Seminário internacional debate a importância da leitura na primeira infância

 

Com o objetivo de discutir a cultura na primeira infância, o Sesc Pinheiros, em São Paulo, foi palco do Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na 1ª Infância. Entre os dias 13 e 15 de março, o público participou de oficinas, mesas redondas e debates com especialistas brasileiros e internacionais sobre a importância de estimular a leitura durante essa fase da vida.

Proposta pelo Instituto Emília e pela Comunidade Educativa CEDAC, a iniciativa contou com a parceria da Fundação Itaú Social e com apoio do Instituto C&A, da Associação Cultural Espanhola (ACE) e da Rede LEQT (Rede de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos), do GIFE.

Os três dias do evento seguiram a mesma estrutura: oficinas na parte da manhã, seguidas por duas mesas redondas na parte da tarde, juntamente com a exposição de uma experiência prática sobre o tema.  

Logo no primeiro dia, os participantes tiveram a oportunidade de aprender com a escritora e livreira especialista em literatura infanto-juvenil, Lara Meana, sobre mediação e leitura compartilhada e também com a ilustradora e diretora de arte, Issa Watanabe, sobre o processo criativo do brincar.

Já na parte da tarde, a primeira roda de conversa, mediada pela psicóloga clínica e psicanalista, Patrícia Pereira Leite, contou com a participação da professora e especialista em promoção da leitura e literatura infantil, Beatriz Sanjuan; da educadora, escritora e consultora nas áreas de educação, artes e literatura, Stela Barbieri; e da especialista em educação precoce e leitura na primeira infância, Maria Emilia López.

Patrícia deu início à discussão ressaltando o poder de um debate entre pessoas com diferentes formações, acreditando na somatória de experiências de cada uma. Além disso, ressaltou que a literatura é fundamental não só para a formação do leitor, mas do sujeito como um todo. Beatriz, por sua vez, usou sua fala inicial para chamar atenção para a plateia composta em sua maioria por mulheres, que dominam também a educação de crianças.

As relações humanas, principalmente a que existe entre um bebê e a mãe, conduziram grande parte da conversa. Segundo Maria Emília, vivemos um momento difícil, de desmantelamento da linguagem humana. Na mesma linha, Patrícia defendeu que é preciso ajudar as famílias a redescobrirem como é possível e necessário estabelecer elos afetivos. “O que fazer quando os pais também estão desamparados quanto à linguagem? É preciso que a gente alimente essas redes de transmissão do gesto humano. Um bebê precisa ser acolhido, e a música, acompanhada da brincadeira, traz essa carga emocional e de cultura para lembrar da relação entre as pessoas”.

Segundo as especialistas, suas experiências contam que, cada vez mais, os pais e responsáveis não sabem como falar e se conectar com suas crianças. “Hoje em dia, os filhos vivem isolados da família. Os pais vão trabalhar e as crianças ficam em outros espaços, geralmente com outros adultos. No final do dia, os pais estão preocupados em suprir essa falta que fizeram, mas simplesmente não sabem como. Como cantar depois de passar horas no trânsito para chegar até seu filho? Não é sobre isso que deve falar. Você deve mostrar para a criança que está presente, e isso só pode ser feito de uma forma: cantando, usando sua voz própria”, explicou Beatriz.

A educadora Stela defendeu que assim como presta-se atenção às crianças, é preciso também analisar os adultos e buscar outras formas para que essa interação e elo afetivo possa acontecer. “É preciso ler os pais como lemos as crianças. O que aquele corpo arcado quer dizer? Deve-se criar situações interessantes para os pais também, porque a vida adulta está muito penosa e maçante. E, talvez, a única forma de fazer isso seja estabelecendo um diálogo com todas as partes”.

A parceria entre educadores e famílias é uma das formas para que isso aconteça. Segundo Stela, é preciso fugir da sensação de “julgamento” acarretada pela observação dos responsáveis e estabelecer uma corresponsabilização pelo trabalho educacional dos pequenos.

Para as especialistas, é fato a relevância da presença da cultura desde cedo na vida de um indivíduo. Enquanto Maria Emilia defendeu que crianças que recebem cuidados afetivos culturais artísticos terão uma boa relação com o mundo subjetivo e com as demais pessoas, Patrícia destacou que tudo que envolve gesto humano só acontece com a prática e o exercício, ressaltando o papel da literatura nesse processo.  

