Perspectivas para o investimento social privado em 2020

Um contexto político, econômico e social conturbado inaugura o ano de 2020, não só no Brasil, como no mundo.

A dez anos do prazo para o cumprimento dos objetivos e metas da agenda de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, o novo ano – de ‘entregas’ dos compromissos assumidos em 2015 – se inicia com perspectivas pouco animadoras quanto ao alcance de uma economia global mais sustentável em 2030.

No Brasil, evidências indicam profundas desigualdades com o comprometimento de praticamente todas as áreas sociais: educação, saúde, trabalho e renda, segurança pública, moradia, meio ambiente, entre outras.

Para o investimento social privado, é momento de avaliar estratégias e estruturar a atuação do próximo período em linha com as demandas da agenda pública do país.

A fim de contribuir com essa tarefa, o redeGIFE conversou com membros do Conselho de Governança do GIFE para mapear as principais oportunidades e desafios para o setor em 2020.

Confira a seguir os destaques:

Desafios

  1. Disputa de narrativas, combate a fake news, apoio à produção de conteúdos e avanço em transparência, de modo a produzir mais informação e repertório de qualidade sobre o campo socioambiental.
  2. Composição e fortalecimento de uma frente ampla de resistência aos ataques ao campo democrático.
  3. Ampliação do engajamento de empresas, governos e sociedade em geral na agenda das mudanças climáticas e no alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente relacionados à Amazônia.
  4. Convencimento da população brasileira acerca da importância da existência de uma sociedade civil organizada.
  5. Fortalecimento da gestão das organizações da sociedade civil.
  6. Aumento do apoio institucional às organizações da sociedade civil.
  7. Rompimento de um olhar endógeno, restrito às demandas institucionais das organizações, e maior conexão com o contexto do país.
  8. Equidade de gênero e raça no investimento social privado, tanto na perspectiva organizacional, dentro das equipes e dos conselhos, quanto no apoio a projetos e no fortalecimento de organizações que atuem com a pauta da diversidade.
  9. Implementação de políticas públicas baseadas em evidências para o enfrentamento dos desafios educacionais.

Oportunidades

  1. Inovações na atuação de institutos, fundações e empresas.
  2. Expansão de iniciativas inovadoras para além do eixo Rio-São Paulo, a exemplo de Rede Temática Nordeste, Impacta Nordeste e Plataforma Parceiros pela Amazônia.
  3. Aumento do engajamento da sociedade em programas e projetos capazes de promover o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a partir da grande atenção nacional e internacional às ameaças à Amazônia.
  4. Incentivo a movimento capaz de engajar diferentes atores da sociedade brasileira na agenda de mudanças climáticas a partir da sensibilização da juventude pela liderança da ativista Greta Thunberg.
  5. Realização de iniciativas em áreas como cultura, desenvolvimento comunitário e educação no contexto da Economia Criativa.
  6. Atuação como laboratórios de inovação e centros de experimentações.
  7. Realização de campanha de posicionamento e valorização da contribuição do investimento social privado para as agendas social e ambiental.
  8. Atuação territorial que possibilite experiências participativas e gerem, ao mesmo tempo, sentimento de pertencimento local e consciência das questões da sociedade contemporânea global.
  9. Advocacy em projetos de leis e políticas públicas voltadas à equidade e justiça social.
  10. Maior investimento em monitoramento e avaliação de projetos e programas do setor.
  11. Atuação coordenada e sinérgica em prol do fortalecimento das pautas prioritárias para o país.

Vozes do ISP

Veja a seguir depoimentos de alguns dos membros do Conselho de Governança do GIFE acerca das perspectivas para o setor do investimento social privado em 2020.

“2020 nos provoca a repensar nossos conceitos e abordagens no campo socioambiental. Temas até então distantes do universo de atuação do investimento social privado e outros, embora presentes, menos representativos, retornam com força, tais como fake news, produção de conteúdo independente, fortalecimento da sociedade civil, advocacy. A atuação na esfera pública passa a demandar uma revisitação de estratégias. Nesse novo contexto, estamos dispostos a rever nossos conceitos e práticas?”

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin

“É preciso investir no apoio institucional e na valorização das organizações da sociedade civil. O papel dessas organizações é fundamental para a vitalidade da nossa democracia e para que possamos avançar nas pautas sociais e ambientais. Também vejo como oportunidade posicionar estrategicamente o papel do investimento social privado. Muitos desconhecem a contribuição e a relevância do setor para o país.”

Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A

“Temos que transformar o crescente interesse nacional e internacional em torno das ameaças à Amazônia e dos jovens sensibilizados pela liderança da Greta Thunberg em um movimento capaz de engajar diferentes atores da sociedade brasileira na pauta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e das mudanças climáticas.”

Virgílio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável

“A diversidade é um dos maiores desafios do investimento social privado, tanto na perspectiva organizacional, no que se refere à equidade de gênero e raça dentro das equipes e conselhos, quanto no apoio a projetos e no fortalecimento de organizações que possam contribuir com essa equidade. Não podemos tratar a maioria da população como minoria em seus direitos. É preciso pensar em ações que reduzam as desigualdades e essa mudança passa pelo olhar das oportunidades para negros e negras em diferentes esferas.”

Neca Setubal, presidente do Conselho da Fundação Tide Setubal e do Conselho de Governança do GIFE

“Os institutos e fundações podem ocupar o papel de laboratórios de inovação para as empresas, visto que todas elas estão olhando para a inovação, porém ainda focadas no mainstream do empreendedorismo tradicional e digital. Essas instituições podem ser parte de uma estratégia integrando inovação e sustentabilidade, bem como um centro de experimentações no que se refere à diversidade e ao futuro do trabalho.”

Luis Fernando Guggenberger, head de inovação e sustentabilidade do Instituto Vedacit

“O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e é preciso que atuemos fortemente nas agendas sociais para que de fato consigamos que nossa população tenha uma educação de qualidade, alcance melhores posições no mundo do trabalho e tenha seus direitos garantidos. Para nós do investimento social privado, é um desafio, mas também uma oportunidade, atuar nas políticas públicas – a partir de evidências e sempre em parceria com o poder público – que, sabemos, são essenciais para fazer com que a população se desenvolva e tenha uma vida mais digna.”

Monica Pinto, gerente institucional da Fundação Roberto Marinho

 

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