RT de Negócios de Impacto discute importância e formas de promover diversidade racial no investimento social privado

Apesar de mais da metade da população do Brasil ser negra (50,7%), a questão racial é, senão o maior, um dos mais complexos desafios na sociedade brasileira, considerando que a inserção e participação dessas pessoas em espaços diversos, seja na escola ou em espaços de tomada de decisão, apresenta níveis muito baixos.

Para se ter uma ideia do cenário, segundo um levantamento do Instituto Ethos, dentre as 500 maiores empresas do Brasil, 80% afirmam não ter medidas para incentivar a presença de negros na equipe. Se forem consideradas posições de liderança, o número sobre para 85%. A última edição do Censo GIFE, por sua vez, destacou que 60% dos 116 respondentes afirmou que possui apenas conselheiros brancos, 14% possuem conselheiros pardos e 3% conselheiros negros.

O guia O que o ISP pode fazer por Equidade Racial?, segundo tema da série O que o ISP pode fazer por…?, cuja finalidade é chamar a atenção do ISP para desafios da agenda pública sobre os quais a atuação do setor ainda é tímida, também traz dados alarmantes. Entre eles: um jovem negro é assassinado no Brasil a cada 23 minutos; 70,8% das pessoas em situação de extrema pobreza são negras; 65,3% das mulheres assassinadas no Brasil vítimas de agressão são negras; 71% das pessoas que sofrem homicídio são negras; 61,6% da população em situação de cárcere no Brasil é negra, entre muitas outras informações.

Considerando essa realidade, a Rede Temática (RT) de Negócios de Impacto Social escolheu o tema Diversidade no Campo dos Negócios de Impacto Social para seu 9º encontro. Lançada em 2016, a RT é coordenada por Instituto Sabin, Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Fundação Grupo Boticário, nas figuras de Fábio Deboni, Célia Cruz e Fernando Campos, respectivamente.

O evento foi realizado no Impact Hub São Paulo, um coworking composto por negócios e projetos que promovem impacto positivo na sociedade no nível local e global. A reunião, que teve inscrições esgotadas, reuniu mais de 40 pessoas de fundações e institutos privados interessadas em discutir a cultura da diversidade racial tanto dentro das organizações quanto no campo dos negócios de impacto, no qual investem e atuam.

Panorama histórico

Como projetar o futuro de forma mais estratégica a partir das histórias que nos trazem até aqui? Com esse questionamento, Adriana Barbosa, idealizadora e fundadora da Feira Preta – plataforma criada em 2002 responsável por realizar anualmente o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina -, abriu o debate.

Danielle Almeida, educadora, cantora e pesquisadora sobre musicalidades afro-latinoamericanas, dividiu com os participantes por que é preciso olhar para o passado para entender os acontecimentos do presente, seja em nível social, econômico ou político. Ela iniciou sua exposição provocando os participantes e questionando-os sobre por que é preciso tocar no tema da diversidade agora e o motivo de estarem na reunião.

“Nós estamos aqui porque vivemos em uma sociedade injusta e essa injustiça é fundamentada na pobreza, que por sua vez tem cor. A pobreza e o gênero apresentam sujeitos, e esses sujeitos são negros”, afirmou.

Com a projeção de um mapa mundi, a educadora continuou a reflexão ao remontar à época das colonizações e questionar por que os portugueses optaram por sequestrar a população africana e não qualquer outra que estivesse em suas rotas marítimas e comerciais, como por exemplo a indiana, considerando a extração sistematizada de especiarias como canela e pigmentos para tecidos realizada na Índia.

“O sequestro de pessoas do continente africano aconteceu por uma busca de mão de obra qualificada, já que essas pessoas detinham a maior tecnologia daquele período. Trata-se de um continente marcado por conhecimento técnico e científico. Foi na África que aconteceu a revolução agrícola, o que mudou a vida do ser humano na Terra, permitindo a construção de cidades e o sedentarismo no lugar do nomadismo. Foi no sul do Quênia que foi desenvolvida a domesticação de animais para que ajudassem no trabalho e alimentassem o grupo. Também está na África a mina de ferro mais antiga do mundo, o que prova que africanos já conheciam a mineração. Os portugueses sequestraram essas pessoas porque elas serviam ao interesse de colonização. O capitalismo demanda produção rápida, acelerada e lucrativa. Para isso é necessária mão de obra qualificada.”

Entender os meandros da história colonial, da vinda dos navios negreiros e dos mais de 300 anos de escravidão no Brasil desemboca no período pós-abolição da escravatura e consequentemente no surgimento da pobreza no Brasil. Com a assinatura da Lei Áurea em 1888, todos os africanos escravizados – inclusive os que nasceram nas senzalas – foram libertados.

“Foi assim que surgiu a população de rua e as favelas. As pessoas libertadas pela escravidão não foram incorporadas a um sistema de trabalho, afinal, ninguém iria empregar um ex-escravo. Além disso, para que essas pessoas não ficassem ‘perambulando por aí’, houve um processo de higienização – com um bairro chamado Higienópolis -, quando essa população foi empurrada para os morros onde tinham as favas [tipo de vegetação], o que deu origem às favelas”, esclareceu Danielle.

