ComNet 2018 ressalta importância da comunicação em tempos de crise político-econômica

Importância da diversidade e inclusão, posicionamento político e cuidado com a mensagem para o diálogo amplo e efetivo e eficácia do storytelling foram alguns dos destaques da ComNet (The Communications Network Annual Conference) 2018.

Reconhecido como a principal conferência internacional de comunicação voltada à área social, o evento aconteceu entre 10 e 12 de outubro, em São Francisco (Califórnia), nos Estados Unidos.

Pelo terceiro ano consecutivo, o GIFE participou do evento acompanhado de uma delegação brasileira. Desde 2015, representantes da instituição, de associados e outras organizações do Brasil se organizam para estar presentes na conferência. Este ano, participaram representantes do GIFE, Fundação Lemann, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Instituto Alana e Mc&Pop Comunicação.

Mariana Moraes, gerente de comunicação do GIFE, ressalta o foco do evento na promoção de um espaço para troca de ideias, saberes, experiências e habilidades. O ComNet é um congresso que valoriza muito o networking, promove vários momentos para isso, estimulando o tempo todo as conversas entre as pessoas, o encontro, a troca, dando até mais importância a esse aspecto do que às atividades e à própria estrutura do evento. Eles falam todo o tempo, olhe a sua volta, se conecte.”, conta.

Nesse sentido, a gerente destaca ainda a preocupação com o formato. “Há essa preocupação em como as pessoas aterrissam no evento com a promoção de um espaço estimulante, provocador, criativo, que cria empatia, que usa o humor para fazer com que as pessoas se entreguem para aquilo. Para nós comunicadores, o evento é um espetáculo por si só.”

Foram três dias de evento com uma programação intensa. Na quarta-feira (10/10), aconteceram workshops pré-conferência, visitas a instituições locais e um tour ao final do dia em um dos pontos da cidade.

A abertura das mesas aconteceu na quinta-feira (11/10) e contou com a participação de Lena Waithe, atriz, produtora e roteirista americana, e do jornalista e locutor Joshua Johnson. Numa espécie de talk show, Joshua entrevistou Lena, considerada uma das atuais promessas de Hollywood. A partir de suas experiências pessoais, a artista desafiou o público a pensar fora das normas convencionais.

Laura Leal, coordenadora de comunicação do Alana, chama atenção para uma das marcas desta edição do ComNet, a importância da diversidade, destacada já na abertura do congresso, referindo-se à condução da atividade ter sido feita por duas pessoas negras e homossexuais.

“Lena fala da importância de mudar a narrativa que ela encontrava e que não representava o que ela e outras pessoas viviam e o objetivo de colocar holofote nas pessoas que não têm a oportunidade de falar da sua perspectiva. Comunicação transformadora tem a ver com isso: se conectar com múltiplas vozes, abrir diálogo e dar voz para essas pessoas. Esse aspecto foi um dos grandes destaques dessa edição e do que a gente pode pegar para pensar nas causas no Brasil”, observa.

O segundo dia de evento seguiu recheado de mesas, debates e atividades que contemplaram uma infinidade de temas ligados a comunicação no campo social.

Na sexta-feira (12/10), o dia começou com uma fala inspiradora de Cecile Richards, ativista globalmente respeitada e elencada pela revista Time entre as cem pessoas mais influentes do mundo.

Uma das lideranças no campo da saúde da mulher e dos direitos reprodutivos, Cecile dividiu com o público um pouco de sua trajetória e ressaltou o papel do advocacy. Para ela, criar ou mudar uma narrativa leva tempo e por isso é preciso insistir na mensagem para quebrar paradigmas.

Outro elemento bastante destacado durante o evento tem a ver com o ‘desapego à marca’. Para Mariana, para que mais pessoas se sintam parte de uma causa, é preciso entender que ela é mais importante que a marca. “É o meu terceiro ComNet. Eu gosto de vir a esse evento porque acho que é uma lição de comunicação pelo formato e pela motivação que se tira e porque eles trazem um pouco de uma tendência que talvez a gente já saiba, mas se confirma aqui, que tem a ver com esse aspecto de conseguir fazer com que as pessoas hackeiem a sua marca. É interessante ver um evento circular o tempo inteiro em torno disso.”

Para Mariana, é preciso aprender a simplificar a mensagem, mas não ser simplista. “A gente sabe que os problemas são complexos, então precisamos traduzi-los de forma simples, mas sem banalizá-los.”

