United Way Brasil e Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal lançam guia sobre relação entre empresas e primeira infância

Apesar de a maioria das empresas brasileiras ter ciência da importância do investimento na primeira infância, ainda são minoria as iniciativas nessa área. Para compartilhar boas práticas e inspirar novas iniciativas, a United Way Brasil e a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) lançaram o guia “Aposte na Primeira Infância: Qual o papel das empresas no desenvolvimento das crianças brasileiras?”.

O material começou a ser pensado a partir do apoio das duas organizações ao Instituto Great Place to Work (GPTW), que a partir de 2019 mensurará quão amigáveis as empresas brasileiras são com a causa da primeira infância, que vai do nascimento até os seis anos de idade.

Entre as 150 melhores empresas para trabalhar no Brasil, listadas em 2017 pelo GPTW, 39% oferecem licença-maternidade de seis meses ou mais e menos de 25% flexibiliza os horários para os funcionários resolverem questões familiares, como uma reunião escolar ou visita ao pediatra.

Elaborado especialmente para o setor privado, o guia apresenta iniciativas inovadoras de companhias que já adotaram a causa que exemplificam de que forma o setor pode se beneficiar das boas práticas, além de dados, pesquisas e fatos, o que, segundo Gabriella Bighetti, diretora executiva da United Way Brasil, é um ponto positivo para conversar diretamente com empresas e executivos.

Por que não investir?

Gabriella cita que a partir de uma pesquisa realizada na América Latina, a United identificou que apesar de nenhuma empresa negar a importância de investir na primeira infância, esse investimento está longe de ser ideal. Isso acontece majoritariamente por dois motivos. O primeiro, apontado no próprio guia, é o fato de que as empresas terão que investir no presente para os frutos serem colhidos no futuro, uma vez que a criação e o desenvolvimento de uma nova geração é um objetivo de longo prazo.

“Não é porque se trata de um investimento de longo prazo que não podemos falar sobre isso. Como defende o economista James Heckman, Prêmio Nobel de 2000, a primeira infância é comprovada como o melhor investimento a ser feito para o desenvolvimento e a economia de um país. Essa é uma linguagem que interessa muito às empresas, desenvolver o país e a economia, e a primeira infância tem tudo a ver com isso”, explica a diretora.

Paula Perim, diretora de comunicação da FMCSV, argumenta que, apesar desse assunto ainda ser pouco explorado pelo setor privado brasileiro, o investimento imediato traz resultados positivos em curto prazo para todos os envolvidos no processo. “Diversos estudos internacionais comprovam que planos de benefícios relacionados ao bem-estar familiar trazem retornos como melhora do ambiente de trabalho, maior produtividade dos funcionários e menos rotatividade. Portanto, há sim benefícios no curto prazo. Mas, ainda que não houvesse, é dever das empresas investir em boas práticas que valorizem a primeira infância, dando às famílias tranquilidade e condições de participarem mais de perto do desenvolvimento de seus filhos.”

Nesse sentido, Paula argumenta que é positivo que os departamentos de Recursos Humanos consigam comprovar que medidas em favor da família também trazem retorno. “O melhor desse tipo de iniciativa é que ela é benéfica por todos esses pontos de vista. Os colaboradores e suas famílias podem ter benefícios que vão privilegiar o desenvolvimento das crianças e as empresas terão funcionários mais motivados, produtivos e felizes.”

Outro motivo para a falta de investimento é o fato de as empresas não saberem o que podem fazer. Segundo Gabriella, apresentar casos inovadores é um caminho para mostrar as milhares de opções que uma organização tem quando decide atuar com a primeira infância. “O guia mostra um leque de possibilidades, desde ações de voluntariado, que muitas empresas fazem, passando pelo investimento social propriamente dito, mas também entrando nas áreas de políticas de recursos humanos ou de influência na cadeia, chegando até o produto que a empresa desenvolve que tem alinhamento com a primeira infância ou com famílias.”  

Paula, por sua vez, defende que um dos motivos para empresas brasileiras terem pouco envolvimento com a primeira infância é por ainda não enxergarem o tamanho do impacto que sua cultura e políticas podem ter no bem-estar das famílias e, consequentemente, no desenvolvimento das crianças.

Para inspirar iniciativas, o material apresenta várias medidas e ações a serem colocadas em prática por uma empresa que deseja apoiar a primeira infância. Uma delas é a oferta direta de creches, seja no próprio local ou fora, com auxílio financeiro e logístico para os pais. Também é possível reservar um espaço especialmente para lactação, possibilitar o trabalho remoto, flexibilizar horários, estender a licença-paternidade e muitas outras atitudes.  

Guia acessível

Se engana quem pensa, entretanto, que por se tratar de um tema específico, o guia é destinado somente àqueles que têm relação com a primeira infância. Qualquer empresa pode fazer uso do material.

Além disso, a diretora argumenta que o tema da primeira infância pode e deve ser levado e comunicado às diversas áreas que compõem uma empresa. “O GIFE conversa muito mais com representantes do investimento social, que podem ser interlocutores para levar o tema para outras áreas, já que não vemos o assunto como exclusivo do investimento social. Trata-se também de uma política de recursos humanos e de relacionamento na cadeia de valor, por exemplo. Institutos e fundações têm um papel de levar o tema para dentro da empresa porque é possível envolver muito mais do que o investimento social.”

Esse objetivo de falar com diferentes pessoas se reflete na linguagem utilizada no decorrer do material. Com boxes explicativos, pesquisas e dados numéricos, o texto é didático, levando conhecimento tanto àqueles que não têm aprofundamento no assunto, quanto para quem já conhece o tema.

“Como estamos falando de um investimento que esperamos que seja consistente e prolongado, o guia pretendeu não correr nenhum risco e passar a informação completa, de maneira que as pessoas que já têm muita informação tenham ainda mais, uma vez que reunimos pesquisas do mundo todo, e pessoas que estão sensíveis ao tema mas ainda não conhecem por completo a problemática também possam encontrar toda a informação. Ao preparar o guia, tivemos essa visão de ser o mais inclusivo possível, levando aquele que já sabe a um conhecimento mais profundo e trazendo aquele que sabe pouco para o conhecimento que consideramos necessário”, explica Gabriella.

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