Rede Temática de Saúde se reorganiza e volta à ativa

A percepção da Saúde enquanto estratégia de investimento social alimentou a reativação da Rede Temática de Saúde do GIFE, que não realizava encontros sistemáticos desde 2016. Dados do Censo GIFE de 2016 apontam que 37% dos associados realizaram algum projeto ou ação na área da Saúde naquele ano, sendo que 28% apoia atividades de terceiros e apenas 13% executa projetos próprios. Para se ter uma ideia, no topo da lista está a educação: 84% dos associados realizam ações nesta temática, 66% executam projetos próprios e 44% apoiam projetos de terceiros.

“Saúde é um tema muito relevante da agenda pública e para a sociedade como um todo. E, embora não esteja ainda nos temas que recebe maior investimento social privado, entendemos como imprescindível manter este espaço dentro do GIFE, que discuta e que articule esse assunto para contribuirmos, inclusive, com a reversão do quadro”, pondera Erika Sanchez Saez, gerente de Programas do GIFE.

Segundo Erika, as redes temáticas estão no DNA do GIFE, do que o grupo se propõe a ser, a fazer. “Nossas conexões com os temas prioritários da agenda pública acabaram se transformando em rede temática”, comemora.

A reorganização dos trabalhos da RT de Saúde foi iniciada no encontro que aconteceu dia 28 de junho, em São Paulo, no qual participaram 11 instituições. Na pauta, a apresentação dos dados coletados numa pesquisa com o grupo lançou luz a temas possíveis de pautarem futuras ações. Dentre as prioridades estavam doenças transmissíveis (doenças de veiculação hídrica, doenças crônicas não transmissíveis, prevenção), doenças não-transmissíveis (cardiovasculares, câncer, diabetes, nutrição), cuidado integral à saúde (diminuição dos fatores de risco, intersetorialidade, direito à saúde, atuação no território/determinantes sociais).

Segundo Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e um dos coordenadores da Rede há dois anos, a retomada fortalece o tema para além dos associados. “Com a maturidade de grupo que tínhamos naquele momento, executamos o que foi possível e nosso grande legado foi termos conseguido construir pontes importantes com o Ministério da Saúde. Estamos aqui agora numa passagem de bastão e muito felizes por este recomeço tão significativo para toda a sociedade. ”

Sob nova coordenação

Após a exposição dos assuntos sugeridos pelo grupo como possíveis norteadores das próximas atividades, foi a vez da Associação Samaritano e RaiaDrogasil, novos associados do GIFE e atuais coordenadores da Rede, se apresentarem. Com a visão de ser referência em Investimento Social Privado em saúde no Brasil, a Samaritano, fundada em 1894, constituiu um fundo patrimonial a partir de 2016 com a venda do Hospital Samaritano – gerido no modelo endowment – para financiar e viabilizar projetos sociais com foco em promoção à saúde e prevenção de doenças, prioridades na atuação da instituição. Definição da política de investimento pelo Conselho de Administração, gestão dos recursos para que o fundo seja perpétuo e rentabilidade utilizada para financiar projetos compõem as estratégias da gestão do fundo.

Para Luiz Maria Ramos Filho, superintendente de Responsabilidade Social da Associação, a atuação na Rede chegou em momento oportuno. “Participar dela está sendo fundamental porque estamos na construção do planejamento estratégico e mudamos nosso foco de atuação. Viemos do Hospital Samaritano, onde tínhamos uma ação voltada ao Ministério da Saúde com projetos pré-determinados e, agora, escolhemos atuar na promoção à saúde e na prevenção de doenças. A troca de experiências que podemos ter junto aos demais associados, os conhecimentos que certamente vamos adquirir é de vital importância para prosseguirmos no nosso trabalho”, afirma.

Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas e todos, em todas as idades, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) foi apontado como estratégico no planejamento da organização, que optou em focar nos temas mortalidade infantil, doenças crônicas, educação em saúde e saúde da mulher. “Nossa expectativa é que, de forma conjunta, construamos alternativas, saídas, novos projetos que facilitem nossa atuação, mas que também contribuam para o sistema de saúde, em que atuamos há muitos anos, pois se faz necessário um trabalho em conjunto com várias instituições para que ele cresça e seja um bem comum para toda a população”, completa.

A Associação é tida como referência no atendimento a transplante renal pediátrico. Só em 2017, foram realizados 25 transplantes em crianças de baixo peso, 310 internações, 126 procedimentos cirúrgicos e 178 pacientes acompanhados.

