade por conta da importância do diálogo com o contexto. Hoje, ou você direciona seus projetos para dialogar com o contexto, ou, paralelamente aos seus projetos, você precisa dialogar com o contexto. É sobre maior adaptalidade”, completa Neca. 

Nova forma de doar 

Um dos capítulos do livro é inteiramente dedicado a debater as mudanças na forma de fazer grantmaking. Isso porque além de o campo ter avançado em suas práticas de forma geral – organizações que não eram grantmakers experimentaram a doação durante a pandemia, inclusive de grandes quantias – muitos atores precisaram usar o caráter emergencial da demanda por recursos para rever a forma que faziam esses repasses até então. 

Entre os principais destaques estão maior ênfase nas necessidades dos donatários – com os financiadores mais abertos a ouvir e atender demandas imediatas de organizações da sociedade civil (OSCs) da linha de frente, por exemplo -, concessão de apoios não financeiros e incentivo para construção de infraestrutura digital, desburocratização de processos – que tornaram-se mais ágeis, com menos controle e mais confiança -, maior percepção sobre a importância do fortalecimento institucional e sustentabilidade das organizações – considerando que grande parte dos recursos doados não financiou as organizações, mas apenas passou por elas. 

“Uma relação menos hierárquica significa maior reconhecimento da potência das comunidades, das populações vulneráveis e das lideranças comunitárias, essas muito visibilizadas durante a pandemia. Elas demonstraram não só o conhecimento dos maiores problemas dos territórios, como souberam se organizar e desenvolver toda uma infraestrutura logística”, aponta Neca.

Fazer junto para fazer mais e melhor

Karen afirma que muitos atores entrevistados no processo de elaboração do livro afirmaram que a colaboração foi um dos grandes aprendizados de todo esse período. “O terceiro livro da série Temas ISP trata justamente de filantropia colaborativa, pois esse já era um tema que vinha sendo discutido no campo. Com a pandemia, vimos que atuar colaborativamente realmente virou uma prática porque os problemas eram tão gigantes, sistêmicos e desafiadores, que é necessário unir forças, expertises e recursos para contribuir para a solução”, defende. 

Neca também enfatiza que a dificuldade imposta pela pandemia mostrou a institutos e fundações a potência de trabalhar de forma conjunta, com mais possibilidade de impacto diante de desafios tão complexos. “Em termos de recursos é possível alcançar um montante maior, e em termos de competências e habilidades, uma fundação pode complementar a outra. É uma questão de otimizar esforços nessa direção e promover trocas de aprendizados.”

A publicação traz alguns dos aprendizados sobre o trabalho em rede, como ganho de agilidade, maior compreensão sobre a complementaridade de conhecimentos e expertises, multiplicidade de arquiteturas colaborativas, maior produção coordenada de dados e conhecimento, compartilhamento de protagonismo.

O que fica? 

Outra vivência que merece destaque é a comunicação. Ao mesmo tempo que muitas organizações dedicaram-se a compilar dados e fazer estudos sobre temas diversos relacionados à pandemia – como a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), que criou o Monitor das Doações para acompanhar o montante doado -, muitas perceberam a importância de otimizar esforços e unir dados, bem como transmitir essas informações de forma acessível. 

“Temos falado muito no GIFE sobre a importância da sociedade se apropriar de informações corretas, baseadas na ciência e em evidências, mas que seja de forma simples, amigável. Quando o público mais amplo se apropria [da informação], ele entende e é capaz de defender as causas. Isso é fundamental para que ampliemos cada vez mais o conhecimento das pessoas”, reforça Neca. 

A atenção especial à comunicação também deve ser regra dentro das organizações, ao que a investidora cita o debate sobre a transparência quanto ao recebimento, origem e aplicação dos recursos. “Exigimos isso de políticos e acabamos fazendo pouco no setor do ISP. Acredito que temos a obrigação de prestar contas porque estamos lidando com um bem público.” 

Neca acredita ainda que a pandemia trouxe maior concretude e aumentou a percepção da população acerca de temas antigos, como as desigualdades sociais, o racismo estrutural, as questões de gênero com o aumento dos números de feminicídio e e da carga de trabalho das mulheres na pandemia, a educação e as desigualdades de acesso a tecnologias para acessar o ensino remoto e outros assuntos, como ESG (sigla para Environmental, Social and Governance) e democracia. 

Saiba mais 

O livro pode ser acessado na íntegra neste link

As outras reportagens da série podem ser conferidas nos links:

–  O que a Pandemia nos Contou sobre Doar;

–  Uso de Dados do Setor Social: Aprendizados na Pandemia e Caminhos para a Interoperabilidade;

–  O papel e o protagonismo da sociedade civil no enfrentamento da pandemia da Covid-19 no Brasil;

Transparência e prestação de contas ainda são desafios para doadores e organizações, aponta estudo;

Filantropia Corporativa no Brasil: Uma Análise das Doações Empresariais em Meio à Pandemia da Covid-19.

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