2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental reflete ampliação e fortalecimento da base e maior compromisso com medição de impacto

Lançado no dia 19 de março, o 2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental, promovido pela Pipe.Social, conta com análises quantitativas e qualitativas que desvelam desafios, percepções e tendências do setor. De acordo com o estudo, dinheiro permanece sendo a principal demanda do setor, mas não só. Mentoria, comunicação e parcerias e networking aparecem como segunda, terceira e quarta maiores necessidades dos empreendedores de impacto no Brasil.

A pesquisa reflete um significativo aumento e fortalecimento da base. Foram 579 negócios na primeira edição, em 2017, contra 1.002 na atual distribuídos entre as áreas de Educação, Saúde, Serviços Financeiros, Cidadania, Cidades e Tecnologias Verdes. Foram considerados negócios com sustentabilidade financeira, ou seja, que não dependem ou dependem de subsídio para cobrir até 50% de sua despesa operacional. 76% dessa base é de negócios formalizados e 62% são negócios com mais de dois anos de existência.

O mapeamento oferece dados atuais sobre o ecossistema de negócios de impacto, o perfil do empreendedor e os recursos disponíveis e aprofunda os resultados a partir de entrevistas com empreendedores, além de análises dos principais especialistas em startups e negócios de impacto socioambiental do Brasil e do mundo. O estudo contou ainda com diversos atores do ecossistema para construir uma visão de futuro para o setor a partir da projeção das principais tendências e buscou inspirações e boas práticas que pudessem ser compartilhadas entre os empreendedores.

Bianual, o Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental foi estruturado para acompanhar a evolução do pipeline de negócios de impacto socioambiental no país a fim de contribuir com a orientação de estratégias e ações dos diversos atores que compõem o ecossistema de investimentos e negócios de impacto.

Dinheiro, aceleração e outras demandas

O recurso financeiro segue sendo a principal demanda do setor (48%), acompanhada de outras como mentoria, comunicação (22%) e parcerias e networking (19%). 43% dos negócios ainda não faturam, enquanto 8% dessa base fatura mais de R$ 1 milhão.

81% dos negócios pesquisados estão captando: 32% deles até R$ 100 mil, 32% de R$ 100 mil até R$ 500 mil, 17% de 500 mil a R$ 1 milhão e 19% mais de R$ 1 milhão. De 356 negócios que detalharam os mecanismos de captação utilizados, 60% mencionaram doação, 26% equity, 26% empréstimo e 15% dívida conversível.

Em relação às fontes de capital, entre os negócios que detalharam fontes e mecanismos – 85% da base, ou seja, 849 negócios – 42% investiram apenas capital próprio, 24% captaram apenas recursos de terceiros e 34% investiram capital próprio e captaram recursos de terceiros.

Maria Eugenia Taborda, gerente de sustentabilidade do Itaú, observa a importância da viabilidade financeira do setor tanto quanto da capacidade de impacto. “A gente fala muito do impacto socioambiental, mas precisamos lembrar que o impacto financeiro também é um grande desafio. A doação é importante, mas queremos que sejam encarados como modelos de negócio sustentável. Precisamos cada vez mais de dados que nos ajudem a criar referências e o mapeamento é um super ponto de partida. A gente precisa de mais referências, benchmarks, o mercado financeiro trabalha com esses benchmarks para gerar mais confiança por parte do investidor.”

Diversidade ainda é um dos principais desafios

Entre os setores mapeados, 46% dos negócios trazem soluções em Tecnologia Verde, 43% em Cidadania, 36% em Educação, 26% em Saúde, 23% em Serviços Financeiros e 23% em Cidades. Dos 1.002 negócios pesquisados, 62% estão na região Sudeste, 14% no Sul, 11% no Nordeste, 7% na região Norte e 5% no Centro-Oeste.

O perfil do empreendedor de impacto no Brasil é basicamente masculino, branco, jovem da região Sudeste. 32% dos negócios foram fundados apenas por homens, 18% têm mais homens entre os fundadores, 22% um quadro misto, 7% mais mulheres e 21% apenas mulheres. Analisando o perfil do principal fundador, é possível perceber que 66% são homens, entre os quais 66% são brancos, 19% pardos e mulatos, 7% negros, 3% de orientais e 1% indígena. Esse empreendedor tem entre 30 e 44 anos (53%), 21% entre 19 e 29 anos, 17% entre 45 e 54 anos e 9% acima de 55 anos.

