Voluntariado foi o tema do 5º Encontro da Rede de Investidores Sociais do Interior Paulista

Quais estratégias vêm sendo desenvolvidas pelas empresas e instituições para estimular a participação coletiva? Quais são os principais obstáculos para o engajamento dos colaboradores? Como gerar valor social e entender seu papel na sociedade por meio do voluntariado? Essas e outras questões nortearam o 5o Encontro da Rede de Investidores Sociais (RIS) do Interior Paulista, no dia 16/08, em Campinas (SP).

Izadora Mattiello, fundadora da Phomenta – anfitriã do evento -, abriu os trabalhos com uma apresentação sobre a instituição e juntou-se a Daniel Morais, fundador do Atados, e Ursula Longo, da Make-a-Wish, para um pontapé inicial sobre o cenário do voluntariado empresarial no Brasil e o compartilhamento de experiências inspiradoras.

Izadora explica que a Phomenta é contratada por empresas para desenvolver programas de voluntariado que envolvem competências dos colaboradores, o chamado voluntariado pró-bono. “A gente entende que as OSCs [Organizações da Sociedade Civil] são empreendimentos, fundadas e geridas por empreendedores sociais, mas ninguém as trata assim e elas também não se vêem dessa forma e, por isso mesmo, têm pouco acesso a recursos, principalmente de conhecimento. Essas ferramentas, a gente tenta trazer das empresas, dos colaboradores.”

Daniel conta que o Atados começou como um site cuja proposta era dar visibilidade às demandas de voluntariado das OSCs. Hoje já são 1.400 organizações em Brasília, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo. 85 mil pessoas começaram a realizar algum tipo de trabalho voluntário nessas cidades. Nove em cada dez vagas que entram no site conseguem voluntários.

“Quando você traz empoderamento e desenvolvimento, as pessoas têm mais engajamento e as ações têm mais impacto. Quando as pessoas estão empoderadas, elas criam as próprias ações, não vão largar no meio. E quando há um desenvolvimento, ou seja, quando as pessoas crescem por meio do trabalho voluntário, as ações são mais impactantes tanto para quem elas atendem quanto para elas próprias”, observa.

Úrsula compartilhou a experiência da Make-A-Wish, organização que realiza sonhos de crianças portadoras de doenças graves de todo o país com o auxílio de uma rede de voluntários e parceiros de sonhos que colaboram com recursos financeiros, produtos e serviços. No Brasil, são 2.130 sonhos em 10 anos de atuação.

“Quando a gente fala de realizar sonho, a gente quer algo mais profundo do que simplesmente ir lá e fazer a vontade de uma criança. A gente quer entrar na vida dessa criança e dessa família para proporcionar momentos de transformação mudando a perspectiva do eles estão vivendo”, ressalta.

Ursula também contou sobre a experiência da instituição com o voluntariado empresarial. Em 2018, a ação já envolveu nove empresas e realizou 49 sonhos. “Um sonho para a gente é um projeto com começo, meio e fim. Estamos promovendo o gerenciamento de projeto dentro do sonho. Acreditamos muito nesse projeto porque entendemos que é efetivamente um ganha-ganha. É o voluntário dentro da empresa que se sente valorizado de outra forma e a gente fazendo com que efetivamente mais pessoas estejam mobilizadas pela causa.”

Voluntariado no Censo GIFE

De acordo com o “Censo GIFE”, o número de investidores sociais privados que possuem um programa formal de voluntariado passou de 57% em 2014 para 60% em 2016. As empresas se destacam entre os respondentes mais propensos a ter programas (82%), seguidas dos institutos e fundações empresariais (69%).

Quanto ao perfil dos voluntários envolvidos, cerca de metade dos respondentes (49%) recrutam seus voluntários entre os colaboradores da empresa mantenedora. Voluntários externos estão presentes em 30% dos programas e colaboradores em 28% deles.

Em relação aos objetivos, cerca de metade dos respondentes entendem que seus programas visam o envolvimento e engajamento dos colaboradores das empresas mantenedoras (47%), enquanto 36% responderam que objetivo está no envolvimento e engajamento da comunidade local.

Oportunidades e desafios

Durante o 5o Encontro da RIS do Interior Paulista, foram apontados alguns dos principais desafios para o engajamento dos colaboradores tais como falta de liderança, transição cultural (sair do status de campanha para o foco no impacto), políticas internas de liberação de horas para o exercício do trabalho voluntário, processos não colaborativos e falta de estrutura de programas por parte de empresas e organizações.

“Algumas organizações não estão preparadas para receber voluntários. O papel e a contribuição potencial deles não está clara para a gestão da organização e isso gera conflitos e acaba desmotivando os colaboradores. Um programa de voluntariado bem estruturado é essencial para começar com o pé direito”, observa Leandro Pinheiro, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC.

Foco nas causas, construção de vínculo e investimentos financeiros para além da disponibilização da mão de obra cedida pela empresa foram elementos apontados como essenciais para alavancar o voluntariado empresarial.