Giovana Bianchi, analista de comunicação do GIFE, acrescenta a importância de definir e conhecer bem os públicos aos quais serão dirigidas as mensagens. “Cada organização precisa conhecer com profundidade quem são seus públicos para definir uma estratégia e desenvolver uma narrativa envolvente, que conecte e os aproxime da sua causa. É algo que já sabemos, mas a Comnet trouxe muita inspiração. Corremos o risco de ficarmos ‘viciados’ no nosso discurso e no tom das nossas mensagens, então vale parar e olhar com cuidado, quantas vezes for preciso, para nos certificarmos de que está fazendo sentido. Esse processo na comunicação de implementar, testar e avaliar deve ser um ciclo, e não uma linha do tempo. Assim se vai fazendo ajustes até que esse ciclo se torne efetivo”, explica.

A analista conta ainda que o storytelling também ganhou evidência nos debates do evento. “As histórias são contadas desde muito tempo, desde os desenhos nas cavernas. As pessoas se lembram de histórias. Você pode mostrar uma apresentação maravilhosa, com dados, fatos e teorias, mas se você contar uma história que passe essa mensagem, elas vão sair de lá lembrando e recontando o que ouviram. Eu acredito muito no poder das histórias. É um desafio, mas é super possível soltar a criatividade e construir narrativas que gerem essa conexão.”

Rede Narrativas

A Narrativas, rede de profissionais que trabalham com a comunicação de causas de interesse público articulada pelo GIFE junto a associados e parceiros, surgiu da participação das últimas edições do evento internacional.

Tudo começou em 2015, após a participação de um grupo de comunicadores brasileiros na ComNet. O grupo se transformou em um comitê que passou a se encontrar regularmente a fim de instituir um fórum permanente dedicado à comunicação de interesse público no Brasil. Em 2018, esse comitê foi acolhido como rede temática do GIFE, o que propiciou fôlego para receber novos comunicadores de causas sociais de todas as partes do país.

Lançada durante o X Congresso GIFE (assista ao lançamento aqui), a Narrativas defende que as organizações da sociedade civil (OSCs) apostem na comunicação estratégica para pautar suas agendas e gerar mudanças.

Está previsto um encontro do grupo para compartilhamento dos debates e aprendizados da ComNet.

“Acho que as organizações, nesse tempo de turbulência política, precisam olhar para a sua comunicação, para as pessoas que estão fazendo isso e o Narrativas é um lugar para a gente acolher todo mundo e pensar estratégias e maneiras de garantir os direitos que já conquistamos e trabalhar para garantir novos, independente da área de atuação. Acho que pode ser um porto seguro nesse momento atual brasileiro”, observa Laura.

Comunicação transformadora e contexto político

De acordo com uma pesquisa online realizada pela Narrativas, a expressão ‘comunicação transformadora’ traduz algumas idéias-chave: comunicação que promove efetivamente algum tipo de mudança social, engaja, promove mudança de comportamento, informa com eficiência, produz reflexão, quebra paradigmas e sensibiliza/conscientiza.

Em sua última reunião, o grupo mapeou os elementos que fazem uma comunicação ser transformadora. Muitos deles convergem com o produto dos debate da ComNet 2018: estratégia; linguagem acessível; legitimidade baseada em uma causa de interesse público; autenticidade para gerar empatia e engajamento; aproveitar o ‘timing’, ou seja, pegar carona em temas que estão sendo amplamente debatidos ou fatos que ganham notoriedade; utilização de instrumentos como storytelling para gerar aproximação com o cotidiano; comunicação propositiva, que aponta o problema, mas também propõe soluções; foco na ação; gerar envolvimento dos públicos promovendo apropriação e empoderamento; uso de narrativas amigáveis, ou seja, aquelas que acolhem e conectam em vez de criticar e rechaçar; espaço para escutar e construção colaborativa; inovação; mostrar impacto em longo prazo; garantir o respeito à diversidade que promova inclusão de todos os pontos de vista; entender perfis dos públicos de interesse; diálogo entre pares e atuação em rede; entre outros.

Nesse sentido, a ComNet 2018 e o contexto norte-americano apontaram convergências e contribuições para pensar o papel da comunicação transformadora no contexto do atual cenário sociopolítico no Brasil.

A pauta política marcou o evento, fazendo parte de todas as atividades de alguma forma. Mariana conta que a situação vivida atualmente no Brasil também foi alvo de comentários. “Os Estados Unidos estão muito preocupados com a democracia e os governos autoritários no mundo”, observa a gerente.