O primeiro dia também foi marcado pela apresentação do projeto Leia para uma Criança, da Fundação Itaú Social. A superintendente da Fundação, Angela Dannemann, explicou sobre as motivações da ação, que realiza campanhas de distribuição de livros infantis por todo o país (saiba mais).

Já a mesa de encerramento contou com a presença da escritora Sara Bertrand; da professora e terapeuta, Eva Martínez; e do escritor, tradutor e professor, Rodrigo Lacerda. Juntos, eles discutiram se é realmente importante ler histórias clássicas com as crianças e como que, de alguma forma, esses enredos estão presentes no imaginário coletivo.

Sara deu início à conversa ao comentar sobre o movimento de aproximação das emoções quando as crianças estão lendo. Nesse sentido, a escritora ressaltou a necessidade de falar sobre assuntos delicados. “É preciso tratar sobre traumas, sobre assuntos que estão por baixo e deveriam estar por cima. A conversa humana e política no futuro vão depender de nossas crianças. Suprimir o desejo, sexo, luto e morte é muito prejudicial”.

A fala foi endossada por Eva, que defende a educação deve estar sempre a favor do crescimento. “Eu acredito que não debater esses temas tem efeitos muito negativos, porque dessa forma as crianças não crescem completas. Eu trabalho com pessoas, por exemplo, que esqueceram que podem sentir raiva, porque há muito tempo vem aprendendo que serão recompensadas caso se comportem e obedeçam. A literatura que ensina que crianças não devem sentir raiva não é boa porque não é real”.

Rodrigo completou ao citar o exemplo da morte d’O Pequeno Príncipe no final do clássico. “As crianças não se assustam com aquilo que é natural se for falado naturalmente”.  

A cultura na primeira infância

A importância de discutir temas difíceis com as crianças, com o nascimento e a morte, exposto na mesa de encerramento do primeiro dia, também foi abordada, no terceiro e último dia, pela ilustradora e escritora Paloma Valdivia; pela ilustradora e diretora de arte, Issa Watanabe; pelo doutor em Didática da Literatura, Lucas Ramada; e pela ilustradora e designer, Laura Teixeira, no debate “Arte, poesia e mundo digital na primeira infância”.

Paloma usou sua vivência pessoal para ressaltar a necessidade de tratar sobre os temas da vida, como fez em todos os seus livros. Segundo a ilustradora, a única forma de criar um mundo melhor é prestar atenção na infância das crianças de agora e, com isso, ler boas histórias com elas. “Quando eu era pequena, ninguém me explicou carinhosamente sobre a morte. Minha família falava que meu gato se ‘apaixonou’ e foi embora. São temas difíceis, mas deve-se falar sobre o ciclo da vida”.

Lucas, por sua vez, destacou o caminho que ainda é preciso percorrer quando se trata de entender a literatura no mundo digital. Autor de “EstoNoVaDeLibros”, primeiro canal de divulgação sobre ficções digitais para crianças no Instagram, ele ressaltou a necessidade de uma mediação e curadoria do conteúdo digital. “Mães, pais, professores, são todos mediadores. Todos, em coletivo, devem selecionar conteúdos e entender o que fazer com todas essas telas. Ao final, trata-se de maximizar o tempo de leitura compartilhada com as crianças e, para isso, precisamos de boas obras que sejam acessíveis no sentido econômico e comunicativo”.

A última mesa do Seminário, intitulada “Quem cuida dos futuros leitores?”, foi dedicada a debater as políticas públicas sobre o tema de leitura, e contou com a participação de escritora e educadora Yolanda Reyes; da pesquisadora em estudos literários, Lorena Veloza; da especialista em projetos digitais para a cultura e a educação, Inés Miret; e do pesquisador, escritor e ex-secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura do Brasil, José Castilho Neto.

A diretora-presidente da Comunidade Educativa CEDAC, Tereza Perez, ficou responsável pela mediação e abriu a conversa ressaltando a importância dos movimentos da sociedade civil, empenhados na busca pela garantia de direitos, no sentido de tornar as políticas de governo à políticas de Estado.

Depois de compartilharem experiências de seus países, os especialistas concordaram que, apesar de avanços em determinadas áreas, outras ainda têm muito o que caminhar, principalmente no que diz respeito à alinhar o diálogo e a prática, com, por exemplo, a criação de indicadores para avaliar as políticas públicas já existentes.

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