Valorização da ação cidadã, maior colaboração e novos atores e agendas marcaram atuação coordenada do ISP em resposta à emergência

O ano de 2020 foi marcado por uma das maiores crises sanitárias da história recente. O saldo negativo da pandemia de Covid-19, para além dos números de infectados e mortos, é traduzido por uma crise global com efeitos econômicos, sociais, ambientais e políticos.

Se a resposta do poder público foi vacilante em vários momentos ao longo da crise, a sociedade civil organizada não tardou em demonstrar seu potencial de ação cívica e solidária. Foram incontáveis as iniciativas de apoio e assistência às comunidades e populações vulneráveis Brasil afora. Cenas essas protagonizadas pelos diversos atores que compõem o setor.

De coletivos comunitários e organizações de base, passando pelos movimentos sociais e organizações da sociedade civil (OSCs), esses atores foram fundamentais para fazer chegar às mãos de quem mais precisa o grande volume de doações do setor privado e do investimento social e filantropia. Foram quase 6,5 bilhões de reais em dinheiro, produtos, serviços, infraestrutura e isenção de tarifas, de acordo com o Monitor das Doações, plataforma desenvolvida pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) para monitorar a resposta do setor privado à situação de emergência.

“Evidentemente, este foi um ano atípico e muito duro que nos desafiou a todos e, ao mesmo tempo, um ano em que o melhor de nós, como sociedade e como campo, pode se fazer presente. A cifra de mais de seis bilhões de reais mapeados pelo Monitor das Doações dá conta desse vigor e é uma evidência do valor da cidadania para a superação de desafios coletivos. E esse também é um legado forte deste ano”, observa José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE.

Colaboração

Mas não foi só em volume de recursos doados que o setor privado se destacou. O fenômeno da colaboração há muito tempo tem sido debatido e incentivado no âmbito do investimento social privado – seja entre as próprias organizações que compõem o setor (institutos, fundações e empresas), seja destas com organizações da sociedade civil e com o poder público.

Esse movimento espontâneo de cooperação que marcou o país desde a chegada da pandemia ao Brasil ganhou ainda mais força com a criação de espaços e ferramentas voltadas a coordenar, otimizar e apoiar esses esforços.

É o caso da Emergência Covid-19 – Coordenação de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise. Uma realização do GIFE, a iniciativa se tornou, além de um ambiente de articulação e colaboração entre as organizações – por meio de um grupo de trabalho composto por representantes de fundações, institutos, empresas e outros investidores sociais e de diretrizes para a atuação do setor -, uma plataforma que reúne e sistematiza informações diversas sobre a atuação da filantropia e do investimento social em resposta à crise.

No site podem ser encontradas um sem número de ações mapeadas em áreas temáticas diversas, além de fundos e campanhas, webinars, guias, ferramentas e notícias.

“Vivemos um contexto de muita desconfiança e hostilidade à ação no espaço da sociedade civil. Foi fundamental termos testemunhado no país o quanto essa ação é vital no dia a dia e foi na situação de emergência para mover respostas aos desafios públicos. Momentos dramáticos aceleram a incorporação de novos recursos e modos de fazer e a ação conjunta foi chave nesse sentido”, afirma José Marcelo.

Guarda-chuva de ação

A Emergência Covid-19 ganhou tanta relevância e amplitude que passou a abarcar ainda outras iniciativas do GIFE na direção de responder aos desafios trazidos pela disseminação do vírus no país. É o caso da plataforma Sociedade Viva, iniciativa que documenta a mobilização coletiva e cidadã em face da crise, reunindo histórias e ações realizadas por todo o Brasil.

A Base de Projetos, página da plataforma Mosaico – Portal de Dados do Investimento Social que disponibiliza informações sobre iniciativas do setor, ganhou uma nova área especialmente dedicada às ações emergenciais. Nela, é possível acessar os mais de 150 projetos e programas da filantropia criados por investidores sociais para responder à pandemia.

Na mesma toada, a SINAPSE – Biblioteca Virtual do GIFE ganhou a categoria Impactos e Enfrentamento à Covid-19, onde estão reunidas todas as publicações mapeadas no âmbito da iniciativa Emergência Covid-19. Já são mais de cem conteúdos.

Em parceria com a ABCR, o GIFE lançou ainda a Central de Transparência Doações Covid-19, plataforma que reúne  informações sobre a destinação dos recursos mobilizados desde a chegada da pandemia ao país. A plataforma é colaborativa e foi lançada a partir da contribuição de diversas organizações integrantes do GT da iniciativa Emergência Covid-19. Outras organizações, investidores e gestores de fundos podem ampliar o mapeamento da destinação dos recursos doados preenchendo o formulário disponível no site.

Aprendizados e tendências

A ampla articulação mobilizada pela iniciativa Emergência Covid-19, do GIFE, resultou em diversos aprendizados e perspectivas para o futuro da filantropia e do investimento social no Brasil.

Foi possível identificar emergências históricas, como as desigualdades de raça, gênero e renda, que escancararam crises relacionadas a necessidades básicas, como moradia, água, alimentação, educação, tecnologia, etc., cenário que aponta para a necessidade de um olhar prioritário por parte do setor para áreas como saúde e assistência social, por exemplo. A essas somam-se outras emergências que tornaram o contexto de pandemia ainda mais dramático, a exemplo dos desmatamentos e incêndios na Amazônia e no Pantanal.

A ação também permitiu identificar algumas tendências nas práticas da filantropia e do investimento social, como valorização da relação com as organizações da sociedade civil e novas formas de fazer grantmaking; colaboração como estratégia central do setor; novas agendas e focos de atuação e ajustes nas agendas regulares, além de maior apropriação das novas tecnologias e ambiente virtual.

Para José Marcelo, esses aprendizados servirão como um guia para a ação futura do setor, tanto para continuar respondendo à pandemia, que ainda não chegou ao fim, como no pós-pandemia.

“Todos esses aprendizados são vitais para o desenvolvimento contínuo do campo e da ação pública no país. Que esse saldo de ações possa representar nossa homenagem às mais de 170 mil vidas perdidas só no Brasil, de modo a extrair da dor, da aspereza e da dureza incontornável deste ano uma fonte para nos tornarmos melhores.”

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