9ª Semana Mundial do Brincar (SMB) chama a atenção sobre a importância do brincar de corpo e alma para a infância

‘Brincar de Corpo e Alma’: um chamado sobre a importância da criança estar inteira na brincadeira, na vivência e no desenvolvimento de seu ser e estar. Este é o tema que norteia todas as atividades a serem realizadas na 9ª Semana Mundial do Brincar (SMB), que acontece até o dia 28 de maio.

A iniciativa, promovida pela Aliança pela Infância no Brasil em parceria com dezenas de outras organizações, tem como principal proposta mostrar à sociedade que o brincar é fundamental para a construção de uma infância digna. Afinal, é no brincar que as crianças desenvolvem respeito, responsabilidade, individualidade, criatividade e ludicidade com o corpo.

“O país está crescente na produção de conhecimento sobre a importância do brincar livre para a criança, porém, precisamos avançar. Ainda vemos uma infância muito acelerada, tanto no sentido do intenso contato com os meios eletrônicos, quanto um movimento de muitas famílias de querer que seus filhos e filhas cresçam muito rápido. Há situações, por exemplo, de pais que buscam escolas que já comprovem aprovação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Quando a família olha a criança na perspectiva de formação de um adulto, ela deixa de reconhecer que a criança tem que crescer com a linguagem da infância, que é justamente o brincar. É no brincar que elas de fato aprendem, descobrem o mundo, conhecem como mediar relações, estabelecem tolerância e se desenvolvem cognitivamente”, ressalta Letícia Zero, coordenadora da secretaria-executiva da Aliança pela Infância.

A proposta do tema deste ano dá sequência às questões levantadas nas semanas de anos anteriores. Em 2017, a ideia foi discutir o ritmo vital da infância, abordando a questão do tempo no brincar. E, no ano anterior, tratou-se do espaço e sua possibilidade de encantamento no brincar. Em ambos, o convite foi de pensar o ser e estar no mundo, nesse contínuo tempo-espaço. Agora em 2018, a proposta é trabalhar a corporeidade e os sentidos, seguindo um trajeto que parte da alma e desemboca no brincar livre.

A SMB conta com uma série de atividades, que são promovidas por organizações, escolas, empresas e quem mais quiser se envolver com a iniciativa. A ideia é promover muitas brincadeiras, palestras, debates, formações e mobilizações, a partir de cada realidade e demanda.

Segundo Letícia Zero, a diversidade de instituições e pessoas envolvidas é a maior riqueza da Semana Mundial do Brincar. As ações envolvem desde grupos de mães, passando por núcleos de pesquisas em universidades, até programas de voluntariado corporativo. Em 2016, por exemplo, as ações realizadas em todo o país envolveram mais de 150 mil pessoas – entre crianças, famílias, voluntários etc. Já na oitava edição, esse número chegou a 200 mil.

“Apesar do número expressivo, sabemos que há muito espaço para crescer mais, pois estes são apenas resultados que conseguimos mapear, a partir dos cadastros realizados voluntariamente no site da SMB. Como se trata de uma campanha de sensibilização para o tema, é fundamental mostrarmos o tamanho e o impacto dela, de quantas pessoas e instituições estão já reconhecendo que o brincar é fundamental para a infância. Isso, com certeza, torna o engajamento ainda maior”, comenta a coordenadora da Aliança pela Infância.

O fato é que esse movimento tem gerado também uma incidência política.  Hoje, mais de 20 cidades do Brasil já tornaram a Semana Mundial do Brincar uma atividade oficial do calendário do município, como Piracicaba e Campinas, no interior de São Paulo, além de Juiz de Fora (MG), Santos (SP) e Curitiba (PR). Na avaliação de Letícia, essa articulação é fundamental, pois legitima as diversas instâncias do município a trabalhar na Semana Mundial do Brincar e promove uma mobilização mais intensa dos diversos atores sociais das cidades.

Uma das principais novidades deste ano é que a SMB vai chegar pela primeira vez a diversos países da América Latina, como Argentina, Chile, México, El Salvador, Guatemala, Colômbia, entre outros, expandindo assim a possibilidade de discussão sobre o brincar em outras nações.

Atividades programadas

Várias organizações já se mobilizaram para propor atividades durante a SMB, inclusive associados do GIFE. O Espaço Alana, do Alana, por exemplo, participa da Semana desde a edição de 2010 e, neste ano, promoverá diversas ações no Jardim Pantanal, zona Leste de São Paulo.

Andréa Bargas, coordenadora do Espaço, destaca que o brincar já está presente em toda a rotina e atividades promovidas, seja na brinquedoteca ou na biblioteca, mas que é possível perceber a necessidade de se ampliar este olhar sobre a importância do brincar para além dos muros da organização.

“O brincar compete hoje com os celulares e a internet, além da falta de segurança, o que faz com que as crianças não brinquem mais nas ruas por cuidado dos pais. Por isso, é fundamental chamar a atenção dos adultos de que a infância precisa de tempo e espaço para brincar e o quanto ela precisa estar toda, na sua integralidade, de corpo e alma, na brincadeira”, comenta.

E é justamente para mobilizar e trazer a discussão para os adultos do território que o Alana promove, durante a SMB, o “3º Painel Infância e Ludicidade”, voltado aos educadores. Estarão presentes nos dois dias do painel – 21 e 22 de maio – Maeve Vida, coordenadora do programa Omnisciência de Educação para Paz; Rodrigo Libanio Christo, coordenador do projeto Voluntários Brincantes; Giovana Barbosa de Souza, mestre em Direitos Humanos e Democratização; e Severino Antonio, escritor e doutor em educação.

