Sociedade precisa valorizar seus professores, apontam especialistas

Durante o mês de outubro, há uma intensa mobilização para o debate a respeito de uma carreira essencial na formação e desenvolvimento de todos os cidadãos: os professores. Para dar luz a este tema, o RedeGIFE preparou uma matéria especial, que traz dois momentos. Iniciamos a nossa reflexão a respeito da carreira docente, seus desafios e possibilidades no Brasil, em uma conversa com Mônica Gardelli Franco, a nova superintendente do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

Mestre e doutora na área de currículo pela PUC-SP, Mônica atuou como docente na Educação Básica por 20 anos. Foi consultora da UNESCO e gerente executiva da Diretoria de Projetos Educacionais da Fundação Padre Anchieta. Coordenou a implantação do Programa Gestão Escolar e Tecnologias em 13 estados do país. Atuou como diretora de Formulação de Conteúdos Educacionais da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e esteve à frente da Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto.

Em seguida, apresentamos duas iniciativas promovidas por investidores sociais que têm trazido um novo olhar para o dia-a-dia dos professores, com reconhecimento e valorização de suas experiências, assim como oferecido apoio para tornar as suas práticas ainda mais impactantes em seus territórios. Confira:

RedeGIFE: Hoje, o desafio do professor é maior do que há 20 anos? O que mudou?


Mônica Franco: Acredito que hoje o desafio do professor é maior devido a diversas variáveis. Há 20 anos, não tínhamos o acesso que temos às tecnologias. O acesso às informações era mais circunscrito a alguns espaços e isso dependia muito do poder aquisitivo das famílias, ou seja, quem tinha televisão, possibilidade de ler jornais e revistas. Assim, os conteúdos além dos muros da escola, podemos dizer assim, não impactavam tão diretamente na ação educativa do ponto de vista didático.
Outro aspecto que tornava o trabalho do professor, com menos variáveis, era o perfil dos alunos com os quais ele trabalhava. Dependendo do lugar onde a escola estava localizada, já se tinha previamente o conhecimento de que o estudante era do perfil ‘x’, ‘y’ ou ‘z’. Existia um certo controle em relação à cultura, aos hábitos, ao tipo de lazer que frequentava etc. A escola estava inserida naquele território e dava um certo conforto de entender mais este espaço e se preparar para aquele lócus de atuação.
Porém, nos dias atuais, estas duas variáveis, que se conversam muito, inclusive, trazem um elemento para dentro da escola que é onde os desafios ocorrem. Hoje, os alunos têm acesso à informação por diferentes meios e eles estão cada vez mais cedo nas mãos dos nossos estudantes. E isso faz com que o perfil do professor tenha que mudar.

Só que não temos no Brasil uma formação inicial de professor que converse com essa nova realidade e isso traz um desafio amplo. Se antes a diferença intergeracional, de mudança de cultura, era de 20 anos, hoje, isso mudou para pouquíssimo tempo. Isso traz um complicador de como o professor acompanha os vários processos da criança, de aprendizagem, de desenvolvimento de leitura de mundo, que são muito diferentes. E o professor, que é de uma outra geração, tem dificuldade de fazer essa conexão.
Nesse sentido, o desafio é maior hoje, pois o professor acaba sendo obrigado a aprender em serviço e a se preparar para uma realidade na qual ele não viveu, não teve experiencia, e de uma realidade em constante mudança.
Isso sem falar em outros desafios em relação aos próprios espaços escolares e do ambiente de trabalho do professor, que mudou muito com a chegada de uma massa de estudantes das escolas, principalmente no início dos anos 2000. Ou seja, há dois cenários a serem enfrentados: a da relação com os alunos e da ambiência da escola e da dinâmica da profissão.

RedeGIFE: Qual então seria hoje o papel do professor frente a este aluno que tem acesso a tanta informação fora da escola e quer coisas novas, que façam sentidos para a sua vida? Qual deve ser sua postura, planejamento etc.?


Mônica Franco: Havia uma concepção de que o professor é aquele que detém o conhecimento, ou seja, de que ele transmite esse saber, por meio de metodologias adequadas para que os alunos possam aprenderem o que já sabe. E o que acontece agora, é que o professor ainda precisa saber, claro, mas, acima de tudo, ele precisa saber onde buscar o que está sendo construído, o que está novo, e precisa ser um elemento de problematização deste saber. Ele não vai ser só um mediador entre conhecimento e aprendizagem. Mas o papel do professor, mais do que nunca, é de um provocador para que o aluno possa ler o mundo. Hoje, o grande risco que temos com o acesso facilitado às informações via os meios tecnológicos é os estudantes serem apenas receptores passivos dessas informações. Ou seja, ele busca a informação e apreende sem nenhuma reflexão crítica.

Por isso o papel do professor é fundamentalmente este: mostrar aos alunos que o mundo tem mais coisas do que eles imaginam e ajudar a desenvolver neles uma capacidade de ler e interpretar o mundo e ver o conhecimento para que eles avancem, para que pensem de outro jeito. Sejam capazes, principalmente, de selecionar o conhecimento, o percurso que imaginam. Acredito que o que vai definir a utilização do conhecimento é a postura ética e a ética só aprendemos nos relacionamentos. E o professor tem esse papel.