Já as mulheres ocupam 34% do setor no lugar de fundadoras de negócios de impacto. Os homens ainda são maioria no quadro societário nas verticais de Cidades (57% têm apenas homens ou mais homens) e Tecnologias Verdes (55%). A presença de mulheres é maior nos negócios relacionados a Cidadania (36% têm apenas mulheres ou mais mulheres) e Educação (37%).

O mapeamento revela ainda uma demanda reprimida no que se refere à aceleração. 50% dos negócios afirmam que nunca foram acelerados, mas já buscaram oportunidades.

Livia Hollerbach, cofundadora da Pipe.Social e uma das coordenadoras da pesquisa, observa que o desafio feminino de cruzar ‘vale da morte’ se mantém. “Existe um perfil de empreendedor e de negócio que tende a ser acelerado e outro que está tentando, mas ainda não conseguiu. Mulheres, pessoas negras e empreendedores que ainda não se relacionam com a medição de impacto, negócios em fases iniciais e fora do Sudeste do país têm ainda um desatendimento. E nós precisamos incluir esses atores para garantir a pluralidade do ecossistema.”

ODS e impacto

A medição do alinhamento dos negócios com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é uma novidade desta segunda edição do Mapa. Produção e consumo sustentável (39%), Cidades e comunidades sustentáveis (37%), Saúde e bem-estar (32%), Trabalho decente (31%) e Redução das desigualdades (30%) estão entre os Objetivos mais alinhados aos negócios mapeados.

O aumento do compromisso com a medição de impacto é um dos destaques do novo estudo. A porcentagem de negócios que não acham necessário medir ou acompanhar seu impacto caiu de 31% para 1%. 38%, 10% a mais que o estudo anterior, definiram indicadores mas ainda não medem seu impacto formalmente e 17%, 11% a mais que a pesquisa de 2017, têm processo interno formal de medição de impacto.

Tendências projetadas para o futuro do setor

Livia aponta que no último período o setor ganhou no aspecto da disseminação conceitual em razão da maior inserção do tema na mídia tradicional e do aumento de canais especializados. “Os últimos anos foram marcados por uma baixa expectativa de crescimento e apesar disso passamos de 579 negócios para 1.002 no Mapa. A gente vê hoje um ganho importante no início da jornada, um empreendedor que preenche melhor o cadastro da Pipe, que se relaciona melhor com o conceito de impacto, mais mídias, mais fóruns proporcionando mais aprendizados e trocas. Todo esse movimento impactou o pipeline de forma muito positiva”, afirma.

O estudo projeta como principais tendências para o próximo período maior entrada de grandes empresas com aporte de investimentos e mentorias, fortalecimento do movimento de verticalização do ecossistema, projeção do Brasil no cenário internacional, além do fortalecimento do ecossistema.

Célia Cruz, diretora executiva do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), comemora a realização do mapeamento. “É um privilégio ter dados que nos permitem fazer análises muito mais estruturadas e a começar a olhar para frente. Outra celebração diz respeito ao aumento da medição de impacto pelo ecossistema”, ressalta. Para a diretora, o dado relacionado a doações reflete uma maior entrada das fundações e institutos no setor. “O Censo GIFE mostra que 50% de seus associados já fizeram algum tipo de ação relacionada a negócios de impacto”, observa.

Lina Maria Useche, cofundadora e diretora executiva da Aliança Empreendedora, destaca a necessidade do investimento no microempreendedorismo de impacto em estágio inicial.

“Um negócio precisa começar de algum lugar e normalmente os empreendedores começam com o que eles têm. Essa é a realidade do empreendedorismo no mundo. Essa primeira fase é super desafiadora e não há capital à disposição. Não temos uma cultura que permita que esses empreendedores possam errar. E para um microempreendedor que está em uma comunidade vulnerável é ainda mais difícil. Precisamos entender que vivemos em um país com uma desigualdade enorme. É preciso olhar para essa diversidade.”

Para a diretora, existe ainda um longo caminho a ser trilhado no sentido de desenvolver processos e formas de investimento que dialoguem com a realidade específica de quem empreende na ponta. “É mais caro, exige mais tempo e maior risco. Promover um ecossistema que permita que os empreendedores possam errar, testar, começar de novo faz muita diferença. Se não, vamos apoiar sempre quem está pronto. Há um caminho para democratizar o acesso a esse ecossistema e isso passa por dar chance ao erro.”

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