Laura, do Alana, reforça essa visão. Ela menciona uma das mesas de que participou que pautou ‘como usar o calor da controvérsia pública para alimentar a missão’. “Nessa cacofonia, ninguém se escuta e ouvir passa a ser o maior desafio, mas também a chave para conseguir envolver outras pessoas e a si mesmo”, defende.

A coordenadora de comunicação do Alana conta que os cases apresentados na atividade falavam da necessidade de posicionamento por parte das organizações e destaca um dos aprendizados. “É importante agir de acordo com os valores. Não adianta falar que você é a favor da democracia se não colocar a ‘mão na massa’ para mostrar isso. Há sempre um preço a pagar, mas é preciso considerar quem vai sair prejudicado se você não se posicionar. E lembrar que não se posicionar também é uma forma de se posicionar.”

Ela destaca o papel do comunicador nesse debate. “A importância do comunicador é fundamental para exigir posicionamentos e ações que provoquem transformações na sociedade ou que defendam coisas que já estão estabelecidas para evitar retrocessos. Fortalecer essas pessoas que fazem comunicação e colocam muitas vezes a cara na rua pela organização é fundamental no Brasil, principalmente nesse cenário político que estamos vivendo e no cenário do ano que vem que a gente não sabe como vai ser.”

Para Giovana, a ComNet deste ano esteve contextualizada no cenário político e econômico dos Estados Unidos, mas tem tudo a ver com o momento atual do Brasil. “A conferência falou muito da importância de a gente se comunicar bem diante de um cenário de polarização extremada e do fenômeno da desinformação e fake news. Como passar nossas mensagens de maneira efetiva? Como fazer uma real mobilização em prol das nossas causas? Apesar das particularidades entre os dois países, foi muito interessante conseguir encontrar semelhanças e visualizar nosso cenário, pensando em como aplicar esses aprendizados no Brasil, em nossas organizações, para convocar uma atuação conjunta. Vivemos em um mesmo sistema. Se existe um problema, todos nós de alguma forma estamos envolvidos. É preciso despertar esse senso de responsabilidade nas pessoas.”

A ComNet

A ComNet ocorre anualmente nos Estados Unidos e reúne mais de 800 líderes de organizações sem fins lucrativos e fundações, bem como profissionais de comunicação de outros setores para discutir temáticas e tendências da comunicação em três dias de debates, palestras e workshops. A conferência ganhou a reputação de melhor evento de filantropia e comunicação sem fins lucrativos do país.

O evento é organizado pela Communications Network, uma rede criada há quase quarenta anos pelo falecido Frank Karel, das Fundações Robert Wood Johnson e Rockefeller. A rede tem mais de 1.300 membros ativos em todo o mundo, incluindo líderes da Fundação Ford, Fundação Robert Wood Johnson, Fundação Pittsburgh e World Wildlife Fund.

Segundo os organizadores, a ComNet vem se ampliando nos últimos quatro anos. Em 2014, cerca de trezentos profissionais participaram do evento. Este ano, o número de participantes de diversas partes do mundo chegou a mil. “Esse ano teve quase o dobro das mesas da edição passada”, conta Mariana.

Entre as novidades desde a última edição está uma atividade chamada de “Dia de Serviço”. A ideia é que os participantes sejam voluntários em organizações sem fins lucrativos locais.

Contexto local

Mariana ressalta a rotatividade do evento, que é realizado cada ano em uma cidade diferente com o objetivo de fortalecer a cultura das cidades e as ONGs da região, estas inclusive são convidadas a compor a programação. As últimas edições aconteceram em Miami (2017), Detroit (2016) e San Diego (2015).

Este ano, a conferência aconteceu em São Francisco e sua realização foi inicialmente planejada no Hotel Marrriot. No entanto, os organizadores foram surpreendidos por uma greve nacional dos trabalhadores hoteleiros.

Mariana observa o cuidado e a coerência da organização do evento que, para não ‘furar’ a greve, teve a iniciativa de reorganizar toda a programação em outros locais. “Se tem pessoas lutando por direitos, melhores oportunidades, salários mais dignos, não dá para a ComNet, que reúne várias fundações lutando por esse tipo de causa, quebrar uma greve como essa. Então, dois dias antes do evento eles procuraram outros lugares e a conferência se dividiu entre um hotel e um teatro. As pessoas tinham que andar bastante, mas valorizaram a atitude da organização e foram muito cordiais. Eles também chamaram uma das grevistas para falar. Eles sempre têm uma preocupação muito grande em contextualizar o lugar onde o evento acontece”, descreveu a gerente de comunicação do GIFE.

Notícias relacionadas

Apoio institucional