A reflexão final da educadora apontou que não apoiar projetos de fomento e possibilidade de renda para pessoas negras é contribuir com o cenário vigente de pobreza e discriminação. “Ao não apoiar esse tipo de iniciativa, você não está trabalhando para diminuir a pobreza, o que por sua vez gera violência e essa violência irá chegar na sua casa. Quando não entendo esse histórico, não vou entender a necessidade de impactar essas pessoas. O racismo no Brasil é um problema de todos nós e precisamos pensar coletivamente em como resolver isso.”  

Linha do tempo e Proaction Café

O momento seguinte do encontro foi comandado por Adriano Santos, também da Feira Preta, e Adriana Barbosa. Juntos, fizeram uma retomada dividida por décadas. Se nos anos 80, a grande agenda no Brasil era o combate da fome, os anos 90 ficaram marcados pelo primeiro impacto da globalização e o início da conversa sobre direitos humanos. Foi nos anos 2000 que a ideia de racismo começou a ganhar mais força, quando a população negra começou a lutar pelo direito de se assumir negra e parda. Também foi nessa década que houve a migração da agenda da fome para a violência, além do surgimento de debates sobre geração de renda e economia criativa.

As décadas seguintes também apresentam marcos que contribuíram para que a sociedade chegasse no estado atual. Houve uma ascensão da população negra, que passou a frequentar universidades a partir de políticas de cotas e formar grupos. As políticas públicas de reparação e o fato da agenda de inclusão passar a ser política e não só dos movimentos sociais também ajudaram na conquista de autoestima dessa fatia da população.

“Essa população começou a se autodeclarar preta e parda. Houve e ainda há uma transição cultural de posicionamento quando as mulheres negras optam por não chapar o cabelo, por exemplo. Isso implica nas grandes empresas olhando para esse público e repensando os produtos para cabelo”, explica Adriana. Segundo a empreendedora, é necessário que pessoas negras estejam envolvidas na produção de produtos e campanhas publicitárias para a população negra o que, segundo o chamado “teste de pescoço” – analisar a raça e etnia das pessoas que dividem um espaço de trabalho com você -,  ainda não acontece.

“Essa população tem autoestima e não cabe mais dentro de uma caixinha de público beneficiário. Eu sou negra e demorei para entender. Eles querem fazer, querem ser os protagonistas. E o investimento social privado precisa dar match com isso. O jovem de hoje já se declara negro e se posiciona. Se há um tempo falávamos sobre violência, o jovem negro de hoje quer falar sobre saúde mental e bem-estar. Precisamos nos unir para criar estratégias para transcender a questão da sobrevivência”, defendeu.  

O terceiro momento do dia foi comandado por Mozana Amorim, da Mandacaru Consultoria. Depois de apresentar aos presentes o Proaction Café, metodologia de diálogo que prioriza a existência de espaços de fala e de escuta para todos, Mozana fez duas rodadas de perguntas. Na primeira, os grupos deveriam discutir o que falta para termos uma compreensão completa a respeito de diversidade racial e inclusão no ecossistema de negócios de impacto social. Já na segunda, deveriam falar sobre que passos e ações realizarão no nível pessoal, no trabalho e no ecossistema que integram.

Reflexões

Após duas rodadas de discussão, cada grupo teve seu momento de compartilhar com os demais as reflexões levantadas. Entre os apontamentos sobre o que falta para uma compreensão mais completa do tema, os participantes levantaram: necessidade de mudar a visão do investimento de curto para longo prazo; reconhecer que a desigualdade é ruim para todos; importância de um sistema de cotas para mudar lógica das contratações; estar aberto ao diálogo – o que significa baixar a guarda e conversar sobre questões difíceis; entender a diferença entre um ambiente diverso e um ambiente realmente inclusivo; perceber os vieses inconscientes como um primeiro passo para desenvolver empatia; apoiar empoderamento de jovens e novas gerações; ampliar conhecimento sobre dados históricos; necessidade de empresas terem coragem de olhar para suas estruturas internas, entre outros.

Já no questionamento sobre o que pode ser feito, os grupos apontaram prestar mais atenção sobre onde estão as pessoas negras nos ambientes que estamos – seja escola, faculdade, restaurante, trabalho -; passar a consumir produtos afro; questionar instituições com as quais irá firmar parcerias se só tiverem funcionários brancos; insistir na conversa, mesmo com pessoas que pensam diferente e ainda não estão sensibilizadas para o tema; ceder o lugar de poder; aproximação de redes já existentes; desenvolvimento de programas de aprendizagem para jovens e empreendedores, entre outras medidas.

“A população negra somos todos nós. Não é o outro. São conversas duras, espinhosas, mas devemos olhar para dentro para sairmos fortalecidos e gerar o impacto que queremos. Se não houver uma mudança de trilha, vamos continuar repetindo os mesmos erros”, completou Adriana.

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