RedeGIFE: Diversos estudos têm demonstrado o impacto direto de um bom professor para uma aprendizagem mais qualificada dos alunos. Porém, ao mesmo tempo, outros tantos indicadores apontam que os professores brasileiros não são valorizados. Como mudar essa dicotomia? Por que não avançamos nisso?


Mônica Franco: Nas sociedades em que o professor é reconhecido, existe esse olhar da sua importância no desenvolvimento não só da criança e do adolescente, mas o seu papel na construção do país que se quer. Os professores devem ser os estimuladores disso. Agora é preciso ficar clara a diferença de valorização e de reconhecimento. No Brasil, a gente tem o reconhecimento de que os professores são importantes, ninguém duvida disso, mas eles não são valorizados.

A sociedade é que tem que cobrar. E a valorização diz respeito também a parte monetária, claro, mas não é só financeira. Tem a ver também com as condições de trabalho que são oferecidas a eles. E isso passa pela condição física de trabalho, como oferecer os recursos necessários para desempenhar bem a sua função, e o tempo que precisa para se tornar um bom professor. Hoje há professores que precisam trabalhar em mais de uma escola, pouco sobra de tempo para se aperfeiçoar, parar preparar suas aulas e para formação. E isso acaba impactando na relação deles e no desempenho dos alunos.

RedeGIFE: Esta falta de valorização traz um outro desafio já anunciado, que é o ‘apagão’ de professores que já temos e que será ainda mais complicado nos próximos anos. Os professores não têm atuado, inclusive, em suas próprias áreas de formação. O que fazer para reverter este cenário?


Mônica Franco: Se fizermos hoje um cruzamento dos números de matrículas nos cursos de licenciatura, o número de formados daqui a alguns anos, e distribuirmos estes professores no conjunto de alunos existentes, não teremos professores suficientes. Não damos conta. E quando regionalizamos, então, a situação é ainda pior. Por isso, acredito que será preciso encontrarmos uma solução casada, com algumas possibilidades, de curto e de longo prazo.

Neste sentido, as tecnologias podem ajudar. Um grande exemplo é o Centro de Mídias de Educação do Amazonas. Com as dificuldades de deslocamentos que eles têm no Estado, que impedem, por exemplo, de um mesmo professor lecionar em várias escolas, como ocorre em São Paulo, a Secretaria de Educação do Amazonas encontrou uma solução que atende aos desafios existentes, que é garantir que os estudantes possam ter aulas com professores qualificados, por meio de videoconferência e metodologia presencial com mediação tecnológica.

Precisamos também criar estratégias para atrair mais jovens para esta formação inicial, mas isso será em médio e longo prazo. Muitos não se sentem atraídos por conta da remuneração. Assim, no horizonte das políticas, teremos que aliar essa valorização do professor à questão financeira. O Plano Nacional de Educação (PNE) tem prevista a equiparação salarial, mas a questão é que ela esbarra em outras leis, como a do teto de gasto, por exemplo, e outras que são de responsabilidade fiscal.

RedeGIFE: Diante destes desafios, qual o papel das organizações da sociedade civil?


Mônica Franco: Uma coisa que me preocupa bastante é a questão da formação inicial destes professores, de oferecer condições, ferramentas e possibilidades a este professor do ponto de vista metodológico e didático. Ou seja, o professor procura por referências, que os ajudem a desenvolver melhor o seu trabalho. Algumas OSCs atuam com iniciativas neste sentido, como o Cenpec, e acredito que é um lugar importante para atuarmos de forma objetiva com estes professores.

Hoje temos também a discussão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Acredito que temos que acompanhar o debate e a aplicação de perto, para que ela seja feita da forma mais qualificada, apoiando no monitoramento e avaliação. E, por fim, um lugar que podemos dar contribuições é no novo Ensino Médio, que vai trazer muitos desafios, do ponto de vista da implementação. A pesquisa que fizemos “Políticas para o Ensino Médio e desigualdades escolares e sociais” mostra que corremos o risco de trazer mais desigualdades. As organizações precisam também olhar para isso, a qualificação destes jovens, que já vem sendo ‘penalizados’, por não conseguirmos garantir a eles permanência ou qualidade na educação, e que, em muitos locais, não terão percurso a escolher.

Premiação aos professores

Em 2017, o Prêmio Educador Nota 10 – iniciativa da Abril em parceria com a Globo, organização Fundação Victor Civita e Fundação Roberto Marinho – chegou a sua 20ª edição. Neste ano, a premiação recebeu 5.006 inscrições, recorde absoluto da história da premiação. Em 2016, foram 4.221 projetos inscritos. São Paulo é o estado com maior participação (1.105 inscritos), seguido de Minas Gerais (561), Santa Catarina (440), Paraná (319) e Rio de Janeiro (279). Criado para valorizar e disseminar boas práticas na área de Educação pelo Brasil, o prêmio é um dos principais na área hoje.