Izabel Toro, gerente de investimento social da RaiaDrogasil (RD), conta que a instituição deu uma guinada na área de sustentabilidade em 2015 após receberem uma consultoria de planejamento. O resultado foi a construção do tripé “Cuidar da saúde das pessoas, do negócio e do planeta” e, portanto, do Projeto Cuidar Mais. O objetivo é promover a saúde e bem-estar para que as pessoas vivam mais e melhor, estimulando a autonomia dos indivíduos para que cuidem melhor de si mesmos e fomentando a atuação de organizações sociais especializadas em levar o cuidado às outras pessoas.

Além disso, o  foco do investimento social da RD está no apoio técnico, financeiro e endosso institucional. “Apoiamos iniciativas sociais que promovem a saúde e o bem-estar da população nas comunidades onde atuamos para que desempenhem mais e melhor seus projetos. Com isso, queremos fortalecer organizações sociais que promovam mais acesso à saúde e que gerem impacto direto no diagnóstico, tratamento e/ou reabilitação de mais pessoas”, explica.

Na opinião de Izabel, a expectativa pela reativação da RT é de troca, de escuta, de criação de novos projetos comuns e de complementar a atuação institucional trazendo ou aprendendo com boas práticas. “Acredito na potência que é trabalhar em rede. É uma excelente forma de trocarmos experiências, de aprendermos uns com os outros. Estou muito feliz de retomá-la, pois vai ajudar a fortalecer o investimento social, fortalecer nossa atuação no campo da Saúde. A RD atua bastante no negócio da Saúde e, com a Rede, vamos avançar ainda mais na compreensão de como atuar melhor o investimento social nessa temática, de maneira mais transparente e democrática, situação esta que só uma atuação em rede pode propiciar”, acredita.

Mapa da Saúde

Outra parte do encontro foi organizada para que os participantes apresentassem sugestões de temas e de prioridades para a construção da agenda da Rede Temática. A unanimidade foi construir um grande mapeamento, subdividido em temas macro: “soluções”, “atuação das instituições” e “demandas do setor”. “Estudos de subtemas” e “banco de dados” também comporão a iniciativa. “Temos dados de algumas instituições, mas não sabemos qual é o mapa das organizações que atuam na área de Saúde em São Paulo. Acredita-se que dentro das mais de 330 mil OSCs no Estado, apenas 1% atue na Saúde. É ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade para fazermos este levantamento”, avalia Rogério L´Abbate Kelian, gerente de responsabilidade social da Associação Samaritano.

Pela relevância da temática e da história do setor na agenda pública, a saúde abrange muitas frentes que vão desde qualidade de vida e todos os temas ligados à prevenção, até os mais específicos como doenças concretas. “Tivemos, então, um momento de escuta nessa primeira reunião de retomada para entender se vamos focar em assuntos peculiares ou se manteremos a Rede em temas estratégicos. Entendemos que o resultado está nos levando a construir uma dimensão mais estratégica, já que a escolha inicial foi o mapeamento desse ecossistema, do que é saúde, do que é a atuação do Terceiro Setor na área,” completa Erika.

Histórico

Como forma de ajudar a reconstituir a memória da Rede, que funcionou de 2014 a 2016 na primeira fase, Gustavo Bernardino, coordenador de políticas públicas do GIFE, levantou o histórico para o grupo. Foram sete encontros que trouxeram cases de atuação social em saúde, conceitos e percepções do cenário do setor, diálogos com Ministério da Saúde e oficinas. Além disso, a organização da mesa “Articulação intersetorial: um campo de atuação na Saúde”, durante o 9º Congresso do GIFE.

“Estamos muito satisfeitos com a retomada da RT de Saúde, a partir da chegada de dois novos associados – Associação Samaritano e RaiaDrogasil, agora também coordenadores da rede –, mas ainda contando com o engajamento de institutos e fundações que participaram da sua criação e desenvolvimento entre 2014 e 2016 – como o Instituto Sabin e a Fundação Vale. O tema da Saúde é de fato um dos mais proeminentes da agenda pública contemporânea e o campo do Investimento Social Privado precisa contar com espaços de discussão, troca, articulação e cooperação no tema. E pela reunião de hoje ficou evidenciada a necessidade e o desejo de aproximação desses atores com vistas ao fortalecimento da atuação do investimento social em Saúde,” afirma Gustavo.

A próxima reunião do grupo está prevista para agosto.

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