Como a pandemia aprofundou as desigualdades sociais em São Paulo

Muitas reportagens mostram que além da crise sanitária e das mais de 600 mil mortes, a pandemia expôs e aprofundou as desigualdades sociais que marcam o território brasileiro. Mas, quais indicadores revelam essa situação nacional? Como a pandemia atingiu de formas diferentes ricos e pobres? Essas são algumas questões abordadas na nova edição do Mapa da Desigualdade.

A iniciativa da Rede Nossa São Paulo apresenta dados nos temas população, meio ambiente, mobilidade, direitos humanos, habitação, saúde, educação, cultura, esporte, trabalho e renda e infraestrutura, analisados nos 96 distritos que compõem a capital paulista. 

“A principal proposta do Mapa de 2021 é trazer à tona o agravamento das desigualdades estruturantes e seus impactos, sobretudo na população mais pobre”, explica Jorge Abrahão, coordenador geral da Rede Nossa São Paulo. 

Acesso à internet móvel 

Um dos dados que mais chama atenção no levantamento é o indicador sobre acesso à internet móvel. Assim como nas edições anteriores, o Mapa faz um comparativo – chamado ‘desigualtômetro’ – entre o pior e o melhor índice de cada distrito da cidade em cada indicador. Nesse caso, a diferença entre Itaim Bibi, zona nobre da capital, e Marsilac, distrito localizado na periferia da Zona Sul, é de 2.513 vezes. 

“Cada vez mais o acesso à internet móvel tem se mostrado um empecilho para o acesso a bens e serviços por parte da população mais vulnerável e dependente do poder público, sobretudo diante do aumento da oferta de serviços públicos através de meios digitais, como no caso das aulas remotas e do cadastro para o auxílio emergencial”, explica Jorge. 

O coordenador reforça que a distribuição de antenas segue uma lógica desconectada de parâmetros técnicos, com uma grande concentração em regiões de maior poder aquisitivo, e menos antenas em grandes áreas periféricas – como nos dois maiores distritos: Marsilac e Parelheiros -, além do fato de não considerar a relação entre antenas e número de habitantes. 

“Um estudo mostra que a distribuição aceitável é de uma antena a cada mil habitantes e o limítrofe seria de uma antena até dois mil habitantes. Em comparação com o Jardim Helena, pior distrito no indicador de antenas por habitantes, esse número está muito aquém do aceitável, concentrando apenas uma antena a cada 10 mil habitantes.”

Covid-19 e os jovens 

O estudo de 2021 contou com alguns indicadores novos, como a mortalidade por Covid-19, que mostra que os distritos que concentram maior proporção de óbitos têm demografia mais jovem, o que vai na contramão do que se esperava quando o assunto é população mais vulnerável à infecção, como os idosos. Esse cenário envolve inúmeros elementos como desigualdade, território, faixa etária, moradia e trabalho. 

Jorge analisa que os distritos com os dez piores índices de mortalidade são os mesmos que concentram a maior proporção de jovens, como Parelheiros, Cidade Tiradentes e Iguatemi. 

“Os fatores de risco impactaram diretamente esses resultados, como a precariedade habitacional, relacionada com o indicador de densidade domiciliar e a dificuldade que muitas famílias tiveram em cumprir o isolamento em casas de cômodo único. Além disso, a necessidade de sair de casa para trabalhar e a histórica concentração de empregos formais em regiões centrais da cidade fizeram com que a população mais jovem e que vive em regiões mais afastadas do centro tivesse que enfrentar diariamente a superlotação do transporte público. Ao analisarmos essas questões, fica evidente que o endereço teve grande impacto na mortalidade por Covid-19.” 

Violências: policial e contra a mulher 

Quando o assunto é violência contra a mulher, houve um aumento de 2,6 vezes no desigualtômetro. Entretanto, Jorge comenta que o número total de registros de violência caiu em relação a 2019, o que pode significar um aumento da subnotificação. Esse cenário, por sua vez, pode ter conexão com a pandemia e medidas de combate ao vírus, como o isolamento social. 

“A redução nos registros pode ter sido influenciada pela dificuldade de acesso a postos de denúncia. Esse conjunto de fatores – a subnotificação e o fechamento de alguns serviços – pode ter influenciado diretamente na prevenção de casos mais graves e, muitas vezes, fatais da violência doméstica, explicando uma parte desse salto alarmante do feminicídio. É o caso do distrito de Guaianases. Outra parte dessa explicação pode estar conectada ao acesso a serviços de proteção à mulher, que possui imensos desafios de capilaridade no território”, explica. 

Outros dois novos indicadores desta edição da pesquisa são agressões por intervenção policial e mortes por intervenção policial. Em ambos, a região central da Sé aparece com o pior índice da cidade. 

Roberta Alstolfi, pesquisadora e especialista em violência, segurança pública e direitos humanos que ajudou a produzir os novos indicadores, explica sobre a complexidade da questão, que envolve inúmeros outros temas, como a relação entre evasão escolar e homicídio, o perfil dos jovens que são mortos pela polícia e sua situação de alta vulnerabilidade social, entre outros pontos. Nesse sentido, a especialista reforça que a pauta de homicídios não pode ser encarada isoladamente, mas em conexão com outros desafios e tipos de violência. 

Mobilidade 

Outra pesquisa recente realizada pela Rede Nossa São Paulo é Viver em São Paulo: Mobilidade Urbana, que analisa os hábitos de deslocamento dos moradores da cidade e os desafios no tema. 

Assim como no Mapa da Desigualdade, a pandemia teve impacto em algumas descobertas do levantamento. Diversos dados e achados mostram que o paulistano estaria disposto a usar menos o carro, se houvesse boas alternativas de transporte público e melhoria na qualidade e oferta, de forma a cobrir percursos desfalcados.  

Diante desse cenário, Jorge defende ser essencial que o poder público aproveite essa predisposição dos usuários para aprimorar as políticas públicas de mobilidade urbana.

“29 dos 96 distritos não têm acesso a nenhum transporte público de massa a um raio de um quilômetro de sua casa. A mudança de comportamento dos usuários de carros deverá vir acompanhada de melhorias efetivas no transporte público para que, de fato, o cenário da mobilidade urbana seja ressignificado.”

Outro ponto abordado pelo estudo é o uso da bicicleta como meio de transporte. Trata-se de um meio ainda pouco utilizado, ao que a população afirma medo de assalto/roubo (30%), demanda por mais segurança nas vias públicas (26%), mais sinalização (25%) e mais ciclovias (20%). 

Jorge avalia que a aceitação da ampliação de corredores de ônibus, ciclofaixas e ciclovias é uma importante mudança de comportamento diante de resistências do passado. Entretanto, reforça que a mudança de percepção deve vir acompanhada de ações que, de fato, incentivem as pessoas a alternarem para outros meios de transporte.

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