Os 10 vencedores de 2017 já foram anunciados (veja aqui) e receberam R$ 15 mil cada um e um vale-presente de R$ 1 mil para a escola onde o projeto foi aplicado. O Educador do Ano será premiado no dia 30 de outubro, em São Paulo, com mais R$ 15 mil e um vale-presente de mais R$ 5 mil para a escola onde trabalha.

Ao longo das dez edições, mais de 67 mil professores participaram da premiação. Segundo levantamento da Fundação Victor Civita, o principal perfil de inscritos é de professoras de escolas públicas do sexo feminino, com pós-graduação: são 19.865 contra 17.141 com ensino superior completo.

Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo, destaca a importância da longevidade do prêmio, que se manteve ao longo de 20 anos, e a possibilidade de união de esforços entre os vários parceiros que mantém a premiação, apresentando um bom exemplo de articulação para o campo do investimento social privado em torno de grandes causas.

“Temos muitos desafios na educação, mas também sabemos que há muitas coisas boas acontecendo nas escolas e precisamos comemorar. Para nós, é mudança de narrativa em torno da educação. Vamos olhar para o copo meio cheio e completá-lo, mostrando essas experiências e as boas práticas e impactos na aprendizagem. A ideia é mostrar que é possível sim”, ressalta Beatriz, destacando que o tema “educação” estará em foco durante todo o mês de outubro nas ações da emissora.

Diversas matérias jornalísticas serão produzidas sobre vários aspectos do campo educacional, além dos vencedores do prêmio serem temas ou entrevistados de reportagens nos telejornais e programas. Para as mídias digitais, foram elaborados 10 vídeos, chamados de ‘Histórias de Classe’, que já estão disponíveis também aqui.

No site é possível conferir outros materiais, como o webinário “Valorização do Professor – 20 Anos do Prêmio Educador Nota 10”, que contou com a participação de Ítalo Dutra, chefe de Educação do Unicef Brasil; Mônica Pinto, gerente de Desenvolvimento Institucional da Fundação Roberto Marinho; e Janaína Barros, professora e orientadora pedagógica na Bahia, já premiada pelo Educador Nota 10.

“Valorizar o professor é criar também espaço para diálogos e escuta. E é isso que buscamos fazer. Trazê-los para dentro da programação, para que eles possam falar do dia a dia e serem atores relevantes neste debate. Que professor é esse? Que realidade é essa? O nosso esforço é abrir essa cortina”, ressalta Beatriz.

Parceria e colaboração

A professora Vânia Elizabeth Ferreira, da Escola Municipal Israel Pinheiro, em Belo Horizonte (MG), lançou o desafio: “Como estimular o protagonismo juvenil nos estudantes?”. A resposta veio em forma de uma dinâmica promovida voluntariamente por Brenda Maia, que participa do coletivo Embaixadores de Minas. A atividade inaugurou o Quero na Escola – #EspecialProfessor, projeto desenvolvido em parceria com a Fundação SM para que, no mês de outubro, os professores pudessem receber voluntários para tratar dos temas que gostariam de ver na escola.

Neste ano, o #EspecialProfessor recebeu 200 pedidos de educadores espalhados no país. Até agora, 34 atividades já foram agendadas e serão realizadas ao longo do mês. A segunda edição do especial deu passos largos, tendo em vista que, em 2016, tinham sido feitos menos de 60 pedidos, sendo que 10 professores foram atendidos, gerando 12 atividades.

Cinthia Rodrigues, uma das fundadoras e coordenadora da organização, destaca que os professores que se inscrevem na plataforma acabam por solicitar atividades que são direcionadas normalmente para seus alunos ou para a melhoria da escola, muito mais do que para sua formação, por exemplo. Entre as solicitações, por exemplo, esteve a de uma professora de Educação Infantil que pediu a visita do ‘Lobo Mau’ para uma história com seus alunos, passando por um professor que solicitou apoio para uma palestra sobre mercado de trabalho aos seus alunos do Ensino Médio, até uma educadora que gostaria de uma visita de uma biblioteca móvel para despertar o interesse à leitura dos estudantes.

“Sonhar com uma escola mais aberta, que tenha participação da comunidade, com várias atividades, é um sonho do professor também. Eles queriam poder fazer muito mais, mas normalmente estão sobrecarregados, e aí precisam de parceiros para avançar nisso”, comenta Cinthia, lembrando que, mais do que ter seus pedidos atendidos, a iniciativa tem trazido outros resultados junto aos professores também.

“Muitos disseram, inclusive, que nunca tinham parado para pensar que poderiam solicitar algo da comunidade ou com enfoques diferenciados, que vão além do currículo. Só este movimento já é muito interessante. E é benéfico para as próprias escolas. Muitas pensam que não têm parceiros, mas percebem que, ao serem claras nos seus pedidos, é possível sim serem atendidas. Conforme aparece o voluntario, até se não der certo dele desenvolver a atividade por conta de agendas ou outros desafios, a escola já entende que a sociedade não é tão fechada assim. Isso sem falar que o professor passa a se sentir mais valorizado ao perceber que há uma disposição dos voluntários a atendê-lo”, ressalta.

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