Segundo Andréa, este será o primeiro ano em que o painel terá dois dias de programação, atendendo a uma demanda crescente dos profissionais de educação do território, que solicitam iniciativas como esta, inclusive ao longo do ano.

“Entendemos que o nosso papel, dentro da SMB, é dar luz, discutir e provocar esses educadores sobre a importância do brincar no ambiente escolar. É uma forma de sensibilizá-los também para um tema que é muito relevante para o Alana e levá-lo a estes educadores que estão diariamente com as crianças. O Espaço é uma referência no território, assim como os materiais produzidos pelo Alana sobre o tema e, portanto, temos recebido muitos pedidos de palestras, encontros e eventos para discutir estes assuntos”, ressalta.

Além destas, estão previstas também atividades para as crianças, como roda de capoeira e maculelê, oficina de construção de brinquedos, contação de histórias, danças de cirandas, cantigas de roda e dinâmica de arteterapia. Para encerrar a programação da Semana Mundial do Brincar no Espaço Alana, no dia 25, os pequenos poderão brincar de explorar os sentidos em um circuito de brincadeiras sensoriais.

Outra instituição que tem se envolvido na SMB há várias edições é a empresa Vale, no Estado do Espírito Santo, desenvolvendo atividades no Parque Botânico Vale, em Vitória, o Museu Vale, em Vila Velha, e o Trem de Passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas, que liga Cariacica à capital mineira.

No Museu Vale, por exemplo, haverá uma exposição-experiência com a proposta de mostrar que tudo à nossa volta pode ser um brinquedo. Com desafios motores e incentivando a imaginação e os sentidos como olhar, tato e olfato, o espaço montado especialmente para os pequenos de 6 meses a 10 anos vai estimular a curiosidade e a concentração. As atividades irão continuar também em junho, como parte da comemoração de 20 anos do espaço dedicado à arte e à história ferroviária.

Já no fim de semana, nos dias 26 e 27, no Parque Botânico Vale, serão oferecidas atividades de arvorismo, escalada e tirolesa para as crianças até 10 anos, além de um espaço sensorial para bebês, oficinas de yoga, de brinquedos criativos e de musicalização e brincadeiras variadas como elástico, bambolê e caça ao tesouro com mediadores caracterizados como personagens infantis. Para os pais, no domingo, haverá uma palestra com o Corpo de Bombeiros sobre cuidados que podem salvar a vida de crianças e recém-nascidos em situações como engasgos e sufocamento.

Andressa Azevedo, analista de responsabilidade social da Vale, destaca que um dos principais diferenciais do engajamento da empresa na SMB, é que toda a programação foi pensada a partir das demandas trazidas pelas próprias crianças, no programa Vale Cuidar. Cerca de 100 crianças de escolas públicas e particulares foram ouvidas e participaram de oficinas que ajudar a definir as atrações oferecidas em cada espaço.

“Tudo o que fazemos no campo do investimento social privado está alinhado às políticas públicas. Assim, quando tomamos como base o Marco Legal da Primeira Infância, vemos que há um grande avanço no sentido de ver a criança não apenas como sujeito de direitos, mas também de protagonista no processo de garantia dos seus direitos. Ou seja, elas precisam ser ouvidas e participar. E essa foi a nossa proposta. Além disso, durante a programação da SMB, haverá um painel no qual as crianças poderão deixar depoimentos, desenhos etc. sobre o que sentiram ao participar da programação”.

Segundo Andressa, há também uma intensa preocupação de pensar atividades que possam ativar e fomentar o vínculo entre pais e filhos, no brincar junto, a fim de que haja de fato um espaço de construção conjunta com a criança.

“A neurociência vem dizer, por exemplo, o quão é fundamental a criação do vínculo da criança com o cuidador, o brincar livre, a brincadeira direto na natureza, que permite a descoberta e aguça a criatividade. Assim, vamos olhando para as questões colocadas e tentando trazer algumas respostas a elas. A Semana Mundial do Brincar é uma oportunidade para disseminarmos conteúdos e informações que temos discutido sobre este tema e que são fundamentais para as famílias e educadores. A primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento humano, e o livre brincar, de corpo e de alma, é uma das principais ferramentas para isso”, comenta.

Como participar

Qualquer organização ou indivíduo pode promover uma ação – o importante é que ela seja gratuita. No site da Aliança pela Infância é possível acessar o Guia da Semana Mundial do Brincar 2018, que traz vários textos de especialistas sobre a importância do brincar livre com diferentes abordagens, em territórios e contextos variados. Oferece, ainda, sugestões práticas para organizar atividades durante a SMB.

Para as famílias, por exemplo, é possível combinar com os pais da escola a levar as crianças para uma manhã de brincadeiras em uma praça ou ainda mobilizar uma tarde de leitura e troca de livros com as crianças do condomínio ou da rua onde mora. Já as escolas podem organizar palestras, debates ou rodas de conversa com especialistas de várias áreas sobre a importância do brincar e, as organizações sociais, podem abrir o espaço para a comunidade e promover um encontro de conversas e troca de brincadeiras e experiências da infância entre gerações.

Outras dúvidas podem ser esclarecidas com a Aliança pela Infância no e-mail: smb@aliancapelainfancia.org.br.

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