Para Leandro, outro aspecto também é muito importante: “Tem que ser aberto e livre para quem está de fato interessado e não imposto, ainda que de forma não explícita ou intencional. Pela nossa experiência, nos modelos em que passa a ser uma exigência, o efeito é o inverso do desejado”.

Voluntariado na prática

Para ilustrar a atividade, Leandro, da Fundação FEAC, e Andreia Ferreira, coordenadora de projetos sociais do Instituto CPFL, compartilharam experiências das duas instituições com práticas de voluntariado.

O Programa Cidadania Ativa, da Fundação FEAC, atua em três frentes: engajamento individual, engajamento do setor empresarial e apoio e qualificação dos espaços de controle social das políticas públicas (Conselhos Municipais).

Na linha de engajamento individual, Leandro apresentou os dois projetos da instituição: o Motiva, que promove eventos de incentivo ao voluntariado e orientação a cidadãos que querem atuar como voluntários; e o Muvo, chamada de OSCs para promoção de mutirões voluntários.

Já na frente de engajamento do setor empresarial, a Fundação trabalha com o projeto Rodada Social, também uma chamada voltada a OSCs a fim de promover o contato entre empresas socialmente responsáveis e organizações da sociedade civil que contribuem para o desenvolvimento das comunidades em que atuam. As OSCs selecionadas passam por uma aceleração que inclui oficina de projetos, formação em relacionamento institucional e networking e uma oficina de pitch.

Com o projeto Gerir, a Fundação capacita OSCs para organizarem e gerirem programas de voluntariado.

Além disso, a Fundação FEAC promove ações de assessoramento voltadas aos Conselhos Municipais.

Para Leandro, o voluntariado empresarial vai gerar muito mais valor quando estiver efetivamente integrado a outras estratégias do investimento social privado. “Gerar valor social por meio do voluntariado empresarial se torna viável quando a empresa define uma causa, o território de atuação e uma estratégia de transformação social e, a partir desses elementos, constrói junto com os colaboradores formas de contribuir com esse processo.”

Andreia, do Instituto CPFL, apresentou o Semear, programa de voluntariado da Grupo CPFL, cujo objetivo é facilitar a atuação voluntária dos colaboradores do grupo, alinhando diversas ações na comunidade e promovendo o desenvolvimento de todos os públicos, interno ou externos à empresa. O programa mobiliza 1.043 voluntários, 6,5% do quadro de colaboradores.

A coordenadora contou que o programa passou por uma reestruturação em 2013 com a finalidade de transitar de um modelo focado em ações assistenciais para um foco maior no desenvolvimento sustentável das organizações e, por consequência, das localidades em que atuam.

A grande mudança esse ano, segundo Andreia, foi sair do foco na ação e no alinhamento ao negócio para o foco no impacto, com uma maior preocupação na formação e engajamento dos voluntários acerca de valores como empatia, trabalho colaborativo e coparticipação e temas como Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – agenda da Organização das Nações Unidas – e negócios de impacto, colocando o foco em projetos mais perenes nas comunidades a fim de medir os resultados e o valor gerado.

“A gente entende que voluntariado é lançar uma semente e à medida que você vai regando e se desenvolvendo, a coisa se espalha. Para nós, voluntariado é compartilhar tudo de bom que você tem, todas as ferramentas disponíveis para contribuir com o desenvolvimento sustentável das comunidades, conclui Andreia.”

Dia Nacional do Voluntário

No Brasil, o Dia Nacional do Voluntário é celebrado em 28 de agosto. A data foi instituída por meio da Lei nº 7.352, de 28 de agosto de 1985.

Daniel afirma que o primeiro passo para pessoas e empresas interessadas em iniciar um trabalho voluntário é entender a real demanda das organizações. “No Atados nossa atuação começa nas visitas às organizações para conhecer o trabalho que realizam e as demandas e potencialidades que possuem para então fazer a conexão entre as demandas e os voluntários”, explica.

Para empresas e pessoas interessadas em realizar um trabalho voluntário, Daniel recomenda o site do Atados, que possui uma infinidade de vagas de todos os tipos e causas sociais. “É conhecendo que você percebe como pode participar.”

A Rede de Investidores Sociais do Interior Paulista

Criada em agosto de 2017 com o objetivo de qualificar e fortalecer a atuação socioambiental de empresas, fundações, institutos e organizações do interior paulista, a rede possui uma agenda de encontros bimestrais e já percorreu os seguintes temas: Indicadores e Índice Paulista de Responsabilidade Social, Avaliação e Monitoramento, Governança e Transparência e Voluntariado.

O próximo encontro acontecerá no dia 25/10, na ocasião do InovaCampinas, maior evento de empreendedorismo e inovação da região. O grupo foi convidado especialmente para o Seminário de Negócios e Investimentos de Impacto Social, que integra a programação do evento.

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